Tramas da cooperação


O que os outros sentem ou fazem reverbera em nosso cérebro, permite-nos aprender por imitação e reconhecer semelhantes. Embora não sejam exclusivos do ser humano, mecanismos neurais da empatia podem explicar alguns mistérios da vida em sociedade.

Revista Scientific American - por Salvatore M. Aglioti e Alessio Avenantti

O termo empatia foi usado pela primeira vez pelo filósofo alemão Theodor Lipps (1851-1914) no início do século XX para indicar a relação entre o artista e o espectador que projeta a si mesmo na obra de arte. Na psicologia e nas neurociências contemporâneas, o termo se refere à capacidade de perceber ou imaginar e compreender estados mentais e intenções alheias. Componente fundamental da comunicação, a empatia - uma espécie de "forma de inteligência emocional" - favorece habilidades sociais importantes, como o aprendizado pela observação e o reconhecimento dos semelhantes. Como o ser humano é social por princípio ela parece ter conferido a nossos ancestrais certas vantagens evolutivas.

A empatia pode ser dividida em dois tipos: a cognitiva, que tem relação com a capacidade de adotar e compreender a perspectiva psicológica das outras pessoas; e a afetiva, que se refere à habilidade de experimentar reações emocionais por meio da observação da experiência alheia. A interação desses dois tipos de "módulos" empáticos é o que torna possível reconhecer quando o outro está triste, furioso ou feliz.

Embora a empatia possa ser resultado de um ato de vontade (já que é possível buscarmos deliberadamente essa postura), também costuma escapar ao controle exclusivamente consciente. Experimentos já demonstraram que a apresentação de imagens de rostos tristes, enfurecidos e assustados induz nos observadores contrações imperceptíveis dos músculos da face normalmente ativados quando as pessoas experimentam tais emoções. Também o efeito camaleônico, isto é, a tendência de imitar posições e expressões daqueles com quem interagimos, é inconsciente, e é mais freqüente em pessoas com altas pontuações nos testes de empatia.

Segundo especialistas, as manifestações inconscientes de empatia derivam de um fenômeno primitivo definido como contágio emocional, que não requer a compreensão do que o outro indivíduo está experimentando. Um recém-nascido no berçário, que começa a chorar porque ouve outro bebê aos prantos, por exemplo, ainda não é capaz de entender a causa do desconforto de seu colega.

    Conceitos-chave

    - Há dois tipos de empatia: a cognitiva, que tem relação com a capacidade de adotar e compreender a perspectiva psicológica das outras pessoas; e a afetiva, que se refere à habilidade de experimentar reações emocionais por meio da observação da experiência alheia.

    - As formas inconscientes de empatia derivam de um fenômeno primitivo, muitos animais sociais apresentam essa habilidade, definido como contágio emocional, que não requer a exata compreensão do que o outro indivíduo está experimentando.

    - O princípio da ressonância, mediada por neurônios-espelho, pode explicar a predisposição do cérebro humano para compreender o outro por meio da simulação ou imitação.

  • Ressonância interna

    Os correlatos neurais dos processos empáticos têm sido tema de grande interesse nas neurociências. Segundo teorias recentes, a capacidade de compreender os estados mentais alheios se baseia numa série de mecanismos de ressonância interna que permitem simular, isto é, repetir mentalmente, aspectos emocionais, perceptivos e motores das experiências das pessoas que observamos. Por meio dessa simulação interna conseguimos nos colocar virtualmente no lugar dos outros.

    As pesquisas sobre mecanismos de ressonância emocional cognitiva e sensório-motora ganharam notável impulso com a descoberta dos neurônios-espelho, em 1996, por um grupo de neurocientistas da Universidade de Parma coordenados por Giacomo Rizzolatti. Essas células presentes em áreas específicas do cérebro são ativadas em duas situações: quando o indíviduo realiza um movimento e quando observa alguém executando o mesmo movimento. Este mecanismo parece crucial para a representação das ações alheias no próprio sistema motor e, conseqüentemente, para sua imitação.

    Além disso, a atividade deste sistema-espelho parece proporcional à familiaridade com que a ação é observada, como mostrou um estudo realizado no University College de Londres. Os pesquisadores apresentaram a bailarinos do Royal Ballet e a praticantes de capoeira vídeos relativos aos dois tipos de dança. Monitorados por ressonância magnética funcional, os neurônios-espelho apareciam mais ativados quando os indivíduos observavam os movimentos para os quais estavam treinados.

    O princípio da ressonância poderia refletir uma predisposição do cérebro humano para compreender o outro por meio da simulação ou imitação interna. O próprio Lipps deu o exemplo do espectador que admira o acrobata caminhar sobre o fio e se identifica a ponto de sentir-se dentro dele, sugerindo que a empatia implica uma espécie de imitação interior dos movimentos alheios. No entanto, os sistemas neurais que processam essas informações não se restringem apenas às ações.

    Diversos estudos sugerem que as pessoas compartilham representações neurais de emoções e sensações. Já foi demonstrado que & áreas cerebrais dedicadas à percepção tátil se ativam também quando o indivíduo observa estímulos táteis aplicados em outras pessoas. De forma análoga, experimentar uma emoção ou imitar uma expressão facial induz atividades em regiões do cérebro que, pelo menos parcialmente, podem se sobrepor àquelas ativadas quando se observam as mesmas expressões emotivas em outras pessoas. Este resultado foi confirmado com a descrição de um paciente que, depois de sofrer graves lesões cerebrais, não só não conseguia reconhecer sinais sociais de nojo nas expressões dos alheias, como também era incapaz de experimentar essa sensação.

      Sintonia e compaixão no reino animal

      Pelo menos em sua forma mais rudimentar, a empatia é uma capacidade que parece estar presente em todos os mamíferos, ainda que os estudos nesta área investiguem basicamente primatas e, mais recentemente, roedores. Estudo realizado em 2006 pelo biólogo Jefrey Mogil, da Universidade McGill em Montreal, observou que ratos também demonstram sinais de empatia pela dor de seus semelhantes. Publicada na Science, a pesquisa demonstrou que estes roedores são sensíveis ao sofrimento de outros indivíduos da sua espécie, mas somente com aqueles com quem já têm alguma familiaridade.

      O pesquisador avaliou duplas de animais, das quais um dos indivíduos recebia estímulos dolorosos de baixa intensidade. Quando o companheiro de gaiola já era um antigo conhecido (havia convivência anterior na mesma gaiola por mais de uma semana), ele manifestava sinais de que estava "sofrendo" pelo infortúnio do colega. Já quando os dois animais eram estranhos um para o outro, aquele que via o colega sentir dor reagia com mais moderação ou permanecia impassível. A prova dos nove foi a aplicação de estímulos de diferente intensidade nos dois animais. Verificou-se que o rato que sentia mais dor se agitava menos ao ver o companheiro mais sortudo, que por sua vez manifestava mais dor quando via o outro ser estimulado.

      Até que ponto é adequado falar em empatia neste caso é a indagação que aparece no editorial que acompanha o artigo de Mogil na Science. De qualquer modo, os ratos parecem ter estabelecido uma sintonia perceptiva e emocional que está bem próxima da empatia tal como a reconhecemos em nós mesmos.

    Em teoria, os sistemas neurais com propriedades-espelho são ideais para a capacidade de representar em si os estados mentais daqueles com quem convivemos. Este tipo de habilidade permite deduções sobre o comportamento do outro, sem ter de experimentá-lo diretamente e poderia ter uma função adaptativa em uma série de circunstâncias, especialmente naquelas relacionadas a sensações dolorosas.

    A dor é uma experiência sensorial e emocional desagradável, associada a um dano biológico potencial ou real e que aciona reflexos de alerta e autoproteção. Nela é possível distinguir uma dimensão sensorial-discriminatória (que se refere, por exemplo, à avaliação da duração e da intensidade da sensação dolorosa) e outra afetivo-motivacional (relacionada ao desconforto e à perturbação induzida pela sensação experimentada). A representação da dor no cérebro ennvolve estruturas múltiplas e complexas, a chamada "matriz da dor".

    Fazem parte dessa matriz dois grandes grupos de estruturas neurais dedicados separadamente à representação dos aspectos sensoriais e afetivos. Na camada mais externa do cérebro, as estruturas ligadas aos aspectos sensoriais incluem o córtex somatossensorial e a ínsula posterior, mas também regiões motoras e pré-motoras. Já o nó afetivo dessa rede inclui o córtex cingulado anterior e a ínsula anterior. Lesões nessas áreas provocam redução específica da resposta emocional que em alguns casos leva a um estado conhecido como assimbolia da dor, no qual a pessoa percebe o estímulo doloroso, mas não manifesta a reação emocional esperada.

    O envolvimento de áreas corticais em diferentes aspectos de experiência dolorosa foi demonstrado em uma série de estudos de neuroimageamento. Um deles utilizou a tomografia por emissão de pósitrons para estudar a atividade cerebral de voluntários sadios que tinham as mãos imersas em água quente para provocar dor térmica, mas não a ponto de causar queimaduras. Por meio de hipnose, foi induzida redução ou exacerbação da intensidade da dor. O resultado foi uma variação da atividade neural na porção sensorial da matriz quando eram sugeri das modificações na intensidade da sensação dolorosa, e na porção afetiva quando eram dadas sugestões relacionadas ao desconforto emocional.

    Em algumas circunstâncias, quando observamos a dor alheia, o componennte somático da empatia pode ser tão forte a ponto de deflagrar em nós uma reação física, como se estivéssemos "na pele" do outro. Dadas as estreitas relações entre dor e sistema motor (reflexos musculares, por exemplo), é possível cogitar a hipótese de que nesses casos a visão de alguém sentindo dor influencie a motricidade do observador. Em outras palavras, é possível pensar em formas de empatia em que ocorrem simulações internas dos aspectos sensório-motores da dor.

    Nosso grupo de pesquisa investigou uma forma muito básica de empatia para a dor que chamamos de "carne e osso". Ela é evocada por estímulos dolorosos muito intensos capazes de induzir no observador um forte envolvimento físico, mesmo na ausência de ligações afetivas com o modelo observado. Se a empatia para a dor se referisse somente a componentes emocionais, não deveríamos observar modulação dos sistemas somáticos e motores. Mas se a simulação interna do evento observado acontecesse como se um estímulo doloroso, aplicado na mão de uma outra pessoa, fosse experimentado por quem observa, então deveríamos assistir a uma espécie de preparação motora do observador.

    Na prática, quem observa a dor alheia deveria predispor a própria mão a reações de resistência ou, caso não seja possível evitar o estímulo, de relaxamento, para reduzir a dor. Para avaliar esta hipótese, submetemos voluntários saudáveis à estimulação magnética transcraniana (EMT). Verificamos que a observação do outro tendo a mão penetrada por uma agulha provoca a inibição do sistema motor do observador, que fica "congelado" como se o próprio membro estivesse sendo ferido. Mas somáticos e motores. Mas se a simulação interna do evento observado acontecesse como se um estímulo doloroso, aplicado na mão de uma outra pessoa, fosse experimentado por quem observa, então deveríamos assistir a uma espécie de preparação motora do observador.

    Na prática, quem observa a dor alheia deveria predispor a própria mão a reações de resistência ou, caso não seja possível evitar o estímulo, de relaxamento, para reduzir a dor. Para avaliar esta hipótese, submetemos voluntários saudáveis à estimulação magnética transcraniana (EMT). Verificamos que a observação do outro tendo a mão penetrada por uma agulha provoca a inibição do sistema motor do observador, que fica "congelado" como se o próprio membro estivesse sendo ferido. Mas quais componentes da experiência alheia estariam ligados a esta inibição motora?

    Nossa pesquisa demonstrou que as respostas inibitórias empáticas são específicas para o músculo que recebe o estímulo doloroso e que a inibição é tanto maior quanto mais os participantes acreditam que a pessoa observada esteja experimentando dor intensa. Não se observa, por outro lado, relação entre as respostas inibitórias e aspectos emocionais da dor. Estes resultados colocam em evidência o lado sensorial e motor da dor.

    Mais recentemente, usamos uma técnica mais moderna e específica para o estudo do sistema nociceptivo (relacionado à dor). Estímulos a laser capazes de induzir dor foram aplicados em voluntários sãos, enquanto eles olhavam a mão de um modelo desconhecido penetrada por uma seringa ou tocada por uma haste de algodão. A visão do estímulo doloroso reduzia a atividade neural apenas na parte sensorial da matriz da dor, o que mostra uma face egoísta do nosso sistema empático: quando se está sofrendo, a dor de um desconhecido tem menos importância. Os resultados diferem quando há uma relação afetiva o entre observador e observado, mãe e filho, por exemplo, mas essas pesquisas ainda não são conclusivas."

      Espelho interno da dor do outro

      Experimentos com estimulação magnética transcraniana (TMS) demonstraram que quando observamos um estímulo doloroso ser aplicado ao corpo de outra pessoa, áreas motoras do cérebro respondem de maneira específica, como se estivéssemos vivenciando aquela dor.

      A TMS consiste na aplicação de impulsos magnéticos sobre determinadas regiões cerebrais, neste caso, o córtex motor de voluntários. Enquanto isso, eles assistiam a vídeos que mostravam uma mão parada, outra que recebia estímulos dolorosos (penetração profunda de uma agulha), táteis (haste de algodão pressionando o mesmo músculo mostrado na imagem anterior) ou os mesmos estímulos aplicados a um pé ou a um objeto. Os impulsos magnéticos da TMS induziam nos músculos das mãos dos participantes contrações que eram monitoradas por meio de eletrodos.

      Os resultados mostraram que as respostas motoras induzidas pela TMS durante a observação da penetração da mão pela agulha apresentada no vídeo eram menos intensas que as ocorridas simultaneamente às outras cenas. Dito de outra forma, quando se observa a dor alheia, o sistema motorfica inibido como se um estímulo doloroso fosse aplicado ao próprio corpo. O fato de o sistema motor ser inibido seja quando se percebe a dor pessoalmente, seja quando se observa a dor de alguém, leva a pensar que essas respostas inibitórias refletem um mecanismo de ressonância empática da dor alheia.

      Nosso cérebro é sensível a aspectos sensoriais das experiências dos outros (como localização e intensidade da dor) e tende a "reproduzi-las" mentalmente, mapeando-as sobre o próprio corpo. Isto sugere que a empatia é um fenômeno de compartilhamento de sinais não só emocionais, mas também sensoriais. Do ponto de vista evolutivo, essa habilidade pode ter sido crucial para a aprendizagem social de comportamentos protetores e de reações defensivas a situações potencialmente perigosas.

  • Espectro autista

    A importância da empatia para a vida social é também demonstrada por transtornos do espectro autista, nos quais mecanismos empáticos estão aparentemente deficientes. O fato de o autismo atingir mais os homens levou o psicólogo inglês Simon Baron-Cohen a teorizar sobre a tendência sistematizadora masculina. Segundo o co-diretor do Centro de Autismo da Universidade de Cambridge, o cérebro de autistas seria uma versão extrema do cérebro masculino, no qual as capacidades empáticas são reduzidas.

    Do ponto de vista evolutivo, as mulheres parecem ter sido favorecidas pela empatia. Mas seu excesso pode resultar em stress pelo monitamento exacerbado do estado mental alheio, o que impede que as interações sociais sejam otimizadas. Da mesma forma, demasiada compaixão por alguém que sofre poderia, segundo a óptica individualista, prejudicar o status social do indivíduo no grupo. É plausível, portanto, que os baixos níveis de empatia estejam ligados à assertividade e, por vezes, à agressividade masculina.

    As pesquisas nesta área, entretanto, ainda estão no começo e apresentam grandes lacunas que só podem ser respondidas, por enquanto, no plano especulativo. Mas o crescente interesse dos neurocientistas pelos mecanismos da empatia deve abrir novas portas, num futuro não muito distante, para a compreensão de aspectos fundamentais da natureza humana.

    Para conhecer mais

    Empathy for pain involves the affective but not sensory components of pain. Tania Singer et al., em Science, vol. 303, nº5661, págs. 1157-1162,2004.
    Empathy for pain and touch in the human somatosensory cortex. I. Bufalari et al., em Cerebral Cortex, vol. 17, págs. 2553-2561, 2007.
    • Oratória

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