Você é o que você come


Uma pesquisa mostra que a preferência alimentar das bactérias do sistema digestivo pode definir nosso paladar. Elas escolhem nosso cardápio?

Revista Veja - por Peter Moon

"Você é o que você come" é um ve­lho ditado. Ele lembra que nossa alimentação diz muito a respeito de quem somos, de como estamos e de como ficaremos no futuro. Aquilo que comemos pode fazer bem ou mal a nossa saúde, reza a crença popular. Agora, uma pesquisa pioneira mostra que o ditado é mais verdadeiro do que imaginamos. O tipo de bactéria que compõe nossa flora intestinal está diretamente relacionado a nossa dieta. Até que ponto os micróbios que vivem dentro de nós influenciam o que gostamos de comer?

Nossa digestão é o trabalho coletivo de colônias de bactérias. São dezenas de espécies de micro-organismos e trilhões de bactérias que povoam o sistema di­gestivo. A começar pela boca, cuja saliva contém bactérias que iniciam o processo de digestão do alimento mastigado e en­golido. Uma vez no estômago, os ácidos estomacais e outras bactérias completam a decomposição do alimento que passa então ao intestino. É lá onde se concentram as bactérias do sistema digestivo. São elas que vão ajudar o organismo a absorver os nu­trientes da comida ou dispensar o que não será usado, na forma de fezes. "Do ponto de vista genético, falar no ser humano como uma unidade indivisível está caindo em desuso", diz o biólogo paranaense Christian Hoffmann, de 34 anos, da Universidade Federal de Goiás, em Goiânia. "Não so­mos apenas humanos. Somos metaorga­nismos. Somos um ecossistema complexo que dividimos com a flora bacteriana que habita nosso corpo, ou microbioma,"

Em abril, uma equipe multinacional de geneticistas descobriu que a composição do microbioma que povoa nosso sistema digestivo não é uniforme. Descobriu-se que a humanidade está dividida em três grupos, segundo a bactéria que prevalece em cada um deles: a Prevotella, a Bacte­roides e a Ruminococcus. Aparentemente, a divisão não obedecia a nenhuma ordem étnica, regional, cultural, sexual, econô­mica ou etária. Não se sabia qual era a razão para essa divisão. A resposta veio num estudo publicado na revista Science na semana passada. O microbioma é divi­dido conforme sua predileção alimentar.

Geneticistas da Universidade da Pensil­vânia, na Filadélfia, Estados Unidos, reve­laram que existe uma relação direta entre a dieta de cada um e a composição da fauna bacteriana de seu sistema digestivo. Nos ve­getarianos, a bactéria dominante do micro­bioma é a Prevotella, especializada em dige­rir carboidratos e açúcar de origem vegetal. Entre os carnívoros, é a Bacteroides, que di­gere proteína e gordura de origem animal e laticínios. "Há um terceiro grupo cuja par­ticipação é marginal", diz Hoffmann, que é coautor da pesquisa. "São pessoas que têm na dieta o consumo elevado de álcool" e de gorduras poli-insaturadas (encontradas em peixes de água fria ou óleo de girassol e ca­nola). Neste grupo, a bactéria dominante é o Ruminococcus. Os três grupos de bactérias não são excludentes. Todos eles habitam o intestino de qualquer ser humano. No entanto, só um é dominante, dependendo da dieta de cada indivíduo.

O estudo foi feito com um grupo de estudantes cuja dieta foi monitorada. Por dez dias, os carnívoros foram submetidos a uma dieta vegetariana. Os vegetarianos foram obrigados a comer carne. "Basta um dia da nova dieta para a flora começar a mudar", diz Hoffmann. "Ao fim dos dez dias, a mudança foi sensível. Mas não sufi­ciente para destronar a bactéria dominante. Mudar de um grupo para outro pode levar meses ou anos."

A pesquisa despertou uma questão. As bactérias influenciam nosso paladar? Ou nossa dieta é que determina nossa flora intestinal? "É a pergunta que fazemos to­dos os dias no laboratório", diz Hoffmann. Se as bactérias comandam nosso paladar, isso poderia explicar por que é tão difícil mudar os hábitos alimentares. Quem pas­sou por um processo de reeducação ali­mentar sabe como é complicado largar o refrigerante, o doce, a massa, a cervejinha, as frituras e a picanha, em troca da saladi­nha e do frango grelhado. Exige disciplina e força de vontade.

Se a culpa for mesmo das bactérias, no­ vos tratamentos, que mudem a composi­ção da flora intestinal, podem ajudar nas dietas. "Daqui cinco anos, será possível mapear o microbioma de um paciente e desenvolver tratamentos sob medida para mudar sua composição da flora", diz Hoffmann. Outra possibilidade seria usar tratamentos de flora intestinal para elimi­nar a intolerância à lactose. A lactose é o açúcar do leite. O sistema digestivo dos bebês é capaz de digerir a lactose. Mas, quando a criança desmama, a maioria perde essa capacidade. É a intolerância à lactose. Segundo Hoffmann, essa condição poderá ser atenuada com um tratamento à base da bactéria Bacteroides especiali­zada em digerir laticínios. "As bactérias consumirão a lactose, que causa mal-es­tar, eliminando os sintomas." o futuro, tratamentos à base da bactéria Prevotella poderão ajudar os diabéticos a eliminar o açúcar que não conseguem digerir. Outra hipótese é combater o alcoolismo reduzindo a composição de Ruminococ­cus no sistema digestivo. "Mas isso, por enquanto, é uma possibilidade esotérica", diz Hoffmann. 

• O ser humano, suas dietas e suas bactérias

A humanidade se divide em três tipos de acordo com a flora do sistema digestivo e a dieta individual

- Carnívoros: Bactéria - bacterioides

A dieta carnívora rica em proteína animal e gordura saturada.
Consumo de carnes e laticínios.
Está associada às doenças cardiovasculares

- Vegetarianos: bactéria - prevotella

A dieta vegetariana, baseada no consumo de carboidratos e fibras vegetais. São cereais. frutas e legumes.
O excesso de açúcar e carboidrato pode gerar obesidade e diabetes.

- Peixe e vinho: bactéria - ruminococcus

Essa dieta evidencia o consumo de álcool e gorduras poli-insaturadas. das sementes oleaginosas e dos peixes.
Essas gorduras aumentam o bom colesterol (LDL), mas o excesso de álcool é prejudicial.

    Administração do Tempo

    Preencha aqui seus dados

© Copyright 2020 - Todos os direitos reservados à Methodus