Vai esperar o chefe mandar?


Profissionais que só agem mediante a cobrança do gestor têm menos chance de ter promoção ou aumento de salário. Pior, eles são os primeiros a ser demitidos quando a ordem é cortar custos.

Revista Você S/A - po Luiz de França

A palavra "proatividade" entrou para o vocabulário corpora­tivo há muito tempo. Seu significado, em bom portu­guês, descreve a habilidade de partir para a ação sem ficar esperando o chefe man­dar. Pessoas proativas procuram informações e oportunidades para fazer as coisas acontecerem. Seis em cada dez empregadores citam esse comportamento como uma das cinco atitudes que mais procuram nos can­didatos a uma vaga de emprego. O dado é de uma pesquisa feita no ano passado com 48 executivos de recur­sos humanos para o guia As Melho­res Empresas para Começar a Carreira, publicado pela VOCÊ S/A. Com equipes cada vez mais enxutas, os funcionários precisam ser muito mais eficientes. Os recrutadores acrescentam que há atualmente maior demanda do presidente para que as equipes sejam mais produti­vas. Segundo uma sondagem recen­te da consultoria Hay Group, as or­ganizações no Brasil precisam aumentar o desempenho operacional - uma das medidas de produtivida­de - em 6%. "Pessoas proativas buscam naturalmente novos desa­fios, procuram respostas diferentes para os problemas e engajam as pes­soas. A proatividade está intimamen­te relacionada ao aumento de produtividade", diz Glaucy Bocci, gerente e líder da prática de lideran­ça e talento da Hay Group Brasil.

Outro significado para proativi­dade diz respeito à capacidade de antever a mudança de contexto in­terno, ou o cenário de negócios, e agir. Sob essa perspectiva, os pro­fessores Leonardo Araújo e Rogério Gava, ambos da Fundação Dom Ca­bral, de Belo Horizonte, estudaram durante cinco anos o comportamen­to de 257 organizações no Brasil para entender como os funcionários, em especial os líderes, podem atuar de forma proativa. O resultado deu origem ao livro Empresas Proati­vas: Como Antecipar Mudanças no Mercado, lançado pela Editora Campus/Elsevier no fim de 2011. No livro, os professores usam a palavra "ativo" para definir empresas e pes­soas que tomam a iniciativa antes dos outros. O contrário disso são os empregados reativos, que respondem às mudanças de cenário e con­texto. A conclusão dos dois: organi­zações reativas se tornam obsoletas, perdem participação no mercado e, no limite, fecham suas portas. Para o profissional, o diagnóstico é pare­cido: estagnação na carreira e de­ missão. "Ser proativo é uma escolha. É engano pensar que essa atitude é algo que nasce com a pessoa. É pos­sível desenvolvê-Ia, basta querer", diz Leonardo Araújo.

Buscar a orientação de gente mais experiente, reconhecida pela capacidade de agir e de propor novi­dades, pode ensinar como ser ágil e dar as respostas certas antes dos colegas de equipe. Cuidado para não ser tachado de bajulador. "Para evitar essa confusão, seja coerente com suas atitudes e aja de maneira obje­tiva e profissional", diz Vera Costa, consultora organizacional e coach do Instituto EcoSocial, de São Paulo. Buscar novos conhecimentos, ver tendências e novidades fora de seu cargo e mercado são obrigações para quem quer ser reconhecido como proativo. "Entre as características desse perfil estão a indignação e o questionamento. O importante é não ficar preso à sua atividade", diz Vera.

O catarinense Roberto Silveira, de 41 anos, conseguiu sair da con­dição de candidato à demissão da empresa de representação de cal­çados, na região de Itajaí, em Santa Catarina, para se tornar o campeão nacional de vendas com louvor em 2011 pela própria fabricante. Com o objetivo traçado, Roberto come­çou a estudar, a se informar sobre tudo o que acontecia no mercado e traçar estratégias de negócios. Des­de então já ganhou vários prêmios de reconhecimento pelas ideias que teve para aumentar as vendas, como iPad, viagem e um carro zero. "De­pois disso, resolvi sair da compa­nhia e abri minha própria represen­tação. Eu queria ser reconhecido profissionalmente."

Segundo Leonardo Araújo, da Dom Cabral, o papel do líder é fun­damental para desenvolver a proa­tividade do time. No livro, os pesqui­sadores mostram que existem quatro comportamentos que motivam uma atitude mais ativa diante do traba­lho. A primeira delas tem a ver com a inspiração. "Líderes que creem na mudança fazem as pessoas acreditarem que ela é possível. Eles criam e comunicam essa visão. Ao fazer isso, geram confiança e entusiamo", diz Leonardo. Steve Jobs é o exemplo mais emblemático. Os funcionários da Apple continuam tocando a orga­nização de acordo com os mesmos preceitos de seu fundador, morto em outubro do ano passado. A segunda atitude do chefe é o que Leonardo e Rogério chamam de "estimulação", e diz respeito às novas formas de enxergar velhos problemas. A ter­ceira ação é o reconhecimento. Mos­trar ao time que a atitude ativa de um funcionário é valorizada. Por último, há o carisma. Ele faz do líder um modelo e exemplo a ser seguido. Claro, para isso o líder deve ser um exemplo de proatividade.

O paulista Alexandre Mutram, de 39 anos, é uma dessas pessoas que sempre fazem as coisas antes que lhe peçam. Ele se inspirou num chefe que constantemente o incentivava a partir para a ação. "Ele dizia que "na dúvida chute para o gol", se acertar 10% já está ótimo." Hoje, Alexandre é diretor de atendimento da agê c;ncia Tudo, de publicidade e eventos, em São Paulo. "Se eu não fosse ativo, minha carreira teria estagnado."

A pesquisa da Dom Cabral mos­tra que há setores que exigem indi­víduos com maior capacidade proa­tiva que outros. As áreas de bens de consumo e tecnologia requerem profissionais com muita iniciativa. ""Aqui no Buscapé, nas áreas de criativida­de e de negócio exigimos profissio­nais proativos. Nos setores de apoio, como o jurídico, cabem os reativos", diz Romero Rodrigues, presidente do site Buscapé, em São Paulo. Para Romero, ser autodidata e curioso e reciclar os conhecimentos ajuda a fomentar a atitude proativa. E como identificar um empregado ou candi­dato ativo? Há várias maneiras. Uma delas são os questionários de análi­ses de fatos e experiências passadas. Eles são considerados a melhor fer­ramenta por envolver questões in­vestigativas de cunho pessoal. Na cervejaria Ambev, o comportamen­to proativo, de propor soluções e questionar, é medido nas dinâmicas de grupo durante o processo de se­leção. Nessa situação, os reativos tendem a assistir aos colegas mais desinibidos. Nesse momento, os recrutadores avaliam positivamente o candidato proativo. Já o candida­to reativo recebe dias depois um e-mail em que lê: "Obrigado por par­ticipar do processo". Nem todo re­crutador age assim. Na maioria das companhias, há lugar para pessoas proativas e reativas.

"Uma das descobertas de nossa pesquisa é que há organizações e pessoas que sabem combinar movi­mentos proativos com movimentos reativos. Esses se dão melhor no longo prazo", diz Leonardo, da Dom Cabral. Muitas vezes é preciso cum­prir ordens e seguir as regras - é uma situação reativa. E tudo bem. O problema é ser 100% reativo. O estudo dos professores da mostra que não há organização nem profis­sional que prosperaram quando deixaram a atitude proativa ador­mecer. Portanto, mãos à obra.

• Teste sua proatividade

Descubra se você é um funcionário ativo ou reativo

Sim (__) Não (__)  - Busco modificar as circunstâncias e até crio situações novas. 
Sim (__) Não (__) -  Procuro transpor os obstáculos. Não me e intimido pela situação. 
Sim (__) Não (__) - Vou atrás, de forma sistemática, de novas oportunidades.
Sim (__) Não (__) - Mostro iniciativa e parto para a ação quando quero algo.
Sim (__) Não (__) - Sou perseverante e não desisto diante das dificuldades. 
Sim (__) Não (__) -  Antecipo mudanças e soluciono problemas de forma prévia.
Sim (__) Não (__) - Trabalho sem esquecer o longo prazo. Penso sempre no futuro. 
Sim (__) Não (__) - Atuo de forma conecta­da com as pessoas e vou além do que é formalmente requerido.
Sim (__) Não (__) - Desafio o status quo e acredito em mim. 
Sim (__) Não (__) - Vou além do que o chefe me pede e penso em soluções para a minha área.

Seu resultado

Cada SIM equivale a 1 ponto

- De 0 a 2 aflito
- De 3 a 4 ajustado
- De 5 a 7 atento
- De 8 a 10 ativador

• Tome a iniciativa

Veja os conselhos dos consultores ouvidos pela VOCÊ S/A para desenvolver uma atitude mais proativa:

- O que fazer quando...

...tenho ideias boas e quero participar, mas a tiidez não deixa - Em uma reunião, seja o primeiro a falar e coloque uma pergunta na mesa para saber a opinião dos colegas sobre o assunto. Dessa maneira é possível conhecer o que as pessoas pensam de sua ideia. Isso dará um conforto maior para seguir adiante e defender sua proposta.

...acho que não sou pago para fazer além da demanda natural do cargo - É bom estar ciente de que você não será considerado para nenhuma promoção e corre o risco de ser demitido. Se é sua escolha, aceite as consequências. Mudar o comportamento não é fácil. Psicólogos dizem que é provável que a atitude se repita nas relações com a família e amigos.

...Sou bom no que faço, mas não consigo enxergar novas oportunidades - A curiosidade é uma amiga nessas horas. Se você não sai do seu mundo, não demonstra interesse em ouvir os outros e aprender sempre, dificilmente enxergará as oportunidades. Experimente se abrir às novas ideias e receber críticas. São hábitos que podem ser desenvolvidos.

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