Uma coisa por vez


Estudos apontam que ser multitarefa não torna a maioria das pessoas mais produtiva. Quanto mais atividades simultâneas, mais dispersão e falta de foco.

Revista Info - por Renata Leal 

A cena se tornou recorrente: você divide a atencão entre o browser com várias abas abertas, o telefone que toca e o MSN que pisca na tela. Isso sem contar as atualizações do Twitter e das redes sociais, além daquele colega que dá uma paradinha na sua mesa para pedir uma informação. Parece tudo normal e você acha que dá conta de diversas tarefas simultaneamen­te. Chega ao fim do dia exausto e vai para casa, onde vê TV enquanto tuíta sobre o jogo de futebol. Mas será que seu cé­rebro realmente deu conta de processar todos esses dados? A resposta para a maioria quase absoluta das pessoas é não.

Há uma corrente de estudos que ganha força e defende a ideia de que nosso cérebro realiza bem apenas uma atividade cognitiva, que envolve pensa­mento e raciocínio, de cada vez. Aparentemente, apenas ouvir música não atrapalha a produtividade. Uma pesquisa ainda inédita que o especialista em gestão do tempo Christian Barbosa está realizando há um ano para avaliar o modelo mental das pesso­as em situações de multitarefa mostrou que o des­perdício médio de tempo ao realizar atividades simultâneas é de 35%. Ou seja, no lugar de ganhar tempo com a multitarefa, você perde. O estudo já conta com respostas de 2100 participantes. "É inte­ressante ver que apenas 2% das pessoas tiveram uma performance melhor com multitarefa, mas to­das cometeram algum tipo de erro", diz Barbosa, CEO da consultoria Triad PS. Você pode até conseguir fazer mais de uma coisa, mas provavelmente errará algo.

O fato é que não somos tão multitarefa quanto gostaríamos. Mas muitas pessoas se sentem força­das a dar conta de inúmeras tarefas ao mesmo tem­po. "Há uma grande pressão cultural para respon­dermos imediatamente quando qualquer pessoa entra em contato. Isso leva à rnultitareta", diz Clifford Nass, pesquisador na área de psicologia da Universi­dade de Stanford, nos Estados Unidos. Ele participou de um estudo recente para identificar o grau de rnul­titarefa das pessoas. As que disseram fazer muitas atividades simultâneas tiveram uma performance pior nos testes cognitivos e de memória quando comparadas às que se diziam monotarefa. Os resul­tados ainda apontaram que quem leva a multitarefa ao extremo tem mais dificuldade de filtrar estímulos irrelevantes do ambiente, é menos propenso a igno­rar as memórias recentes sem importância e não consegue controlar bem a alternância de atividades. Já os multitarefa mais leves têm a tendência de reto­mar o controle da atenção para focar em uma ativi­dade. "Treinar a multitarefa não torna as coisas me­lhores, mas pode piorá-tas", afirma Nass.

Pior ainda se seu erro puder causar acidentes. Os pesquisadores Jason Watson e David Strayer, da Universidade de Utah, queriam testar a combi­nação entre dirigir e falar ao celular. De acordo com o Conselho Nacional de Segurança america­no, 28% dos acidentes nas estradas são causados por motoristas que usam o celular ao volante. Du­zentas pessoas participaram do teste, que envolvia dirigir em um simulador de carro e realizar outra tarefa simultaneamente. Tanto o tempo de reação para frear o automóvel quanto a manutenção de uma distância mínima para o veículo da frente au­mentaram com a multitarefa. Numa segunda fase do teste, os participantes precisavam memorizar os nomes de uma lista de objetos enquanto resol­viam exercícios de matemática. A queda de apro­veitamento foi significativa. Apenas 2,5% das pes­soas tiveram resultados semelhantes tanto na monotarefa quanto na múlti - número similar ao do estudo brasileiro.

• Estímulo para multitarefa

Nascidos na era da internet, os jovens mostram mais propensão às atividades simultâneas. "Na geração Y, 70% acreditam que realizam multitarefa com qua­lidade", diz Barbosa. A percepção cai nos maiores de 40 anos. Camila Pires, de 22 anos, trabalha como analista de redes sociais na Englishtown, uma esco­la de inglês online. Está o tempo todo atenta ao que as pessoas dizem sobre a marca nas redes, respon­de comentários e gera conteúdo. Seus olhos saltam do Twitter para o Facebook ou o Orkut quase que numa piscada. "Meu trabalho é muito dinâmico. Pre­ciso fazer tudo na mesma hora", diz Camila. Mas quando precisa se isolar dos colegas para se focar
em uma atividade recorre aos fones de ouvido. "A música só me concentra mais", afirma.

Cientistas pelo mundo já se preocupam em estu­dar os efeitos da multitarefa no cérebro de jovens c.omo Camila, que podem sofrer no futuro com  com mais problemas de memória. Isso porque, ao focar numa tarefa, o cérebro ativa o hipocampo, que comanda a memória. Mas, ao ser distraído por várias atividades, ele ativa outra área, o corpo estriado, responsável por nossas tarefas rotineiras. "A principal atividade dos jovens deve ser aprender. Mas eles não conseguem fazer isso e se lembrar bem de algo sem prestar aten­ção em uma coisa de cada vez", diz Winifred Galla­gher, especialista em comportamento e autora do li­vro Rapt: Attenlion and lhe Focused Life (Alerta: Atenção e uma Vida Focada, em tradução livre). Ela defende que atenção e uma vida focada são os segre­dos para se sentir mais realizado. "Os jovens estão treinando seus cérebros para serem distraídos". diz.

Aos poucos, algumas pessoas mudam seu com­portamento. A designer de produtos Cristiane Faia, de 31 anos, percebeu que era multitarefa demais e que a atitude prejudicava seu rendimento, deixando­ a mais ansiosa. Incomodava-se com as coisas que começav va, mas não terminava. "Sempre trabalhei sob pressão, precisando terminar tudo muito rápi­do", diz. O desejo de fazer várias coisas ao mesmo tempo fez até com que Cristiane se tornasse incapaz de terminar um livro sem antes começar outro. Para piorar, não lia todas as páginas. "Isso começou a me atrapalhar na vida profissional", afirma. Depois de apresentar sintomas de síndrome do pânico, ela de­
cidiu desacelerar. E aprendeu que é preciso dizer não à tentação de abrir o e-mail o tempo todo ou traba­lhar plugada no MSN. Agora ela se segura para fazer uma tarefa de cada vez e afirma viver um período de transição da múlti para a monotarefa. "As pessoas nesse proesso de mudança ?procaram a si mesmas
que a multitareta é um mito", afirma Winifred. 

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