Ufa!


Um número cada vez maior de profissionais se diz exausto e não suporta mais o emprego. Se esse é o seu caso, cuidado: você pode estar sofrendo da síndrome de burnout.

Revista Você S/A - por Mauro Silveira

Você provavelmente já acordou numa manhã qualquer sem forças paara sair da cama e enfrentar mais um dia de trabalho. Se dependesse de sua vontade, simplesmente viraria para o lado e contiuaria dormindo. Mas, aos poucos, os minutos passam, o organismo reage e você se levanta e segue em frente. Isso é normal, não se preocupe. Todos nós, dependendo do dia, despertamos menos ou mais dispostos. O problema é quando essa sensação se intensifica e mantém-se durante dias ou até por meses seguidos, a ponto de a hora de ir para o escritório transformar-se num martírio, num grande sofrimento. Se isso tem acontecido com frequência na sua vida, então você provavelmente faz parte dos cerca de 40% da população economicamente ativa que sofre de um mal cada vez mais comum nos dias de hoje. Não, não se trata do velho e conhecido estresse. Estamos falando de um abismo ainda mais profundo e tenebroso: a exaustão profissional, doença que avança sorrateiramente e, com o tempo, mina tanto o corpo quanto a mente.

Nos Estados Unidos a exaustão profissional ganhou o nome de burnout, expressão que resume bem o impacto da doença sobre o organismo e que pode ser traduzida como "uma fogueira ou uma chama que se extingue". Ou seja, a vítima sente-se sem energia, completamente esgotada. A doença está diretamente ligada ao trabalho, e atinge, na maioria das vezes, os indivíduos que têm um relacionamento mais intenso com outros colegas na empresa.

"A pessoa fica bem em qualquer lugar, menos no escritório, pois não sente mais satisfação na realização de tarefas que antes eram prazerosas": afirma a psiquiatra Alexandrina Meleiro, professora-doutora do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. "Geralmente ela se acha lesada porque a empresa não tem reconhecido seu esforço e dedicação. Muitas vezes trabalha o dobro ou o triplo do colega ao lado, só que o chefe não enxerga essa diferença. E isso é desestimulante."

Embora a diferença entre exaustão profissional e estresse seja grande, nem sempre os médicos conseguem fazer um diagnóstico preciso. O estresse é, a rigor, um conjunto de reações que o organismo desenvolve diante de uma situação que exige resposta. Um assalto, por exemplo. Se você é abordado por um assaltante armado, seu organismo fica em estado de alerta. Há uma descarga de adrenalina, uma concentração maior de sangue no cérebro, os músculos se retesam e o coração bate mais acelerado. Você está pronto para qualquer tipo de reação: fuga, luta, negociação. Mas, quando o ladrão vai embora, aos poucos seu organismo começa a voltar ao normal. Estresse, aliás, não significa necessariamente sofrimento. Torcer pelo seu time do coração na final de um campeonato, por exemplo, também pode ser estressante. O estresse só se torna grave quando esses momentos de pico se tornam permanentes, sem intervalos que permitam uma recuperação do organismo.

Já a exaustão no trabalho, ou esgotamento profissional, como é oficialmente reconhecida no código internacional de doenças, provoca desgaste e sofrimento. É consequência direta do dia-a-dia altamente competitivo que os profissionais enfrentam dentro das organizações e não em momentos de pico estressantes. É um processo lento, que leva semanas, meses e, em alguns casos, até anos para se manifestar. Hoje, mais do que nunca, trabalhamos sob pressão, temos de produzir cada vez mais num espaço de tempo restrito e num nível de exigência altíssimo. "O profissional tem interesse e vontade de fazer bem a sua parte, mas nessas condições nem sempre consegue realizá-Ia de maneira que o deixe satisfeito", afirma a médica do trabalho Lyz Esther Rocha, da Delegacia Regional do Trabalho de São Paulo e professora de medicina social da Faculdade de Medicina da USP.

A síndrome de burnout age miinando a resistência do organismo, e suas vítimas podem apresentar inúmeras manifestações:

- Distúrbios psicológicos

Insegurança, medo, ansiedade, inquietação, aflição

- Distúrbios orgânicos

Hipertensão, disfunção digestiva, problemas cardíacos e dermatológicos, dores musculares e de cabeça, insônia

- Alterações comportamentais

Dificuldade na resolução de problemas do cotidiano, procrastinação, impaciência em relação aos outros, indiferença, irritabilidade, intolerância

- Mudança no estado de ânimo

Apatia total e incapacidade de sentir satisfação na execução de tarefas. Ir até a mesa do colega ao lado é penoso. Telefonar para um cliente torna-se um sacrificio. Há um sentimento de tristeza profunda e de infelicidade

Os headhunters e consultores de carreira concordam: a quase totalidade dos executivos com os quais mantêm contato queixa-se com frequência de esgotamento físico e mental. "É comum ouvi-Ios dizer que o fim de semana não é suficiennte para repor as energias", diz Vicky Bloch, sócia-diretora da DBM, empresa de recolocação de executivos. Foi o que aconteceu com Rubenvaldo Costa, de 49 anos. Durante 23 anos, ele trabalhou no Banco do Brasil, sendo o principal nome da instituição em cidades como Londres, Milão e Tóquio. Trabalhar em excesso era a uma rotina em sua vida. Mas nos últimos anos ele vinha se sentindo cansado, desanimado e completamente desestimulado. A gota d"água foi quando recebeu a responsabilidade de comandar o processo de demissão voluntária do banco, em 1996. "Fui responsável direto por um corte de 15.000 pesssoas", diz. "Trabalhava 14 horas por dia, não tinha tempo para minha família e ninguém reconhecia meu esforço. O pior de tudo foi ver de perto a dor que os demitidos estavam sentindo. Com o passar do tempo, ir para o trabalho se tornou uma verdadeira tortura. Passei a dormir mal, a ter calafrios e a ficar irritado facilmente."

Naquele mesmo ano Costa tomou uma das decisões mais difíceis da sua vida. Apresentou sua carta de demissão em caráter irrevogável. "Todos me chamaram de louco, pois ninguém em sã consciência joga 23 anos de trabalho no Banco do Brasil para o alto." Apesar da pressão para que ficasse, ele se manteve firme na decisão. Recebeu e aceitou um convite feito pelo Banco Bamerindus meses antes de sua venda ao HSBC. Tudo ia bem no novo emprego até a chegada dos ingleses do HSBC e o início da reestruturação do banco. Costa foi um dos poucos executivos que permaneceram naquele momento de mudanças. Mais uma vez teve de trabalhar dobrado numa situação de completa indefinição. Nessa fase surgiu um convite do Banco Safra, em 1997. E, mesmo distante do antigo emprego, Costa continuou sofrendo as conseqências da venda do Bamerindus, já que seus bens, assim como os de todos os ex-executivos do banco, permanecem indisponíveis até hoje. Para suportar a barra, ele recorreu à homeopatia. Seguiu à risca as orientações médicas e conversou com consultores de carreira. Mais calmo, começou a perceber que todas essas experiências pessoais poderiam ser úteis para o mercado. E foi assim que se tornou consultor e passou a ensinar executivos a como enfrentar e sobreviver aos inevitáveis momentos de mudança em suas vidas.

Além de o esgotamento ser confundido muitas vezes com o estresse, alguns profissionais da área da saúde atêm-se mais aos sintomas e não à causa da doença. "Os pacientes queixam-se inicialmente da dor de cabeça que vêm sentindo, da dificuldade em dormir, de problemas gastrintestinais e da irritabilidade", diz o psiquiatra Avelino Luiz Rodrigu.es, doutor em psicologia social pela PUC de São Paulo e professor dos cursos de pós-graduação em psicologia da saúde e hospitalar da Universidade de Guarulhos. "Cabe ao médico conduzir a conversa e detectar a verdadeira causa daqueles sintomas:"

Como na maioria das doenças, a príncipal arma de combate à exaustão profissional é a prevenção. O Centro de Promoção à Saúde do Hospital das Clínicas de São Paulo é exemplar nesse sentido. Seus profissionais trabalham para que o cansaço e o estresse de seus pacientes não evoluam para o esgotamento. Embora seja voltado para a triagem de pacientes com os mais variados tipos de problema, não é raro encontrar pessoas com manifestações típicas de esgotamento profissional. Elas então participam de atividades em grupo coordenadas por uma equipe multidisciplinar, formada por um clínico geral, um psiquiatra e um psicólogo, entre outros especialistas. Em geral, oito sessões são suficientes para que os pacientes desenvolvam técnicas comportamentais que os ajudem a vencer a doença. "Nesses casos, o tratamento não é terapêutiico", diz o médico Mário Ferreira Júnior, responsável pelo centro.

Atentas ao problema de exaustão de seus funcionários, várias empresas saíram na frente e adotaram programas preventivos. No laboratório americano Merck Sharp & Dohme, por exemplo, há sessões de ginástica com personal training, aulas de tai chi chuan e massagem relaxante para todos.

No Rio de Janeiro, o laboratório Canonne, fabricante das pastilhas Valda, não fica atrás. Seu diretor-geral, Hugues Ferté, é simpatizante do budismo e incentiva todos da equipe a participar diariamente das aulas de ginástica no período da manhã e das sessões de meditação no horário do almoço. "O objetivo é proporcionar um ambiente mais agradável para os funcionários trabalharem", diz Ferté. "A organização que protege o funcionário do esgotamento profissional só tem a ganhar", diz a médica do trabalho Lyz Esther Rocha. "Infelizmente muitas empresas ainda não perceberam que o bem mais valioso que possuem não são as máquinas ultra-modernas ou o escritório luxuoso, mas o seu capital humano".

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