Uma boa Esticada


Movimentar a boca afeta as palavras que você ouve.

Revista Scientific American - por Erica Westly

Os livros de neurociência normalmente descrevem os cinco sentidos como entidades separadas, mas no mundo real é comum os sentidos interagirem, como pode comprovar qualquer pessoa que tenha tentado degustar um jantar com o nariz entupido. A audição e a visão também parecem estar conectadas, sendo que o mais famoso exemplo é o "efeito McGurk", pelo qual sugestões visuais, como o movimento dos lábios, afetam a forma como as pessoas ouvem o que se fala. Recentemente, uma nova pesquisa mostrou que o tato também pode influenciar na percepção da fala.

David Ostry, neurocientista com funções na McGill University e no centro da fala dos Laboratórios Haskins, em New Haven, Connecticut, vem estudando há anos a relação entre a fala e o sistema somatossensorial, a rede de receptores na pele e músculos que transmitem informação de estímulos tácteis ao cérebro. Em seu trabalho mais recente, publicado no Proceedings of the National Academy of Sciences USA, ele e dois de seus colegas dos Laboratórios Haskins descobriram que ouvimos as palavras de forma diferente conforme a boca se distende em diferentes posições. O resultado tem implicações para os neurocientistas que estudam a fala e a audição, bem como para os terapeutas que procuram novas formas de tratamento para distúrbios da fala.

No estudo, um dispositivo robótico especialmente projetado distendia a boca dos voluntários ligeiramente para cima, para baixo ou para trás, enquanto ouviam verbalizações contínuas geradas por computador que soavam como "head" ou "had" (em inglês, as duas palavras têm quase o mesmo som), ou algo semelhante. Quando a boca estava distendida para cima, perto da posição necessária para se dizer "head" (cabeça), tinham mais probabilidade de ouvir os sons como sendo "head", especialmente se a emissão era mais ambígua. Se a boca estivesse esticada para baixo, como se fosse para dizer "had" (passado do verbo ter), a probabilidade maior era de ouvir "had", mesmo quando os sons gerados estavam mais próximos de "head". Esticar a boca das pessoas para trás não produzia nenhum efeito, implicando respostas relacionadas a posições específicas. Além disso, o tempo da distensão deveria igualar exatamente ao dos sons para conseguir o efeito: a distensão alterava a percepção da fala somente quando imitava vocalizações reais.

A ideia de obter uma resposta cognitiva quando a boca é manipulada não é completamente nova. Em 1988, psicólogos descobriram que conseguiam melhorar o humor de pacientes ao fazê-Ios apertar uma caneta entre os dentes, forçando-os a sorrir. Desde então, pesquisadores têm conduzido experimentos semelhantes sobre manipulação física e percepção. Entretanto, muitas dessas experiências se restringem a respostas emocionais, o que requer um período maior, sendo que no estudo sobre a fala de Ostry os resultados foram praticamente instantâneos, observa Asif Ghazanfar, pesquisador sensorial da Princeton University. O estudo mostra que essas conexões ocorriam muito rapidamente - em alguns milissegundos. "Acredito que isso é realmente muito importante, porque enfatiza que o cérebro não está desconectado do nosso corpo; não se pode falar de alguma coisa que acontece em uma parte e não na outra", completa Ghazanfar.

O estudo de Ostry também está relacionado com uma hipótese surgida nos anos 60, chamada teoria motora da percepção da fala. Essa teoria defende que o mecanismo neural associado à produção da fala também está envolvido na sua percepção. Fernando Nottebohm, neurocientista da Rockefeller University, utiliza canções de pássaros como um modelo para a fala humana. Ele acredita que o estudo de Ostry representa um dos poucos exemplos de evidência direta que dá suporte a essa hipótese. Entretanto, ele adverte que o sistema somatossensorial pode modular a percepção da fala de várias maneiras sem envolver o sistema motor.

Estudos anteriores, usando neuroimagem e estimulação magnética, indicam que regiões do cérebro relacionadas com o processamento auditivo, sensorial e motor se sobrepõem em algum nível. No entanto, como essas áreas se complementam para modular a percepção da fala, permanece incerto. Ostry e seus colegas esperam ajudar a responder a essa questão com o próximo trabalho que inverte o experimento: em vez de ouvir uma sequência de sons, os voluntários enfrentam uma sequência de distensões para verificar se a entrada de dados auditivos pode influir no que sentem. Ostry acredita que tato e audição seguem nos dois sentidos nesse contexto, o que significa que não só se pode ouvir com a boca, como se pode sentir com os ouvidos.

• Um Toque Terapêutico

Compreender como a pele ao redor da boca afeta a percepção da fala pode levar a novos métodos de tratamento de disfunções da fala. Tradicionalmente, a terapia da fala se concentrou no componente auditivo, observa David Ostry, da McGill University, mas os aspectos mecânicos e tácteis também são críticos, "As contribuições somatossensoriaís desempenham um papel tanto no direcionamento da produção quanto no aprendizado da fala, e agora ficou claro que também têm papel importante na percepção auditiva", explica Ostry, referindo-se às experiências recentes. "Isso realmente as classifica como condutas em potencial para intervenções terapêuticas."

Segundo ele, terapias da fal la com componentes tácteis podem ajudar principalmente pacientes que, devido à perda de audição, entre outras razões, têm problemas para perceber seus erros de dicção.

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