Tropeços no Recrutamento


Conheça os erros que os recrutadores e os profissionais cometem durante a entrevista de emprego e aproveite melhor a próxima oportunidade de mudar de trabalho.

Revista Você S/A - por Bruno Vieira

Neste início de ano, o mercado de trabalho está aquecido e receber uma proposta de emprego voltou a ser frequente. "Em pra­ticamente todas as áreas está ocorrendo uma retomada de planos de contratação", diz Marcelo De Lucca, diretor executivo da Michael Page, empresa de recrutamento com sede em São Paulo. Nessa fase, um velho fantasma assombra os profissionais: a entrevista de emprego. Muita gente ainda comete deslizes durante o processo de seleção. Despreparo e ansiedade excessiva são as principais razões que levam as pessoas a desperdiçar a oportunidade de conquistar um emprego melhor. Os recrutadores também falham. No final do ano passado, um grupo de 40 profissionais de diversos setores e de todas as partes do Brasil se reuniu pela internet e passou a trocar informações sobre as más experiências por que passaram durante a disputa por uma vaga. Das conversas, saiu uma lista de 13 hábitos que headhunters e áreas de seleção das empresas deveriam evitar (veja quadro nesta reportagem).

Em geral, os recrutadores sabem lidar com situações inusitadas e gafes dos candidatos. E avisam que só ca­sos extremos realmente comprometem o entrevistado. O bom headhunter procura fazer uma avaliação profis­sional do candidato sem dar espaço para reações emocio­nais. "Não cabe ao recrutador se envolver pessoalmente ou se irritar porque o profissional fala de determinada forma ou tem certa postura", diz Juliana de Lacerda, sócia-diretora da consultoria Gnext, em São Paulo. De ma­neira geral, os casos graves tanto para um lado quanto para o outro são as exceções. Os recrutadores lembram ainda que um perfil de candidato pode ser ótimo para uma empresa e péssimo para outra. "O headhunter com­petente sempre busca atender às necessidades da com­panhia que o contratou", explica Juliana.

• Falhas do candadito

Um comportamento que elimina o candidato em uma entrevista de emprego é falar mal de ex-chefes. "Já acon­teceu de um executivo criticar a própria empresa pela qual ele estava concorrendo à vaga", diz Ana Paula Pas­sarelli, headhunter da Passarelli Consultores, em São Paulo, que trabalha com posições de alto escalão. Sem­pre se pede ao candidato que não minta nas competên­cias, como fluência em inglês, ou apresente falsas refe­rências profissionais. Omitir questões importantes para a posição também não adianta: você será desmasca­rado mais cedo ou mais tarde. "Um candidato escondeu ter medo de avião durante uma seleção para uma vaga que previa muitas viagens", conta Ana Paula. "Ele foi contratado e demitido logo depois." Seja honesto. Se vo­cê for o candidato ideal, a empresa vai contratá-Ia inde­pendentemente de um ponto fraco, que poderá ser tra­balhado, depois, em treinamentos.

Um processo seletivo é coisa séria. Se você não pretende deixar seu emprego, não entre na disputa. Headhunters dizem que é comum encontrar gente que está interessa­da apenas em testar a empregabilidade ou saber se o salá­rio está na média do mercado. "Ninguém quer perder tem­po com leviandades. Há outros meios de conhecer a remu­neração para sua função, como pesquisas de mercado ou mesmo sondagens com conhecidos do meio", diz Carlos Eduardo Ribeiro Dias, sócio-gerente da Asap, divisão da Fesa, que recruta jovens gerentes. Mesmo para quem está satisfeito na empresa atual, é praxe haver uma conversa pessoal. Para ir além desse ponto, avise o recrutador que a intenção de deixar o cargo atual é baixa, até porque, em muitos casos, o headhunter não pode dizer num primei­ro momento qual é a empresa e o salário oferecido.

Os recrutadores percebem logo quando o profissional está tentando enrolar. Por isso, seja objetivo e evite ficar contando histórias longas. Fuja de perguntas que visam verificar uma determinada competência ou experiência. "Também recomendo tomar cuidado para não discutir detalhes sem importância da contratação, como a mar­ca do celular que a empresa oferece", diz Danielle Sarraf, diretora de RH do grupo de agências publicitárias PPR e ex-headhunter da Mariaca & Associates.

É importante ser flexível e encontrar na agenda um horário para fazer as entrevistas inerentes ao processo. A contratação pode não ser definida apenas pelo headhun­ter - o mais comum, aliás, é que um gestor da empre­sa também converse com o candidato. "Em alguns ca­sos eu já fiz as primeiras entrevistas, a companhia con­tratante quer conhecer o candidato e tem gente que fica propondo horários inviáveis ou remarcando inúmeras vezes", diz Carlos Eduardo, da Asap. Obviamente, na ca­beça da empresa e do caça-talentos, isso sinaliza pouco interesse do candidato. Se você já se decidiu por recusar um convite, diga o quanto antes aos envolvidos.

• Quando o recrutador erra

Uma questão que irrita bastante os candidatos a um em­prego é a falta de feedback dos recrutadores. A queixa é que os headhunters desaparecem após a entrevista, sem dizer por que o candidato não ficou com a vaga. "Com exceção de cargos altos, o que se pode fazer é dar retor­no técnico, se ele foi bem ou não no inglês, por exemplo"; diz Fabiana Nakazone, gerente da DM Especialis­tas, divisão do grupo DMRH, responsável pela seleção de profissionais até cargos de média gerência para com­panhias como o Unilever, Johnson & Johnson e Dow Che­mical. "Mas recomendar que um candidato mude carac­terísticas da sua personalidade só porque uma empre­sa não gostou é colaborar para limitar a visão do profis­sional em relação a outras oportunidades."

Pregar rótulos em candidatos é uma atitude errada, mas que ocorre. O engenheiro Carlos Reimer, de 33 anos, gerente de operações da companhia de calçados Kenner, em Campina Grande, na Paraíba, conta que foi difícil su­perar o estereótipo quando deixou uma empresa estatal de energia. "Era visto como o funcionário público que tem salário alto e produtividade baixa, o que, em tese, significaria falta de ambição", explica Carlos.

O candidato não precisa responder a perguntas que nada tem a ver com o cargo. "O foco na entrevista deve ser o lado profissional, mas já vi recrutador verificar a posição social do profissional", diz a psicóloga Ana Frai­mano num caso assim, questione que diferença isso faz. Perguntas constrangedoras também ocorrem e, depen­dendo do tom, o melhor a fazer é descartar a empresa rapidamente, como conta Márcia Hasche, da consulto­ria Valor Pessoal, especializada em clima organizacio­nal. "Um recrutador certa vez perguntou se eu tinha fi­lhos e o que fazia para evitar", lembra.

Headhunters também têm problemas em otimizar a agenda. No ano passado, um caça-talentos pediu ao administrador de empresas Edson Salvio Jr., de 39 anos, atualmente desempregado, que adiantasse em uma ho­ra o início da entrevista. "Quando ele ligou, faltava ape­nas uma hora e meia para o novo horário sugerido. To­pei, mas avisei que poderia me atrasar uns 15 minutos. Chegando lá, ele fez a entrevista às pressas porque já ha­ via outro candidato esperando", diz Edson. "Pior que is­so só quando um entrevistador marcou o encontro na praça de alimentação de um shopping em pleno horá­rio de pico. E a conta ficou para eu pagar."

• Cuidado com falsos recrutadores

O cientista da computação Samuel Vaz, de 30 anos, analista de tecnologia da Webfoundations, em São Paulo, caiu numa cilada conhecida no merca­do. Foi convidado a participar de um processo mas, na hora da entrevista, descobriu que do outro lado não havia um headhunter. "Era uma empresa que oferece aconselhamento de carreira e assessoria de análise de curriculo", lembra. O serviço custaria 2.000 reais. "Ela até conseguia marcar entrevista com uma ou outra empresa, mas ficava sob mi­nha responsabilidade convencê-Ia a me contratar. E só avisavam que o serviço seria cobrado no meio do terceiro encontro", diz Sarnuel.

• As 13 maiores mancadas do candidatos, na opinião dos recrutadores.

1 - Omitir fatores que são requisitos importantes para a posição, como a impossibilidade de mudar de cidade ou de viajar com frequência
2 - Discursar autoelogios, usando adjetivos batidos como "dinâmico", "criativo", "inovador", e tudo na primeira pessoa: "eu fiz", "eu consegui".
3 - Perder a linha de raciocínio con­tando "causos", ou se justificar em excesso, fazendo papel de vítima.
4 - Questionar detalhes pouco importantes em uma primeira entrevista, como qual modelo de celular a empresa oferece.
5 - Faltar ao encontro e não avisar com antecedência, ou cancelar e remar­car várias vezes.
6 - Não ser transparente ao explicar o motivo do desligamento das empresas em que trabalhou.
7 - Não dar bola a uma sondagem por estar bem empregado ou por consi­derar-se muito competente.
8 - Dar sequência a um processo seletivo apenas para testar a empregabilidade, ou para saber se o salário está na média e desistir depois.
9 - Fazer leilão do tipo "quem paga mais" entre as ofertas da nova empresa e as contrapropostas da empresa atual.
10 - Manter o celular ligado durante a conversa. Pior ainda quando resolve atender.
11 - Exceder na ansiedade e ficar per­guntando todos os dias sobre o andamento do processo.
12 - Insistir para que o entrevistador revele o pacote de remuneração, ou a empresa contratante, antes da hora.
13 - Falar de forma negativa ou revelar informações confidenciais sobre as empresas em que atuou e sobre os profissionais com quem trabalhou.

• As 13 maiores mancadas dos recrutadores, na opinião dos candidatos.

1 - Não dar feedback: se o currlculo chegou, se a vaga foi fechada, se o candidato já foi excluído...
2 - Não estudar com antecedência o currículo do candidato e fazer uma leitura dinâmica instantes antes ou mesmo durante a entrevista.
3 - Marcar encontros em lugares inadequados e barulhentos, como shoppings e cafés.
4 - Fazer perguntas que invadem a privacidade do entrevistado, como o desejo de ter filhos, ou se é casado de papel passado.
5 - Rotular o profissional tomando por base o perfil de alguma empresa em que trabalhou.
6 - Confidenciar "estou trabalhando esta vaga por fora da empresa que represento".
7 - Chamar para entrevista usando uma determinada vaga como isca, mas entrevistar para outra, cuja função e salário não são condizentes.
8 - Chamar para uma entrevista apresentando uma oportunidade e, no meio da conversa, revelar: "Queria apenas conhecê-lo."
9 - Entrevistar dois candidatos simulta­neamente para "ganhar tempo" ou fazer a entrevista às pressas por­ que o candidato seguinte já chegou.
10 - Durante a entrevista, permitir ser interrompido por terceiros, atender ao celular, sair da sala, ler e-mails...
11 - Dizer que vai passar o candidato pa­ra a próxima fase e sumir sem dar nenhuma satisfação.
12 - Medir visualmente o candidato de cima a baixo, antes mesmo da conversa iniciada.
13 - Fazer perguntas ou insinuar brinca­deiras preconceituosas relaciona­das à religião, cor da pele, preferên­cia sexual e aparência física.

cia sexual e aparência física.

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