Você tem experiência? Sim, você tem


A prática é a mais rica foirma de desenvolvimento pessoal. Saiba como tornar-se um profissional melhor sem parar de trabalhar.

Revista Você S/A - por Gabriel Penna, Karla Spotorno e Lucas Rossi

A psicóloga mineira Aman­da Mendes Siqueira, de 37 anos, supervisora re­gional de vendas da Co­vidien, multinacional de produtos de saúde, deixou há oito anos uma carreira na área de recur­sos humanos para tornar-se vende­dora técnica de equipamentos e pro­dutos hospitalares. Sua experiência na área comercial era zero. Em hos­pitais, ela só havia entrado duas ve­zes na vida. Mesmo assim, apostou que aprenderia na prática a vender bisturis, cateteres, máquinas e sutu­ras fabricados pela Covidien. "Sem­pre mostrei humildade e vontade de aprender", diz Amanda. Quando tinha alguma dúvida, perguntava. A chefe explicava, os médicos mais próximos davam uma força. O resultado foi que Amanda aprendeu o trabalho no dia a dia. Com o tempo, foi pre­miada duas vezes e promovi­da a supervisora regional.

Como Amanda, todo mun­do aprende coisas importan­tes durante o trabalho. Na verdade, a prática é a maior fonte de conhecimento a que um profissional pode ter acesso e a mais rica delas. Essa é a opinião do professor Michael Eraut, da Universidade de Sussex, no Reino Unido, um dos maiores especialistas do mundo em aprendi­zado no trabalho.

Segundo o cientista, o que deter­mina o desenvolvimento de um profissional são as atividades que ele pratica em seu cotidiano: as tarefas desafiadoras, as tentativas e erros, a participação em equipes e a observação de um chefe inspi­rador. São essas interações, apa­rentemente banais, que aumentam a bagagem profissional e habilitam a pessoa a progredir na carreira.

Em seus estudos, patrocinados pelo governo britânico, Michael e sua equipe observaram e entrevis­taram cerca de 450 profissionais de 12 áreas, como saúde, engenharia, auditoria e contabilidade, em início e meio de carreira. A conclusão foi de que as pessoas adquirem saber de duas maneiras. De um lado, estão cursos, conferências e coachings,
atividades em que o profissional tem de parar o que está fazendo para aprender. De outro ficam as coisas que se aprendem durante o traba­lho: fazer parte de uma equipe, re­lacionar-se com clientes e enfrentar problemas. Essas ações, apesar de não terem o aprendizado como ob­jetivo principal, representam algo entre 70% e 90% das competências
de uma pessoa. "No trabalho, você lida com problemas complexos e, para solucíoná-los, é necessário mui­tas vezes recorrer a diferentes tipos de conhecimento e experiências, reuni-los e aplícá-los", disse Michael em entrevista à VOCÊ S/A.

Ao participar de um grupo ou as­sistir atentamente aos outros trabalhando, você está absorvendo novos conhecimentos e maneiras de fazer as coisas. "Como isso acontece na­turalmente, as pessoas não perce­bem que estão aprendendo, mas estão", diz o professor. Essas situa­ções cotidianas são fundamentais para o aperfeiçoamento profissio­nal. Nelas, o funcionário desenvol­ve o chamado conhecimento tácito, que é basicamente experiência. Por ser absorvido e usado de forma implícita, acaba sendo subestima­do. No entanto, segundo Michael, ele está presente em tudo o que fazemos e tem um papel fundamen­tal em processos como análise de cenários, tomada de decisão e até nas relações interpessoais.

Em geral, quanto mais complexa e incerta é uma situação, maior é a importância do conhecimento táci­to. Por exemplo, todos nós sabemos mais sobre um colega, chefe ou cliente do que podemos explicar. Essa sabedoria é formada por lem­branças de episódios passados, guardadas de alguma forma, ainda que instintivamente. Durante o tra­balho, levamos tudo isso em consi­deração de maneira automática. Basta pensar numa reunião de ne­gócios. Mais do que a análise obje­tiva, a intuição e a experiência são fundamentais para interpretar o que está em jogo e o papel dos partici­pantes. Outro exemplo é o momen­to de tomar uma decisão, em que muitas vezes não há tempo para reunir dados e analisar todos os argumentos. Também nesse caso, só resta comparar a situação atual com cenários anteriores para identificar semelhanças e escolher o melhor caminho a seguir. "As pessoas sa­bem fazer muitas coisas sem que tenham que parar para pensar como sabem fazê-ias. Se elas conseguem ou não anotar aquilo num papel, não faz diferença", diz Michael. Resu­mindo, trata-se de uma boa notícia: quanto mais você trabalha, mais aprende aquilo que realmente pre­cisa para crescer. A questão, por­tanto, é como adquirir a experiência de uma maneira mais organizada.

A andragogia, ciência que estuda a educação de adultos, mostra como funciona a aquisição de conhecimen­to entre profissionais. Diferentemen­te de uma criança, um adulto tem um repertório específico de sabedo­ria acumulada e muita opinião for­mada. Por ser crítico, ele avalia se aquele novo conhecimento trará al­gum benefício para sua vida (ou pro­fissão) antes de aceitá-Ia. Se aquilo fizer sentido, ele absorve o conheci­mento. Se não fizer, descarta. No trabalho, uma pessoa realiza essa triagem continuamente e, na maioria das vezes, de maneira inconsciente. "Os adultos precisam perceber uma aplicação prática do que estão apren­dendo e entender, rapidamente, como aquilo melhora o seu desempenho", diz Paulo Campos, consultor associado da consultoria LabSSJ e professor do Insper, escola de admi­nistração de São Paulo.

• Atitudes que desenvolvem

Uma série de pequenas atividades é capaz de impulsionar o aprendizado no trabalho. A grande maioria delas depende da atitude e da iniciativa de cada pessoa. Profissionais que fazem perguntas, pedem e dão feed­back com frequência tendem a aprender mais. Quem tem o hábito de ouvir e observar pares e superio­res também aumenta bastante as chances de ampliar seus conheci­mentos. Portanto, para quem quer aprender coisas novas, o home office não é uma boa opção. Melhor é tra­balhar em equipe ou ao lado de um colega, o que lhe permite trocar ex­periências sobre eventos no momen­to em que acontecem e entender como os outros analisam situações, tomam decisões e as monitoram.

Também é importante assumir tarefas desafiadoras e, quando pos­sível, se engajar em projetos que envolvam profissionais de outras áreas. "Quando os colegas de tra­balho têm competências diferentes das suas, você é forçado a entender o novo e a avaliar de que forma aquilo pode ajudar em suas tarefas", diz Michael. Não desanime se tiver um chefe ou colega que tem pouco a ensinar. Profissionais fora do gru­po de trabalho também podem ser uma fonte rica de conhecimento.

Mas, nesse caso, cabe a você esten­der sua rede de contatos para além da baia ao lado. Ouça o que os ou­ tros têm a dizer, mostre interesse pelos projetos e tarefas da área que o atrai, elogie, ofereça seu apoio. "O aprendizado informal depende muito das relações que a pessoa consegue construir na organiza­ção", diz Paulo Campos.

Independentemente da empresa ou do ambiente, a responsabilidade de buscar novos conhecimentos é do profissional. "A atitude de quem quer aprender é diferente da de quem quer ser ensinado, e essa diferença é mui­to importante", diz Luiz Carlos Ca­brera, professor da Escola de Admi­nistração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV­ Eaesp) e diretor da Amrop Panelli Motta Cabrera, firma de recrutamen­to executivo. "Se uma atitude passiva é um defeito, ser curioso é uma com­petênêia a ser praticada", diz Cabrera.

Integrar equipes multidisciplina­res, participar de projetos simultâ­neos à sua rotina ou cooperar com atividades fora de seu departamento podem gerar bons resultados futuros. Com mais aprendizado prático, um profissional adquire novas compe­tências sem perceber e ainda incre­menta o currículo. Em seus processos seletivos, a headhunter Adriana Pra­tes, presidente da Dasein Executive Search, leva muito em consideração a experiência prática do candidato. "Nunca as empresas me pediram para contratar um profissional com MBA em uma área específica. O per­fil desejado normalmente está rela­cionado à vivência dele na área em que vai atuar", afirma Adriana.

• Aprenda errando

Uma das maneiras mais importan­tes de consolidar um novo conhe­cimento é aprender com os erros. Apesar de ser um processo rico e cheio de lições, muitas vezes ele é interrompido precocemente, já que o fracasso ainda tem um compo­nente negativo forte na cultura corporativa. "A maioria das pessoas não sabe lidar com o fracasso", diz Amy Edmondson, professora da Harvard Business School. "Elas ficam frustradas, perdem tempo pensando no que significa o fracasso, e não no que podem aprender com a experiência." Parte do pro­blema é que os profissionais estão mais preocupados com o que irão dizer a respeito deles. Muitas ve­zes, ficam muito apreensivos com a reação do chefe e com as fofocas sobre seu mau desempenho. De acordo com Amy, isso gera um cír­culo vicioso: o profissional falha, evita entender o porquê do erro e não aprende nada com o episódio. Muito provavelmente vai acabar cometendo o mesmo erro. "Você não pode criar nada novo sem an­tes tentar", diz Amy. "Além disso, é preciso aceitar que muitas dessas tentativas irão fracassar."

Lições do fracasso 

Uma dica importante é não trans­formar o erro em tragédia. "É ape­nas um lembrete de que você é um ser inacabado", diz a professora Carol Dweck, PhD em psicologia da Universidade Stanford. "O erro contém a pista para a melhor ma­neira de agir da próxima vez", es­creve Carol no livro Por Que Al­gumas Pessoas Fazem Sucesso e Outras Não (Editora Fontanar). Quando as pessoas deixam de pen­sar em termos de sucesso ou fra­casso, uma dualidade que deriva do código mental fixo, tornam-se muito mais capazes de aprender estratégias para superar os proble­mas, admitir os erros e encará-los como um momento de superação e também de aprendizagem.

Um fator importante é reconhecer a forma como você aprende. Não existe uma maneira única, cada pes­soa tem a sua e é essencial conhecê­ Ia para não insistir na maneira erra­da. "Para reconhecer seu estilo, resgate os momentos na vida em que aprendeu bem e rápido", diz Luiz Carlos Cabrera. A metodologia cha­mada Learning Style Inventory (LSI), ou "inventário de estilos de aprendizado", utilizada no Brasil pela consultaria LabSSJ, mostra quatro perfis pessoais: o divergente, o assi­milador, o convergente e o acomoda­dor (veja o quadro Entenda Seu Estilo). Uma pessoa pode ter facili­dade de aprender diante de dados quantitativos e outra pode preferir questões abstratas. Não existe melhor nem pior, apenas o que rende mais para cada um. Mas, qualquer que seja seu estilo, é preciso lembrar que aprendizado exige persistência. Só coisas muito simples são compre­endidas plenamente num primeiro momento. Por isso, nada de deixar que uma dificuldade passageira se transforme numa desistência. Tente outra vez, até aprender fazendo.

• O valor da curiosidade

Izabela Sampaio, de 30 anos, controller da Alstom Wind, de São Paulo

Ao concluir uma especia­lização em negócios nos Estados Unidos, a advoga­da Izabela Sampaio, de 30 anos, controller da Alstom Wind, unidade de energia eólica da multinacional francesa, sabia que não queria voltar a trabalhar em escritórios de advocacia e pretendia seguir carreira no mercado corporativo. Quando encontrou uma vaga na área de finanças da Clipper Windpower, ainda nos Estados Unidos, ela nunca tinha trabalhado no setor de energia eólica, emitido uma nota fiscal ou liberado o pagamento de um fornecedor. "A sorte é que meu chefe tinha 20 anos de experiência no setor e me ensinou muito", diz Izabela, que voltou, para o tência. Tente outra vez, até aprender fazendo.

• O valor da curiosidade

Izabela Sampaio, de 30 anos, controller da Alstom Wind, de São Paulo

Ao concluir uma especia­lização em negócios nos Estados Unidos, a advoga­da Izabela Sampaio, de 30 anos, controller da Alstom Wind, unidade de energia eólica da multinacional francesa, sabia que não queria voltar a trabalhar em escritórios de advocacia e pretendia seguir carreira no mercado corporativo. Quando encontrou uma vaga na área de finanças da Clipper Windpower, ainda nos Estados Unidos, ela nunca tinha trabalhado no setor de energia eólica, emitido uma nota fiscal ou liberado o pagamento de um fornecedor. "A sorte é que meu chefe tinha 20 anos de experiência no setor e me ensinou muito", diz Izabela, que voltou, para o Brasil e desde novembro trabalha na Alstom. Não foi apenas o ambiente favorá­vel que ajudou a advogada a estrear na área de contro­le de custos e planejamento estratégico. "Gosto muito de aprender. Então, sempre corri atrás", diz. Se um pagamento não era feito, por exemplo, Izabela desco­bria quem era a pessoa na contabilidade que poderia ajudá-la a entender o problema e a solucioná-lo. "Com educação e bons ar­gumentos, eu convencia os colegas", afirma.

• Anotar e perguntar

Amanda Mendes Siqueira, de 37 anos, supervisora regional de vendas da Covídíen.

Ainda hoje, a supervisora de vendas Amanda Mendes Siqueira não sai de casa sem um bloco de anotações. Criou o há­bito quando começou a trabalhar como vendedora técnica na Covidien, fabri­cante de equipamentos e produtos hospitalares, há oito anos. No bloqui­nho, passou a anotar pen­dências e dúvidas que ela, os clientes e os médicos tinham sobre algum deter­minado produto. "Depois da reunião, buscava a res­posta e retomava para o médico", diz Amanda, que até poderia ser uma ven­dedora insegura. Afinal, vender sondas enterais e tubos endotraquiais sem ter formação na área de saúde não é fácil. Mas a psicóloga com experiência em recursos humanos decidiu superar a dificul­dade inicial de uma só forma: aprendendo. Fez os treinamentos técnicos e de vendas que a multinacional americana ofereceu, leu e releu os catálogos técnicos e nunca deixou de perguntar quando tinha uma dúvi­da. "Se percebia que era necessário, chamava um especialista da empresa para me acompanhar em uma visita. "

• Riqueza invisível

O professor Michael Eraut é um dos criadores do work-based learning, um método que transforma o trabalho no principal ambiente de aprendizado, que já foi adotado por dezenas de instituições britânicas com o apoio do governo. Ele concedeu entrevista à VOCÊ S/A em sua casa, na cidade de Lewes, no suL da Inglaterra.

Você S/A - O senhor já disse que as pessoas usam no trabalho apenas metade do que aprendem na universidade. Por que isso acontece?

 Michael Eraut - Um dos motivos é a velocidade das mudanças hoje. Ao final de um curso, boa parte do conhecimento que as pessoas absorveram de livros e atividades já está ultra­passada ou depende de novos conhecimentos agregados a ela. Isso acontece em todas as áreas. Além disso, o conhecimento acadêmico por si só não é suficiente para lidar com os contextos e as demandas do trabalho.

Você S/A - Por que não é?

Michael Eraut -  Muita gente ainda pensa que aprendizado é só o que você con­segue apresentar, colocar no papel. Mas é muito mais. No trabalho, as pessoas lidam com problemas mais complexos. Para solucioná-los, é necessário muitas vezes recorrer a diferentes tipos de conhecimento e experiências, ser capaz de reuni-los e aplicá-los. Esse tipo de competência é pouco ensinado e avaliado nas escolas. Os profissionais aprendem mais na prática e geralmente nem conse­guem explicar como e onde aprenderam.

Você S/A - Se o aprendizado é tão intuitivo, como o profissional pode saber se está progredindo? 

Michael Eraut - Ele tem de analisar suas conquistas e tudo que já fez de útil no trabalho. Quais tipos de conhecimento tive que reunir para realizar de­terminado projeto? Quais as pessoas que me ajudaram e de que forma? Como eu ajudei outras pessoas? Conversar com colegas mais próximos, que nos observam diariamente, pode ajudar bastante.

Você S/A - Por que algumas pessoas aprendem mais rápido do que outras?

Michael Eraut - A velocidade do aprendizado varia muito de um profissional para outro, e as pesquisas mostram que isso tem muito a ver com as pessoas com quem ele trabalha. Ouvir e observar colegas e superiores é uma das principais fontes de aprendizado. No ambiente de trabalho, existem várias pessoas fazendo as mes­mas coisas de maneiras diferentes e que têm muito a se ajudar.

• A empresa é a escola

Aloísio do Pinho Oliveira, de 46 anos, diretor financeiro e de controladoria da SLM, empresa de engenharia em mineração e metalurgia, de São João Del Rey.

O executivo Aloísio do Pinho Oliveira, de 46 anos, diretor financeiro e de controladoria da SLM, empresa de engenharia consultiva em mineração e metalurgia, de São João Del Rey, em Minas Gerais, tem um currículo escolar completo. Fez graduação e pós em boas universida­des brasileiras, depois foi cursar um MBA na Univer­sidade de Ohio, nos Estados Unidos. Mesmo tendo fre­quentado excelentes salas de aula, Aloísio afirma que a sua verdadeira escola profissional não foi ne­ nhuma dessas faculdades. Foi a Arthur Andersen, consultoria (já fechada) onde trabalhou no início da carreira. "Lá, aprendi a importância de aprender durante o trabalho", diz Aloísio, que aplica ainda hoje a lição. Como gestor, ele acredita na preparação de sucessores e no treina­mento dos menos experien­tes durante a execução do trabalho. Para ele, voltar para a sala de aula depois de ter vivenciado situa­ções reais é uma forma de realimentar a experiência prática com novas técnicas e teorias de gestão. "Essa é a melhor combinação", diz.

• Fique atento

Como aprender de forma estruturada no dia a dia

- Ao cometer um erro

Não tente esconder o erro. Será pior se per­ceberem q

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