Um pensamento, um Gesto


Muita gente acredita que gesticular auxilia o lnterlocutor a compreender o que queremos dizer; novos estudos mostram, porém, que movimentos conferem forma a processos mentais abstratos de quem fala e ajudam a pensar.

Revista Scientific American - por Ellen Campana

Entre em um bar lotado e ob­serve: no balcão há um senhor que explica como quer o café: curto e servido no copo. Suas mãos desenham no ar a quantidade de bebida que pretende receber. Perto dele, uma garota descreve para uma amiga um lugar bom para passar as férias, onde o mar é calmíssimo: "Suave, plano como uma mesa". E mexe a mão como se nivelasse uma onda invisível diante dela. Pouco adiante, três homens sentados ao redor de uma mesinha conversam com entusiasmo; não é possível ou­vir suas palavras, mas, a julgar pelos movimentos das mãos e dos braços, estão discutindo futebol.

Basta olhar em volta: o gesto é um recurso importante da comunicação e faz parte da natureza humana. Se você já se perguntou alguma vez por que gesticulamos, provavelmente pensou que usamos esse recurso para ajudar os outros a entender melhor o que estamos querendo dizer. Fingir ter um copo na mão pode auxiliar o balconista a compreender como queremos o nosso pedido; aplainar ondas inexistentes oferece à interlocutora uma idéia mais precisa da calmaria das águas. Mas será mesmo verdade que mexemos as mãos para ajudar quem está ouvindo? Na ver­dade, hoje muitos cientistas consideram que os gestos têm utilidade para quem os faz: mexer as mãos nos ajuda a pensar.

Pesquisadores estão cada vez mais interessados em esmiuçar a conexão en­tre corpo e pensamento, ou seja, de que maneira nossos movimentos conferem forma aos processos mentais abstratos. A gesticulação ocupa um lugar central nesse campo e agora as pesquisas estão se dirigindo aos processos de aprendi­zagem, com novos trabalhos dedicados a estudar como, na escola, aprendemos a resolver os problemas de matemática, por exemplo.

• Poder dos dedinhos

Para entender essa linha de investi­gação tomemos um problema como 3 + 2 + 8 = ? + 8. Os alunos que participavam do estudo poderiam desenhar um "V" com os dedos indi­cador e médio embaixo do 2 e do 3, enquanto tentavam entender o con­ceito de "agrupamento", que consiste em acrescentar números adjacentes. Pesquisas anteriores revelaram que os estudantes orientados a mexer as mãos quando deparam com problemas de matemática têm mais facilidade para resolvê-los. Isso é válido tanto nas situ­ações em que são especificados os ges­tos que eles devem fazer como quando os movimentos são espontâneos. Os cientistas tentam agora entender por
que motivo isso acontece.

O estudo que analisamos, realizado por pesquisadores das Universidades de Chicago e de Iowa, concentrou-se em crianças com idade entre 8 e 10 anos às voltas com um problema que exigia o uso da técnica de agrupamen­to. Ficou claro que os estudantes que haviam sido ensinados a fazer o gesto do "V" enquanto resolviam a questão efetivamente aprendiam a resolvê-Ia em menos tempo e com menor dificul­dade. E também conseguiam encontrar a solução sem grandes dificuldades quando alguém Ihes dizia para fazer o "V" embaixo do par errado de números. Na prática, o próprio ato de formar um "V" com os dedos introduz a criança ao conceito de "agrupamento" por meio do seu próprio corpo.

Mas qual é, exatamente, o processo que determinava essa dinâmica? Du­rante a experiência, todas as crianças haviam memorizado a seguinte frase: "Quero fazer um lado igual ao outro". Depois haviam sido orientadas a pro­nunciar a frase em voz alta enquanto recebiam o problema a ser resolvido.

De acordo com os autores da pesquisa, os pequenos voluntários que haviam acrescentado a gesticulação à frase tentaram captar o sentido das palavras e do gesto, buscando juntar os dois sig­nificados. Esse mecanismo, segundo os pesquisadores, pode ser decisivo para que o novo conceito de agrupamento se consolide na mente da criança.

O mesmo recurso poderia ser usado em qualquer outra situação na qual a pessoa que fala e gesticula também esteja tentando organizar pensamentos - quando se trata de lembrar os detalhes de um aconte­cimento do passado, por exemplo, a mente visualiza as imagens como se estivesse armando uma estante.

Esse estudo tem implicações im­portantes para a psicologia cognitiva. Historicamente, esse campo de pes­quisa considerou os conceitos, os ele­mentos básicos do pensamento, como representações abstratas sem ligação com o corpo. A ideia do dualismo cartesiano (que concebe a mente sepa­rada do corpo) está agora sendo posta em discussão por várias linhas de pensamento. É o caso de uma escola denominada embodied cognition (cog­nição ou mente incorporada), que enxerga os conceitos como representações corpóreas ancoradas em percepções, ações e emoções. Foram recolhidas várias provas favoráveis a essa abordagem, mas ainda faltava um relatório detalhado e comprovado com base em experiências que mostrasse como o gesto pode ter papel decisivo na aprendizagem.

A pesquisa também tem implica­ções práticas de caráter didático, pois indica que é possível ajudar os estu­dantes a aprender ensinando-Ihes a associar o conteúdo aos movimentos corporais. Provavelmente esses resultados não podem ser aplicados de forma generalizada. Porém, da próxima vez que você bater um papo com um amigo que gesticula, pode considerar que suas mãos que tanto se mexem estejam sutilmente dando forma aos pensamentos dele - e também aos seus.

• Antes das palavras

O estreito entrelaçamento de língua, pensamen­to e g gesto chamou a atenção dos pesquisadores que só se preocupavam com a produção sonora da língua. Um modelo importante nessa área foi apresentado por Winem Levelt, do Instituto Max Planck de Psicolinguística, em Nijmegen, na Holanda, Segundo ele, o cérebro elabora a linguagem em três níveis. Num primeiro momento, o que será dlto é orqanizado como informação puramente pré-linguística (conceito ainda sem formulação). No passo seguinte, um desdobramento do processo interno, que ocorre em frações de segundos, são encontradas pala­vras e formadas frases para designar o que se pretende expressar. Só na terceira fase é acionado o aparelho de articulação que produz, através dos pulmões e cordas vocais, a fala.

Jan-Peter de Rutier, aluno de Levett, estudou o modelo e encaixou nele o gestual. Ele supõe que no primeiro nível (conceitualizador) já surge uma etapa preliminar lmagética para gestos: o cérebro "desenha" rascunhos de movi­mentos. No segundo passo o esboço torna-se um projeto de como gesticular, que no terceiro momento é repassado aos programas motores. Estes levam mãos e braços a agir.

Com tal modelo seria possível explicar por que os gestos muitas vezes se manifestam antes da fala correspondente. Para uma expressão como " o martelo usado para colocar o prego na parede", o movimento de mão não poderia descrever primeiro a ferramenta ou o prego e depois a ação de pregar, ou os dois concomitantemente. mas não existe uma expressão corporal para "martelo-para-colocar-prego-na-parede".

De Rutier pesquisou mais detalhadamente a suposta relação de fala e gesto por meio de ações indicativas ("isto aqui"). Ele anotou diálogos em que se contavam histórias e confirmou que certamente a fala se adapta ao gesto, mas que também o contrário ocorre. O pesuisador observou que um "percurso do gesto" muito longo - como quando alguém aponta para um ponto muito alto - provoca adiamento da fala paralela correspondente a ele. A adequação no sentido contrário, do gesto à fala, fica mais clara quando uma pessoa testada se engana e titubeia. Nesse caso, o movimento já preparado parece "esperar" até que a fala flua novamente.

Para conhecer mais

Linguagem do corpo. Inke Wachsmuth. Mente&Cérebro, nº 163, págs. 38·45, agosto de 2006.

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