Você está pronto para o pós-carreira?


O aumento da longevidade e o encerramento precoce da vida corporativa criam um segundo tempo profissional que pode durar 20 anos. Para enfrentá-lo é preciso fazer uma poupança, cuidar da saúde e elaborar um projeto que priorize o que você sempre desejou fazer - por prazer, e não por obrigação.

Revista Época Negócios - por Alexandre Teixeira

Alexandre Silva estava em Ilhabela praticando o esporte que ama, a caça submarina, quando descobriu-se sem fôlego. Esta é uma modalidade de mergulho em que se submerge em apneia, ou seja, prendendo a respiração. O então presidente da General Electric para a América Latina já o praticava havia décadas, mas naque­le dia sentiu algo estranho. "Faltava um ano para me aposentar. Tinha naquela época 61 anos, quase 62", diz Silva. "De re­pente, me dei conta de que estava com medo do desconhe­cido. E o desconhecido era a tal da aposentadoria." Silva somatizava o desconforto com um problema que não sabia nem como começar a enfrentar. Ele voltou da ilha no litoral norte de São Paulo e foi conversar com o RH da companhia. Imaginava encontrar as respostas para suas dúvidas. Mas descobriu que a GE nunca aposentara um presidente no Brasil. Os CEOs sempre foram americanos. Ao fim de seus mandatos, simplesmente voltavam para os Estados Unidos.

Por sorte há gente especializada no mercado e o RH da GE sugeriu uma conversa com a psicóloga e consultora de carreira Vicky Bloch. Silva não botou muita fé. "O que a Vicky Bloch vai saber da minha vida?", perguntava-se. Mesmo assim, agendou uma consulta. A conversa durou quase duas horas e até bem perto do final não se falou em aposentadoria. Já perto das despedidas, Vicky lhe disse: "Você e a GE precisam de aju­da". Diante da incredulidade de Silva, disparou uma série de perguntas: O que vai ser da sua secretária? E do seu motorista? Como fica seu pacote, com bônus, stock options, etc.? Você vai querer man­ter o número do seu celular, que hoje é corporativo? Já definiu a data da sua saída e planejou o anúncio? Quem avi­sa um ano antes que vai sair vira rainha da Inglaterra. Quem informa somente três dias antes passa a impressão de que está sendo corrido da companhia. O ideal é anunciar a aposentadoria com três ou quatro meses de antecedência.

"Quando ela acabou de dizer tudo isso, fiquei em pânico", diz Silva. "Pensei: "Estou atrasado. O tempo que tenho não vai dar para isso tudo.""" Deu, e o final da história é feliz . Mas o sus­to e a angústia vividos pelo ex-presidente da GE são experiências enfrentadas todos os anos por milhares de executivos, que não se dão conta de que estão despreparados para abandonar a vida corporativa até que algo os obriga a parar. Pode-se argumentar que sempre foi assim, mas as gerações anteriores eram progra­madas para trabalhar até, literalmente, não poder mais. Depois disso, viviam apenas uns poucos anos, mantidas pelo Estado. Com os avanços da medicina, estilos de vida mais saudáveis e a falência da Previdência Social, essa lógica virou de pernas para o ar. Nos próximos anos, a preparação para a aposentadoria e mais ainda para a vida depois dela, o pós-carreira, vai se tornar um dos tópicos mais quentes de discussão no mundo empresarial.

Executivos hoje entre o meio e o fim de suas carreiras foram apanhados por dois movimentos em sentidos opostos. O mais visível é o aumento da expecta­tiva de vida do brasileiro. Ela era de 70 anos em 1999, passou à casa dos 73 anos em uma década e promete chegar a 75,5 anos em 2050. Isso, na média, porque já vive-se muito mais. As mulheres che­gam hoje à marca dos 77 anos. O país se­gue sendo jovem, com o chamado bônus dernográfico a seu favor. Mas a popula­ção na faixa dos 60 anos representa hoje 11,1% dos brasileiros, um contingente de 21 milhões de pessoas. Poucas delas estão de pijama. De toda a população economicamente ativa no país, quase 17,5 milhões de trabalhadores têm 50 anos ou mais. "Idosos", a partir de 60 anos, formam o grupo que mais cresceu na última década: 4%, ante 1% da população total. Existem hoje pouco mais de 22 milhões de pessoas nessa faixa etária no país. Dessas, 6,5 milhões em plena atividade. Um terço desse grupo trabalha por conta própria, em muitos casos como consultores.

O segundo movimento é o encerramento cada vez mais precoce das carreiras corporativas. Seja porque as regras de aposentadoria compulsória por idade (aos 60, 62 ou 65 anos, dependendo da empresa) apanha profissionais dinâmicos com a saúde 100% em dia e disposição para tudo, menos para pendurar as chuteiras. Ou, sobretudo no mercado financeiro, porque a combinação de enriquecimento rápido com rotinas de trabalho mortais convida a uma mudança de rumo pro­fissional muitas vezes antes dos 50 anos. O aumento da lon­gevidade, somado ao encurtamento das carreiras e à vontade de seguir produtivo, cria um cenário inteiramente novo no mundo do trabalho. Aos poucos, sai de cena o velho conceito de aposentadoria. Em seu lugar, surge o pós-carreira, um segun­do tempo profissional. A "nova terceira idade" quer trabalhar, remunerada ou voluntariamente. Quer continuar dando sua contribuição para a sociedade. E, definitivamente, não quer ser um fardo para filhos e família. Os 70, portanto, são os novos 50.

Encerrar mais cedo o ciclo de trabalho executivo e vi­ver até mais tarde significa que, depois da "aposentadoria", você ainda poderá ter 20 anos ou mais de tempo produtivo pela frente. Em certos casos, será possível passar mais tem­po no pós-carreira do que na carreira propriamente dita. Isto é ruim? Não necessariamente. Porque, neste segundo tempo, quem se preparou tem dinheiro e saúde, sabe o que quer fazer e pode exercer o direito de dizer "não" a tudo aqui­lo de que não gosta. "O pont to-chave é reconhecer que vamos viver muito. Não estamos acostumados com isso", afirma o consultor de empresas Julio Sergio Cardozo. "Se é assim, vamos nos preparar para um momento em que temos to­das as condições para ser muito felizes." Ex-presidente da Ernst & Young, Cardozo se aposentou (compulsoriamente) e dedicou um livro ao pós-carreira - otimista o bastante para se chamar O Melhor Vem Depois. Sua tese é a de que executi­vos e empresários devem enxergar a aposentadoria como um empreendimento e pensar em si próprios como CEOs.

"A preparação para a aposentadoria deve ser enca­rada como um projeto estratégico de vida, como uma óti­ma oportunidade para se dedicar àquilo que você sempre desejou", escreve Cardozo. "Três coisas são essenciais para um pós-carreira com o mesmo sucesso obtido na vida cor­porativa - ou talvez ainda maior: dinheiro suficiente para financiar os novos objetivos e desejos; saúde para enfren­tar a maratona dos novos desafios; e bastante coisa interes­sante para fazer." Antes de analisar esses pontos, convém encarar uma verdade inconveniente: aposentadoria não é um piquenique para ninguém, e ver executivos altamente energéticos renunciando a seus postos não é trivial no Brasil. "O primeiro grande choque foi quando Edson Vaz Musa [ex-presidente da Rhodia, que deixou a companhia em 1996] se apo­sentou", diz o especialista em carreira Luiz Carlos Cabrera. "Com 59 para 60 anos, ele parecia um garotão de 30. Como não podia deixar de ser, foi fazer um monte de outras coisas."

Executivos como Musa chegam aos 60 anos com uma forma física e inte­lectual impensável para seus antecessores. Eles se cuidaram melhor do que as gerações anteriores e, portanto, têm uma perspectiva de vida completamente diferente. Muitos estão no segundo casamento, com filhos jovens. Poucos pensam em vestir o pijama, o que pode resultar em um tremendo dra­ma existencial. "O day after é uma pedreira", diz Cabrera. "Você não tem estrutura. Não tem alguém que pague suas contas." Ex-executivos descobrem-se indo pela primeira vez a uma agência bancária depois de adultos. E embaraçam-se ao telefone com uma pergunta mortal: "O senhor é de onde?". Sentem a falta da estrutura e do sobrenome corporativo. Em um nível mais profundo, da própria profissão. Nos apresentamos rotineiramente como administradores de empresa, engenheiros, economistas. Tendemos a socializar com colegas, nos vestimos de forma parecida e até moramos em bairros próximos. O fim da vida corporativa ameaça esses vínculos de um modo até prejudicial à saúde. A aposentadoria pode repercutir indiretamente sobre o funcionamento cogniti­vo do idoso, já que, em muitos casos, o sujeito que se aposenta passa por um empobrecimento de suas redes sociais e de ativi­dades diárias", afirma um grupo de pesquisadoras do Serviço de Geriatria do Hospital do Servidor Público de São Paulo no estudo Repercussões da Aposentadoria na Qualidade de Vidado Idoso. Sociedades ocidentais tendem a conferir status mais elevado e dar mais valor a pessoas empregadas. Adultos cuja autoestima é baseada no trabalho são especialmente suscetíveis às per­das emocionais associadas ao fim da experiência corporativa.

• Por opção

Lirio Parisotto, dono da VideoLar, fabri­cante de DVD e Blu-ray, define o pós-carreira como um mo­mento para fazer o que você gosta, por opção e não por obri­gação. "As pessoas não têm de parar de trabalhar nunca", diz ele. "Mas devem poder escolher a que atividades dedicarão tempo e energia." Com todo o tempo do mundo à disposição, a agenda de um ex-executivo é uma tela em branco. Surgem oportunidades que vão do trabalho voluntário à atuação como consultor ou coach. Além de chances de desenvolver novas habilidades, como cozinhar ou aprender idiomas e esportes. Surge ainda a tentação de transformar antigos ho­bbies em novos negócios. As possibilidades são incontáveis: abrir uma pequena empresa, criar uma fundação, partir para a vida acadêmica, entrar para o chamado terceiro se­tor. O desafio é escolher algo em que se possa dar uma con­tribuição efetiva, e que reforce o legado que se quer deixar.

Um aspecto fundamental é encontrar atividades que propiciem discussões inteligentes. Isso praticamente elimina da lista o sonho surrado de abrir uma pousada na praia. O lu­gar mais idílico do mundo depois de algum tempo vira o local mais tedioso do planeta se não houver com quem ter conversas instigantes. Por um motivo diferente, convém pensar duas ve­zes antes de se animar demais com a alternativa mais contem­porânea de abrir um restaurante. "Na quinta semana, o cara descobre que mercado às 4 horas da manhã é dureza", diz Ca­brera. Quem observa hoje o mundo empresarial brasileiro vê muita gente pensando nessa segunda etapa da vida profissio­nal como uma fase boa para empreender. Tornou -se comum a figura do executivo bem-sucedido, com a situação financeira re­solvida, ainda cheio de gás, que cogita abrir um negócio. Muitos percebem rapidamente que não têm a menor habilidade para empreendedor. Mas fazem o exercício e gastam algum tempo tentando descobrir que tipo de negócio gostariam de tocar.

De um modo mais realista, muita gente boa acaba des­cobrindo que o ambiente no qual mais pode agregar conheci­mento é o dos conselhos de administração. "Para o executivo que efetivamente tem um conteúdo forte e um conjunto de atributos facilmente reconhecidos, essa é uma oportunidade de atuação sensacional", afirma Cabrera. "Ela permite estar atualizado, ter conversas inteligentes e dar uma efetiva con­tribuição. Você está em constante aprimoramento, discutindo assuntos relevantes, envolvido no ponto mais estratégico da gestão." Passar de executivo a conselheiro é um caminho na­tural, que se tornou mais viável na medida em que as empre­sas brasileiras começaram a resolver questões de governança para abrir capital, receber aportes de fundos de private equity ou enfrentar as turbulências e a complexidade da gestão con­temporânea. A empresa madura troca aquele velho conselho de amigos do dono por um órgão recheado de profissionais preparados para enfrentar o novo. Como a globalização.

Mesmo que ainda não tenha claro a que atividades se dedicará no pós-carreira, é importante não adiar demais o início da preparação. "Tradicionalmente, os 50 anos marcam o início da contagem regressiva para a aposentadoria - em especial no Brasil, onde o sistema previdenciário com base no tempo de contribui&cced a gestão." Passar de executivo a conselheiro é um caminho na­tural, que se tornou mais viável na medida em que as empre­sas brasileiras começaram a resolver questões de governança para abrir capital, receber aportes de fundos de private equity ou enfrentar as turbulências e a complexidade da gestão con­temporânea. A empresa madura troca aquele velho conselho de amigos do dono por um órgão recheado de profissionais preparados para enfrentar o novo. Como a globalização.

Mesmo que ainda não tenha claro a que atividades se dedicará no pós-carreira, é importante não adiar demais o início da preparação. "Tradicionalmente, os 50 anos marcam o início da contagem regressiva para a aposentadoria - em especial no Brasil, onde o sistema previdenciário com base no tempo de contribuição permite pendurar as chuteiras cedo", escreve Julio Cardozo em O Melhor Vem Depois. "Mas o aumento da expectativa de vida vem transformando radicalmente o ce­nário visto até os anos 90." Para que possam ser desfrutados, os avanços no terreno da longevidade exigem um novo pla­nejamento financeiro. "Quanto guardar e onde investir serão fatores determinados pelos anos que você terá pela frente para fazer uma poupança", diz Cardozo. Quando começar também.

"Muita gente adia o início de uma poupança para o pós­-carreira por imaginar que, no futuro, terá mais recursos e pode­rá investir mais para compensar o tempo perdido", afirma a con­sultora financeira Claudia Kodja. Bobagem da grossa. Imagine dois jovens que completam 30 anos no mesmo dia e decidem juntos se aposentar dali a três décadas. O primeiro começa ime­diatamente a poupar e consegue investir R$ 5 mil por ano nos primeiros oito anos. Depois, por um motivo qualquer, para de economizar, mas mantém aplicados os R$ 40 mil acumulados. O segundo não investe nada nesses primeiros oito anos. Depois disso, porém, passa a depositar os mesmos R$ 5 mil anuais pe­los 22 anos seguintes. Seu investimento total, desse modo, será de R$110 mil - quase o triplo do feito, ainda na juventude, por seu colega. Pois bem, com a mesma taxa de remuneração, diga­mos de 8% ao ano, o apressadinho chegará aos 60 anos com R$ 312.263 guardados, e seu parceiro não passará de R$ 299.466.

Seja qual for sua idade, a mensagem aqui é a mesma: agarre pelo chifre o touro da poupança para o pós-carreira. Ninguém o fará por você. "O banco não está preocupado com sua aposentadoria, mas em vender produtos previdenciários", diz Claudia. Como 99% dos consultores financeiros, ela não é propriamente fã dessa modalidade de investimento. Um plano de previdência pode compor sua estratégia de investimento, em especial se você é uma pessoa indisciplinada para acu­mulação de capital. Mas as taxas de administração são altas, e o custo de sacar antes do previsto, proibitivo. Quase todos os investimentos autônomos podem oferecer a mesma rentabi­lidade ou melhor. Desde que se tenha disciplina para poupar. Do contrário, renda-se aos PGBLs e VGBLs da vida. A própria indústria financeira admite que é assim. Fernando Moreira, presidente da HSBC Seguros, diz que plano de previdência é a melhor opção para quem não tem tempo nem disciplina para gerenciar outros investimentos pensando na aposentadoria.

A má notícia é que a maioria não tem. Entre 2007 e 2009, o HSBC realizou três pesquisas globais sobre esse assunto. O primeiro estudo, que abrangeu 21 países e demandou entrevistas com 21 mil pessoas com idades entre 40 e 79 anos, revelou que a aposentadoria já não é mais vis­ta como um período de descanso e dependência. Em linha com o que se observou no mundo, os 1.001 brasileiros entrevistados dis­seram que gostariam de continuar trabalhando enquanto se sentissem aptos. No entanto, só 34% dos partici­pantes da pesquisa com idades entre 60 e 69 anos disseram exercer algu­ma atividade remunerada. O hiato entre desejo e realidade indica uma saída involuntária (e, portanto, não planejada) do mercado de trabalho, com consequências preocupantes. O estudo de 2008 revelou que a maio­ria dos brasileiros corre o risco de ter renda insuficiente depois da apo­sentadoria - e não se dá conta disso.

Pessoas nascidas no início deste século têm uma chance realista de viver até o próximo. A PricewaterhouseCo­opers, uma das maiores empresas de consultoria do mundo, revelou recentemente que modelou planos de investimento projetados para considerar idades de até 95 anos. Do ponto de vista das finanças, a questão é: como fazer com que a pou­pança dure até o fim da vida? Em países da Europa Ociden­tal, como França e Itália, a expectativa de vida a partir da data de aposentadoria já supera os 20 anos para ambos os sexos. Isso é verdade também para as mulheres do Reino Unido, dos Estados Unidos e do Japão. O aumento da longevidade nos países desenvolvidos é fruto da clássica dobradinha die­ta saudável e exercícios físicos, das conquistas educacionais das últimas décadas e da melhora do atendimento médico, bem como da tecnologia a serviço da medicina. Só não se vive ainda mais porque a evolução das sociedades trouxe como efeitos colaterais epidemias de obesidade e estresse.

• Reinvenção

Fortalecer o bolso e a saúde para o segundo tempo é fundamental. Mas vale pouco se a cabeça não estiver no lugar, preparada para uma última reinvenção. Ao descrever a complexidade emocional da passagem para o pós­-carreira, o terapeuta Daniel Kupermann, professor do Institu­to de Psicologia da Universidade de São Paulo, usa o conceito de "novo começo", emprestado de Michael Balint, um psicana­lista húngaro morto há 40 anos. Segundo ele, em momentos de transição há uma exigência de despojamento do modo de vida anterior. Para alguns, pode ser um alívio. Pense no exe­cutivo que construiu o patrimônio de que precisa para ele e a família viverem confortavelmente e já acha a vida corporativa um aborrecimento. Para outros, a ruptura com o passado re­presenta um período no purgatório. Se a empresa é seu único propósito, é inevitável que, ao deixá-la, perca a razão para viver.

Algumas empresas têm feito um trabalho de coaching com seus executivos, justamente para que possam rever suas relações com a carreira. Mas, diferen­temente da saúde financeira e da físi­ca, que têm abordagens universais, a saúde psicológica não conta com uma regra de ouro. O coaching pode ajudar a reconhecer que há aspectos psico­lógicos a serem tra

    Administração do Tempo

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