Trabalho por projetos: flexível e mais barato


Por que o modelo tradicional de emprego, em que as pessoas trabalham todos os dias para o mesmo patrão, começa a perder espaço nas grandes empresas.

Reviste Exame - por Ana Luiza Leal  

Mais de 430 000 funcionários trabalham no escritório da gigante de tecnologia americana IBM em 170 países. Essa gente toda recebe salário, chega de manhã, almoça no bandejão, fala mal do chefe na hora do café e vaí embora no fim do dia: são, digamos, trabalhadores tradicionais. Mas desde 2011 essa equipe começou a dividir projetos com um time paralelo, forma­do por especialistas conectados pela internet em todo o mundo. Nenhum deles tem um contrato formal de tra­balho com a IBM. Executam tarefas específicas, como a criação de softwa­res, e partem para outra. Após uma seleção virtual, eles trabalham remo­tamente na própria casa e têm de 12 horas a sete dias para entregar os resultados propostos. Um vídeo produ­zido para recrutar candidatos na rede menciona que o modelo permite que a empresa entregue resultados mais rapidamente para os clientes. E, claro, a um custo mais baixo. A empresa mantém em sigilo os detalhes e, pro­curada, não deu entrevista.

A rede de colaboradores da IBM mos­tra corno o modelo tradicional de em­prego, em que as pessoas trabalham todos os dias num escritório para um único patrão, começa a perder espaço. Segundo a consultoria americana Elan­ce, que conecta empresas a freelancers de mais de 150 países, a base de compa­nhias que contratam esses profissionais passou de 850 000 para 1,3 milhão ape­nas no último ano. É um universo difícil de mensurar, já que muitas vezes não há vínculo formal entre os profissionais e as empresas. Mas só nos Estados Uni­dos estima-se que 40 milhões de pes­soas - o equivalente a um terço da for­ça de trabalho americana - dedicam-se a trabalhos independentes, segundo o Freelancers Union, sindicato desses profissionais no país. Na Alemanha, apenas metade das pessoas trabalha 8 ou 9 horas por dia e cinco dias por se­mana para o mesmo empregador.

Esses números são resultado de urna lenta mudança na relação entre empre­gados e empregadores. As gerações mais novas querem liberdade para tra­balhar em casa ou em horários alterna­tivos. Em algumas profissões, principalmente nas ligadas à tecnologia, a prática de contratar profissionais por projeto é praxe - e não exceção. Em 2007, quando apareceram os primeiros aplicativos para seus celulares, a Apple nem sequer cogitou participar da cria­ção dos programas. Assim, parte fun­damental da estratégia da empresa para celulares ficou a cargo de um exér­cito de profissionais independentes. Estima-se que haja 300 000 deles dedi­cados a desenvolver aplicativos para o iPhone. Em contrapartida, quem cria os aplicativos fica com 70% do resulta­do das vendas - só 30% vai para a Apple. Há mais de 775 000 aplicativos disponíveis, pelos quais os desenvolvedores já receberam 7 bilhões de dólares. Nessa lógica, todos ganham. O Google criou algo semelhante para estimular o desenvolvimento de 800 000 aplicati­vos para seu sistema Android.

O maior benefício para quem con­trata temporários é o custo, aliado à flexibilidade. Sem uma força de traba­lho fixa, é mais fácil e mais barato em­barcar e desembarcar de novos proje­tos. É natural, portanto, que as empre­sas deem especial atenção aos tempo­rários em momentos de crise ou de escassez de mão de obra - como acon­tece no Brasil. "Muitas empresas precisam de gente em pouco tempo para suprir a demanda de projetos de ex­pansão", afirma Carolina Azevedo, executiva da empresa de recrutamen­to Michael Page. Foi o que aconteceu com a fabricante de motores america­na Ametek. Depois de crescer em seis meses o que esperava que levaria dois anos, a empresa precisou encontrar com urgência um gerente financeirono fim de 2011. "Tínhamos pouco tem­po para contratar alguém e queríamos ter certeza de escolher o profissional certo para a função", afirma Rodrigo Pinto, presidente da Ametek no Brasil. Por meio de uma consultoria, ele re­crutou a paulista Ludmila Dall"Orto. Ludmila foi efetivada em janeiro. A produtora de sementes e defensivos agrícolas suíça Syngenta enfrentou uma questão parecida. No ano passa­do, a equipe de finanças aumentou a carga de trabalho para dar conta, além da rotina usual, de mudanças de pro­cessos internos. "Para manter o time concentrado no que era estratégico, chamei temporários para cuidar do básico, como os balanços", diz Marcos Ashauer, executivo de finanças da Syn­genta. Quatro analistas chegaram em julho e ficaram até janeiro.

Algumas empresas começam a ado­tar freelancers até em sua estrutura fixa de trabalho. É o caso do escritório brasileiro da fabricante de software americana Adobe. Há cinco anos, a sub­sidiária decidiu pagar freelancers - fo­tógrafos, ilustradores, editores de video e designers - para apresentar seus pro­dutos a clientes em potencial, em vez de expandir a equipe de vendas. Hoje, 15 freelancers realizam até cinco pales­tras por mês nas capitais e em diversas cidades do estado de São Paulo. A ideia é ampliar a colaboração para outras regiões, como Norte e Nordeste.

• Restrições no Brasil 

No Brasil, a tendência esbarra na legis­lação trabalhista, que restringe a con­tratação de temporários a duas situa­ções - picos de demanda e afastamen­to temporário de funcionário (licença-­maternidade, por exemplo) - e por um período de três meses, prorrogáveis por mais três. A solução intermediária tem sido con ntratar consultorias de recrutamento que empregam os funcio­nários em tempo integral e oferecem o serviço temporário para grandes em­presas. A americana Robert Half e a inglesa Michael Page trouxeram o ser­viço para o Brasil há cerca de três anos, e a procura só aumenta. "Esse segmen­to, que responde pela maior parte da receita global, já equivale a 20% de nos­so faturamento no Brasil", diz Fernan­do Mantovani, diretor do escritório brasileiro da Robert Half, que hoje tem 200 profissionais contratados por em­presas brasileiras nesse sistema. Lá fora, o avanço dos temporários também enfrenta barreiras. No ano passado, quando a imprensa internacional noti­ciou que a IBM estudava substituir 8 000 de seus 20 000 funcionários na Alemanha por freelancers, a empresa foi tratada como vilã nos fóruns de fun­cionários na internet. Os temporários, aparentemente, vieram para ficar. Mas quem está dentro, é claro, não tem a menor intenção de sair. 

• Por que recorrer aos temporários

As situações mais comuns em que as empresas têm contratado esses profissionais.

1 - Para ganhar agilidade e cortar custos

Em 2011, a IBM passou a recrutar freelancers para trabalhar em projetos de criação de software.

2 - Para suprir contingências

Em julho, a Syngenta do Brasil contratou temporários para reforçar o time de finanças num período de trabalho mais intenso.

3 - Para testar profisionais

A nova gerente de finanças da fabricante de motores Ametek ficou um ano como temporária até provar que merecia o posto.

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