Um novo olhar para a mente das crianças


Os cientistas já decifram com precisão os mecanismos de transtornos infantis como o déficit de atenção e a hiperatividade. E um fascinante caminho para tratamentos que conduzam mais rapidamente a uma vida normal e feliz.

Revista Veja - por Gabrila Carelli e Carlos Giffoni

Em 1902, o médico inglês George Still, um dos pais da pediatria moderna, analisou 43 crianças com sérios pro­blemas de atenção, indisci­plinadas e agressivas. Em seu estudo, publicado na prestigiosa revis­ta científica The Lancet, esse comportamento irascível foi tratado como uma fa­lha congênita, um defeito no cérebro que impedia o "controle moral" infantil. Dois anos depois, o médico W.A. Potts, tam­bém inglês, descreveu a doença de forma mais detalhada. O mal, transmitido pelos pais, transformava pessoas normais em seres egoístas, desinibidos a ponto de "não terem vergonha de nada". A doença em questão, hoje vastamente investigada, é o transtorno de déficit de atenção com hipe­ratividade (TDAH), que afeta uma em ca­da vinte crianças em todo o mundo - ra­zão pela qual, na sopa de letrinhas gera­cional, a geração Z, que compreende me­ninos e meninas com até 12 anos, também é chamada de Geração Ritalina. Um dis­túrbio sério que, ao contrário do que se pensava no início do século passado, não é uma falha de caráter hereditária, nem o suprassumo dos maus modos.

Se não tratado, o TDAH pode arruinar a vida de uma criança erroneamente tachada de desatenta, atormentada e malcriada - as notas baixas são apenas o começo dos problemas. O TDAH, o mais popular, co­nhecido e diagnosticado transtorno psíqui­co infantil, é um estopim poderoso de dis­túrbios ainda mais sérios, como a ansieda­de, em suas mais diversas formas, a depres­são e o transtorno bipolar. Todo pai ou mãe que tem um filho um pouco mais agitado, que não presta atenção na aula e apresenta um desempenho aquém do esperado, uma vez ao menos suspeitou, depois de tanto ouvir falar do assunto, que o filho tivesse o tão falado déficit. Também deve ter se perguntado, em algum momento, se devia le­var a criança ao psiquiatra e medicá-Ia com Rítalina ou: um medicamento similar, um estimulante capaz de melhorar a cognição, o foco e acalmar (parece um despautério, mas não é) um paciente com TDAH.

Lançada em 1956, a Ritalina é a mais antiga e a mais comum entre as chamadas drogas da inteligência (ou drogas da obe­diência, em sua versão mais irônica), as pílulas usadas por estudantes e executivos para turbinar o desempenho intelectual. O princípio ativo do medicamento, o metilfe­nidato, é um derivado da anfetamina, subs­tância comum nos remédios para a perda de peso (e proibida no Brasil desde outu­bro de 2011). Considerada de baixa po­tência, seus efeitos no cérebro são mais brandos do que os desencadeados pelas
anfetaminas tradicionais. Ainda restam dúvidas sobre seus mecanismos de ação. É certo que a droga estabiliza as concentrações de dopamina e noradre­nalina no cérebro. Pacientes com TDAH podem ter níveis alterados de um ou de ambos os neurotransmissores, o que impediria o neurônio que recebe uma informação de processá-Ia corretamen­te. Alguns especialistas acreditam que os problemas são outros - a falha esta­ria nos receptores dessas substâncias no interior das células nervosas. "A medi­cação faz com que os dois neurotrans­missores permaneçam mais tempo na fenda sináptica, o espaço entre um neu­rônio e outro, aumentando o estímulo das células nervosas, atenuando a agita­ção e aprimorando a concentração", ex­plica o psiquiatra Adriano Predeus, de São Paulo. "Mesmo em pacientes sem o distúrbio, o metilfenidato promove uma melhora na atenção. No entanto, só quem, de fato, tem TDAH se torna mais calmo e menos agitado ao consumir o remédio", ressalva Predeus.

Foram os aparelhos de neuroima­gem, desenvolvidos nas últimas déca­das, que permitiram enxergar as altera­ções funcionais no cérebro de pacien­tes com e sem TDAH. Em condições similares, os registros revelam maior atividade neuronal em diversas regiões cerebrais em quem tem a doença. As novas tecnologias estão por trás do au­mento exponencial no diagnóstico de transtorno bipolar e depressão em crianças, além de propiciarem um me­lhor entendimento da dislexia (a difi­culdade em ler e escrever) e da discalculia (problemas com cálculos em ge­ral), ambas causadas por pequenas le­sões cerebrais.

De todos os transtornos constatados, nenhum é tão ruidoso quanto o TDAH. A doença mudou de nome uma dezena de vezes e foi descrita das mais diferen­tes maneiras, tanto em relação às causas quanto às consequências, desde sua pri­meira descrição, há exatos 11anos. Apesar das evidências científicas, ainda há, inclusive no meio acadêmico, quem
não acredite na existência do distúrbio. Ele seria um mal que, afinal de contas, a palmatória de antigamente ou a conver­sa séria com os pais ou psicólogos de hoje em dia resolveria. Pululam infor­mações contraditórias sobre o assunto. Não é de estranhar, portanto, a apreen­são das famílias a cada nova notícia so­bre o aumento exponencial no consumo do metilfenidato e na possibilidade, mesmo que remota, de ter de medicar o filho. Um levantamento divulgado pela Agência Nacional de Vigilância Sani­tária, a Anvisa, no mês passado, reve­lou um aumento de 75% na prescrição de drogas irmãs da Ritalina para me­n nores de 16 anos em um período de três anos. Houve espanto com a supos­ta supermedicação.

O temor não se justifica. Na maioria quase absoluta dos casos, os médicos que prescrevem estimulantes para seus pacientes menores de idade "endiabra­dos", que apresentam prejuízos nos de­sempenhos escolar e social, não são monstros malvados cujo objetivo de vida é fazer mal a pobres criancinhas. É evi­dente que não. Nem é esse o intuito dos psiquiatras que assinam as receitas de ansiolíticos e outros psicotrópicos para tratar a bipolaridade infantil - outro balaio de discórdia. O fato é que, até agora, goste-se ou não da Ritalina e com­panhia, nada se mostrou tão eficiente e seguro quanto os estimulantes de baixa potência para amenizar os sintomas do TDAH. Foi o que revelou a mais com­pleta e mais longa pesquisa já feita sobre o tema. Bancado pelo Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos e conduzi­do pelo médico Stephen Hinshaw, da Universidade da Califórnia, em Berke­ley, o estudo avalia, há catorze anos, a ação da Ritalina no tratamento de pa­cientes mirins com déficit de atenção. No primeiro teste, foram analisadas 579 crianças com TDAH, por catorze meses. Elas foram divididas em quatro grupos: o primeiro tomava somente o remédio. O segundo só fazia terapia. O terceiro com­binava os dois tratamentos. O último grupo não era submetido a nenhuma des­sas práticas médicas. A cada dois anos os pesquisadores refazem a avaliação. Hou­ve melhoras em 95% dos pacientes que tomam a medicação - assim que a dro­ga entra na corrente sanguínea, a atenção aumenta, o raciocínio se toma preciso e a criança, mais calma, percebe quanto incomoda os outros, algo do qual os pa­cientes com o distúrbio não têm noção. "A Ritalina funciona muito bem na maioria dos casos. Não vejo razão para tanto questionamento. Deixar de tomar a Ritalina ou similar significa repetir o ano várias vezes e não ter amigos, iso­lar-se socialmente. A vida da criança, e a dos pais, vira um inferno", disse Hinshaw a VEJA.

Mais de 40% dos alunos que cursam as séries iniciais do ensino, com até 7 anos de idade, apresentam dificuldades em acompanhar o que lhes é ensinado. Destes, 10% têm algum distúrbio psí­quico que compromete o aprendizado - o equivalente a meio milhão de aluni­nhos no Brasil. Lançado na semana pas­sada, o livro Manual dos Transtornos Escolares, do psiquiatra Gustavo Tei­xeira, lista mais de duas dezenas de condições que estão por trás do fracas­so na escola. A maioria dos pequenos com dificuldades causadas por altera­ções na bioquímica cerebral não recebe tratamento adequado. Parte disso acon­tece por despreparo dos professores bra­sileiros. "Pouquíssimos são capazes de identificar um distúrbio. A maioria acha que um rendimento baixo é resultado de falta de vontade do aluno", diz Teixeira. É muito comum, por exemplo, crianças com altas habilidades ou superdotadas serem diagnosticadas como patologica­mente desatentas, por exemplo. Outro mon­tante de meninos e meninas segue sem tratamento por preconceito dos próprios pais. Os transtornos psíquicos ainda são um tabu. Para muita gente, as doenças da alma não passam de melindre, des­culpas dos fracos, incapazes de enfren­tar os problemas da vida (quem já não perdeu um parente, o emprego, ou ficou negativo no banco?, questionam os incrédulos). "Foi somente com o surgi­mento do Prozac, há quase três décadas, a droga da felicidade capaz de melhorar as condições de pacientes com depres­são, que os tratamentos psiquiátricos se popularizaram de fato", afirma o psi­quiatra Adriano Predeus.

É inconcebível supor que a rigidez na educação, e apenas ela, possa tratar distúrbios cerebrais sérios - tais con­dições precisam ser combatidas com medicamentos e acompanhamento psi­cológico, na maioria das vezes com os dois apoios. Não se pode confundir os cuidados que filhos com transtornos de comportamento exigem com outra postura, a das tão badaladas mães tigres. No livro que iluminou esse tipo de personagem, a professora de direito americana de origem chinesa Amy Chua faz sua pregação e ensina como transformar crianças normais em campeãs de tudo, de virtuoses no violino a ganhadores de todos os prêmios de melhor aluno. A mãe tigre não está interessada decididamente, em ajudar pais de crianças doentes a torná-Ias normais - ou quase. E melhor esquecê-Ia.     

As recentes descobertas a respeito dos distúrbios psíquicos na infância promoveram uma transformação no tratamento de muitos transtornos, mas ainda há muito para descobrir. Na infância, a linha fina que separa os diferentes transtornos mentais é ainda mais tênue do que na idade adulta. A depressão, caracterizada por estado inexplicável da    melancolia aguda, pode se expressa  por um excesso de agressividade e irritabilidade nos mais novos. Sintoma: confusos tomam comuns diagnóstico equivocados. Estes, sim, são um motivo de preocupação para os pais. A ciência tem aberto avenidas que ajudam a desvendar a mente infantil. Da família, exigem-se cautela e compreensão.  

• Quando punir e exigir só agrava a situação

Um quarto das crianças com idade entre 6 e 16 anos tira notas ruins não por desleixo, mas por sofrer de distúrbios sérios que promovem alterações na bioquímica cerebral. Todos eles precisam ser diagnosticados e tratados por especialistas.

- Transtorno de déficit de atenção com hiperatividade (TDAH)

Peso genético: Alto
O que é: A falta ou má absorção de dopamina no córtex pré-frontal diminuem a capacidade de concentração e a memória da criança.
Em casa: O paciente alterna momentos em que tenta sem sucesso fazer muitas tarefas ao mesmo tempo com momentos em que parece estar tão profundamente concentrado que se desliga do mundo.
Na escola: Em geral, são alunos inconstantes, com altos e baixos no boletim de notas. Alguns pacientes diagnosticados com TDAH são extremamente criativos e chegam a ser classificados de superdotados.
O papel dos pais: Os portadores deste distúrbio entendem muito bem as regras, como qualquer criança, e precisam aceitar os limites impostos pelos pais ou professores. Se ao transtorno se somar a indisciplina, o quadro ficará mais complicado.

- Transtorno desafiador opositivo

Em casa: O paciente alterna momentos em que tenta sem sucesso fazer muitas tarefas ao mesmo tempo com momentos em que parece estar tão profundamente concentrado que se desliga do mundo.
Na escola: Em geral, são alunos inconstantes, com altos e baixos no boletim de notas. Alguns pacientes diagnosticados com TDAH são extremamente criativos e chegam a ser classificados de superdotados.
O papel dos pais: Os portadores deste distúrbio entendem muito bem as regras, como qualquer criança, e precisam aceitar os limites impostos pelos pais ou professores. Se ao transtorno se somar a indisciplina, o quadro ficará mais complicado.

- Transtorno desafiador opositivo

Peso genético: baixo
O que é: A concentração de serotonina e de dopamina no cérebro sofre mudanças anormais quando a criança é submetida a situações estressantes como a morte de um ente querido, a separação dos pais ou a chegada de um irmãozinho. Ela fica mais agressiva. Meninos com idade entre 6 e 9 anos são mais suscetíveis ao distúrbio.
Em casa: A irritabilidade é tanta que a criança se atira no chão, fica agressiva, xinga, dá-socos e chutes quando tentam controlá-Ia.
Na escola: Se a rotina da criança que sofre de transtorno desafiador opositivo não se altera abruptamente, ela pode até se destacar nas disciplinas pelas quais tem interesse. Nas outras aulas, tende a gastar mais tempo e energia confrontando o professor do que estudando.
O papel dos pais: A atuação firme dos pais mostra ao filho que, seja qual for o problema, a hierarquia familiar ainda está valendo. A agressividade dele não pode desautorizar os pais. A leniência e a contemporização, nesses casos, só agravam o distúrbio.

- Transtorno de conduta

Peso genético: baixo
O que é: Em 75% dos casos, o transtorno desafiador opositivo se degenera em transtorno de conduta.
Em casa: É grande a probabilidade de que os pacientes sejam meninos de 10 a 12 anos. Neles, a agressividade deixa de ser episódica, motivada por alguma mudança na rotina, e passa a ser constante. O resultado é o isolamento da família e dos amigos. Mentir passa a ser um hábito.
Na escola: Sem motivo aparente, o portador tende a agredir os colegas física e verbalmente. É o rebelde sem causa. Por nada, quebra carteiras ou rouba material escolar. Passa a consumir bebidas alcoólicas e drogas. Repetente serial, é indiferente ao sofrimento dos outros e pode vir a ser sádico.
O papel dos pais: Os pais precisam identificar o transtorno o mais cedo possível e impor, sem concessões, limites e regras claras de conduta. Se o distúrbio for diagnosticado cedo e houver atuação firme dos pais, a chance de cura será muito boa.

- Dislexia

Peso genético: Alto
O que é: Alteração física de áreas cerebrais responsáveis pela leitura e pela escrita. A criança com danos graves na área de Broca constrói frases gramaticalmente incorretas, mas cujo sentido pode ser entendido (exemplo: "Ela era com fome"). Aquelas com danos graves na área de Wernicke fazem frases gramaticalmente corretas, mas sem sentido (exemplo: "A fruta tinha sabor vermelho"). A dislexia, em vários níveis de gravidade, afeta 10% de crianças e adolescentes.
Em casa: Crianças disléxicas continuam confundindo visualmente as letras "p" e "b" e ou "d" e "q" mesmo depois dos 7 anos de idade.
Na escola: Seu pior desempenho é nas disciplinas português e redação. A dificuldade de interpretar textos atrapalha também o aprendizado de matérias que exigem leitura, como história e geografia.
O papel dos pais: Ser portadora desse transtorno não dá a criança o direito de ser indisciplinada ou rude. As regras continuam valendo para ela.

- Discalculia

Peso genético: Alto
O que é: Lesões em regiões do cérebro ligadas à percepção espacial, à orientação e ao cálculo. Cerca de 6% da população mundial tem esse distúrbio com algum nível de gravidade.
Em casa: Dificuldade de participar de jogos e brincadeiras que exigem capacidade de localização e orientação.
Na escola: Os portadores têm desempenho ruim em disciplinas como matemática, física e química.
O papel dos pais: Sem perderem a autoridade, devem demonstrar compreensão e apoio por reconhecerem a raiz biológica do distúrbio.

- Depressão

Peso genético: Alto
O que é: Um estado melancólico duradouro e aparentemente invencível sem causa externa. A depressão é uma doença causada pela escassez de serotonina e noradrenalina no cérebro. O distúrbio afeta 1% das crianças em idade pré-escolar, 2% em idade escolar e pode chegar a 6% dos adolescentes.
Em casa: A criança raramente se empolga com alguma atividade. Em certos casos, mostra-se irritadiça e agressiva. Chora com facilidade e tende a assumir a culpa em situações em que nem sequer se envolveu. A modulação da voz é monótona.
Na escola: Vai mal em praticamente todas as matérias. Tanto faz estar em aula ou no recreio. Encontra-se sempre isolada e triste.
O papel dos pais: Perceber quando a melancolia da criança deixa de ser um abalo emocional momentâneo, com causa definida, para se tornar uma tristeza paralisante e prolongada. A depressão é uma doença séria e precisa ser diagnosticada e tratada corretamente por profissionais.

- Transtorno bipolar

Peso genético: Médio
O que é: A criança alterna períodos prolongados de depressão com fases de euforia, ambos causados pelo excesso de noradrenalina e dopamina no cérebro. Esse distúrbio atinge 0,5% de crianças e adolescentes.
Em casa: A perda repentina e acentuada de peso, o aumento da agressividade e a hipersexualidade são alguns sintomas associados ao transtorno bipolar em sua fase eufórica ou maníaca.
Na escola: Nos períodos de euforia, com autoestima exacerbada, as

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