Você está sendo fritado?


Os conchavos no trabalho são mais comuns do que se pensa. Como perceber se você está sendo queimado e reverter a situação.

Revista Você S/A - por Vanessa Vieira

No dia a dia das empresas é muito comum ouvir histó­rias de pequenos conchavos para apagar estrelas em as­censão. Há casos mais sérios que envolvem armações maquiavélicas para forçar uma demissão, aumentar o poder de um grupo ou até mascarar falcatruas. Se você nunca ouviu falar em uma delas, pode ser que esteja trabalhan­do num mosteiro ou então esteja totalmente alheio à rádio-peão. No mês passado, uma pesquisa da VOCÊ S/A com 662 profissionais no Linkedln, a rede social de relaciona­mentos profissionais, revelou que 48% deles já foram vítimas de uma fritura - uma prática deliberada para prejudicar profissionalmente o alvo da vez. E 44% afirmaram ter visto a situação ocorrer com outras pessoas. Os relatos de quem passou por esse processo parecem ter saído de um filme ao estilo "teoria da conspiração". Mas, na verdade, se trata de um problema real, que pode cau­sar estragos na carreira e na vida. Fechar o fogo da frigideira antes que ela esquente também é possível, su­gerem especialistas. Para que isso ocorra, é preciso identificar os pri­meiros sinais de fritura e tomar algu­mas medidas para revertê-la. "A fri­tura começa quando o colaborador faz algo que desagrada a chefia", diz a headhunter Magui de Castro, sócia da CTPartners, de São Paulo, espe­cializada em alta gerência. O problema é que esse algo nem sempre é uma questão objetiva, como um mau desempenho financeiro. Para motivos claros como esse, os chefes têm o recurso da demissão.

"A fritura é diferente. Ela nasce de atritos subjetivos, pouco palpáveis. "O chefe pode optar pela fritura na falta de um motivo mais concreto para justificar uma demissão", explica o coach Alexandre Rangel, da consul­toria Alliance Coaching, de São Pau­lo. "Se o colaborador resiste às mu­danças, o chefe passa a vê-lo como um incômodo e inicia uma série de pequenas sabotagens e boicotes para minar o desempenho da pessoa." Foi o que ocorreu com Ronaldo Santos, de 41 anos, hoje diretor de operações da Natural da Terra, rede de merca­dos de frutas e verduras, de São Pau­lo. Num emprego anterior, Ronaldo apontou ao chefe falhas no trabalho que uma consultoria vinha fazendo para a empresa. O gestor não gostou do que ouviu. A partir daquele mo­mento, ele começou a ser excluído de reuniões importantes. Também deixou de receber informações da matriz e a não ter retorno sobre as oportunidades de negócios que apre­sentava ao chefe. "A única intenção era me convencer de que meu traba­lho era ruim", lembra Ronaldo.

Após três meses sendo prejudica­do, o executivo criou coragem e pediu o desligamento da empresa. Obteve um novo emprego em duas semanas. "É melhor sair antes do que prejudicar sua auto confiança" , diz Ronaldo, que compara a fritura ao cultivo de um bonsai, a técnica japonesa de fazer árvores em minia­tura. "A cada vez que um broto nas­ce, o podador vem e corta. É como se a árvore aprendesse aos poucos que não deve crescer", avalia o exe­cutivo da Natural Terra.

• Onde há fumaça

Sinais de que você pode ser alvo de uma fritura.

- Você não é mais convoca­do para as reuniões, ou não é convidado para os momen­tos em que a equipe socializa. 
- Nas reuniões de que partici­pa, suas intervenções são re­cebidas pela chefia com indife­rença ou impaciência. 
- Seu chefe deixou de se pre­ocupar com seu trabalho e até de lhe cobrar quando algo não ocorre conforme o previsto. 
- Seus colegas recebem da chefia um tratamento mais atencioso e simpático. 
- Informações estratégicas e novas diretrizes não têm sido comunicadas a você. 
- Em vez de lhe dar ordens, o gestor opta por repassá-las a seus subordinados ou por transferir a tarefa a seu colega. 
- Sua chefia começa a estabe­lecer para você metas impossí­veis de serem alcançadas. 
- O gestor tem reclamado de falhas suas com outros. 
- Seu chefe o sobrecarrega com atividades de menor im­portância ou começa a lhe pas­sar tarefas de áreas fora de sua competência, nas quais seu de­sempenho é limitado.

• A culpa é do gestor

Em casos de fritura, a vítima não é apenas a pessoa que arde na chapa quente. Normalmente, um processo de perseguição prejudica as pessoas que o presenciam. "A situação gera insegurança em toda a equipe, que se projeta na vítima, o ambiente fica ruim e a produtividade cai", diz Ale­xandre Rangel, Na opinião do con­sultor, a única forma de evitar as perdas geradas pela fritura é aumen­tar a transparência na relação entre superior e subordinados. "A fritura é uma atitude equivocada de gestores com dificuldade de tomar decisões", diz. "A conversa que poderia escla­recer e resolver o problema na ori­gem, considerada constrangedora, é adiada e desencadeia o processo." É papel do gestor preservar a transpa­rência e evitar a bola de neve. Quan­do ele deixa de esclarecer as coisas, prejudica seu trabalho e o dos outros. "O gestor pode ser o ponto de equi­líbrio ou a fonte de estresse para o time", diz Ricardo de Marchi, sócio-diretor da CPH Health, especializada em programas de gestão da saúde.

Às vezes, o algoz não é o chefe, mas um colega. O paulista Roberto Gregori, de 46 anos, hoje diretor de estratégia de uma companhia de serviços de TI em Campinas, interior de Sã e;o Paulo, conta que foi fritado por um ex-colega, o que lhe custou uma promoção ao cargo de diretor­ geral da filial brasileira de uma múl­ti alemã. "A empresa vinha sendo administrada interinamente por um assessor do CEO mundial com o ob­jetivo de entregar a gestão a mim, só que esse auxiliar não gostou de eu ter apontado falhas nos controles que ele fazia e começou a me sabo­tar", diz Roberto. A partir daí, o as­sessor iniciou uma estratégia de combinar uma coisa com Roberto e depois contar para o presidente mundial que o brasileiro fazia as coi­sas da própria cabeça, sem comuni­cá-lo. A situação foi se deteriorando até que durante uma reunião com colegas de diversos países Roberto foi interpelado pelo presidente mun­dial para explicar por que havia definido um pagamento de bônus para si mesmo. "Ficou claro que eu tinha sido queimado", diz Roberto, que acabou pedindo para sair.

Em geral, a fritura acaba em de­missão tanto por iniciativa da vítima quanto da empresa. Mas não precisa ser assim. Segundo os especialistas, a melhor maneira de reverter o pro­cesso é uma conversa franca, antes de a situação ficar insustentável. Isso deve ser feito sempre, por mais difí­cil que o diálogo possa parecer. É uma dessas situações que requerem coragem do profissional. "Se perce­ber o início de uma fritura, procure o chefe e diga que notou que houve mudanças no ambiente", diz Fernan­da Angerami, especialista em orien­tação de carreira. "Deixe claro que seu objetivo maior é cooperar." Nes­se assunto, quem age rápido diminui a dimensão do problema. Ao primei­ro sinal de tensão, trate o assunto com seriedade. "A pessoa acha que é uma coisa pontual, que vai acabar passando e quando percebe é tarde demais", diz Maria Giuliese, da Lens & Minarelli, empresa de recolocação de executivos, de São Paulo.

Outra dica dos especialistas é evi­tar medir forças com o oponente. Normalmente, a vítima recebe um "convite" do inimigo para iniciar uma fritura. Fique atento para identificar o momento em que essa proposta indecente aparece. Ele é importante para tomar um passo fundamental: recusar o convite para a briga. No livro Jogos Políticos nas Empresas (Ed. Campus/Elsevier), o consultor paulista Mauricio Goldstein aponta que uma tarefa importante é mapear a razão que move o outro a uma disputa, ou seja, entender por que al­guém gostaria de fritá-lo. Os motivos mais comuns são orçamento, poder, necessidade de proteção ou necessi­dade de aparecer. Finalmente, se o cenário já apodreceu e a fritura está consumada, proteja a própria saúde. A atitude de enfrentamento, típica de quem acha que não tem mais nada a perder e fica esperando a demissão, tem na verdade um alto custo emo­cional para a vítima. Antes de virar guerra aberta, melhor avaliar se vale a pena seguir naquele trabalho.

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