Velhos precoces – crianças com diabetes e cirrose


Vá se acostumando a ver crianças hipertensas, com diabetes ou cirrose. O sedentarismo e o excesso de alimentos industrializados vêm gerenado uma velhice bem antes do tempo.

Revista Galileu - por Sergio Bontempi Lanzotti

A longevidade é uma grande conquista da humanidade. Quando o século 20 come­çou, uma pessoa vivia 30 anos. Atualmente, a expec­tativa de vida no mundo gi­ra em torno dos 68 anos. A medicina avançou e vencemos doenças que transformavam os primeiros anos da infância em uma loteria. Em breve, o corpo humano será capaz de continuar ativo por muito mais tempo. Mas viver muito não significa viver com saúde. E o nosso estilo de vida atual está pro­vocando nas crianças doenças que antes eram exclusivas de adultos e de velhos.

É o caso do reumatismo, surgido do esforço dos jovens que fazem movimentos repetidos para jogar com seus videogames. Os consul­tórios médicos já começam a receber crianças de menos de 8 anos com danos nas mãos e nos braços similares aos que levam um trabalhador adulto a ser considerado inapto para o trabalho, tamanhos os problemas na musculatura e nas articulações que surgem.

Outro problema grave é a obesidade. Cerca de 33% das crianças brasileiras estão acima do peso. Isso faria um sucesso enorme há al­guns anos, quando travávamos a luta contra a desnutrição infantil. Hoje o desafio é oposto. Crianças obesas estão expostas aos riscos das complicações da obesidade, como as doenças cardiovasculares e o diabetes, em especial o tipo 2, que sempre foi doença de adulto de mais de 40 anos. Mas temos visto, nos consultórios, pais sem histórico da doença inconformados com o diagnóstico de seus filhos. É que mui­tas crianças são sedentárias e consomem ali­mentos industrializados demais, sempre ricos em gordura, sal e carboidratos. Mais que isso, várias delas foram expostas, enquanto ainda estavam na barriga de suas mães, aos excessos desse tipo de comida e passaram a produzir insulina para se adaptar ao volume de carboi­dratos trazidos pelo sangue materno.

Os mesmos pais se apavoram quando o pe­diatra indica um cardiologista a seus pequenos - estudos abordando o problema começaram a surgir nos últimos 10 anos. É que muitas crianças estão desenvolvendo hipertensão arterial. Aos 30 anos de idade, elas terão co­rações com 20 anos de hipertensão arterial, o que equivale ao coração de um idoso. Em um corpo jovem.

E ainda nem falamos da cirrose. O chamado fígado gor­duroso já atende pelo maior contingente de pessoas com cirrose hepática no mundo. No caso das crianças, a principal fonte deste problema é o açú­car que vem dos refrigerantes, por exemplo - o mesmo que ajuda a causar diabetes.

A indústria tem responsabilidade neste quadro, já que muitos alimen­tos têm quantidades gigantescas de açúcar e gordura. Mas são os pais que precisam ficar atentos à alimentação e hábitos de seus filhos. No passado, a família foi fundamental para a prevenção de doenças infecciosas e parasitá­rias. Agora, precisa atuar novamente. Se a era das doenças crônicas graves chegar para ficar, é possível que os adultos do futuro não vejam graça em viver mais.

* Sérgio Bontempi Lanzotti é reumatologista e diretor do Instituto de Reumatologia e Doenças Osteoarticula­res (Iredo), em São Paulo.

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