Você tem medo do sucesso?


Sete em cada dez profissionais pensam que não merecem o destaque que alcançaram. Veja como lidar com a Síndrome do Impostor.

Revisata Você S/A - por Cibele Reschke

Se você já se sentiu menos com­petente do que realmente é em algum momento da carreira, bem-vindo ao clube nada seleto dos potenciais portadores da sín­drome do impostor, problema que atinge 70% das pessoas bem­sucedidas, de acordo com uma pesquisa desenvolvida pela psi­cóloga Gail Matthews, da Univer­sidade Dominicana da Califórnia, nos Estados Unidos. Não há por que se preocupar, pois não se trata de uma doença. Síndrome do impos­tor é um nome popular que caracteriza o sen­timento de fraude no trabalho, ou seja, o ato de questionar os méritos pessoais e buscar as justificativas para o sucesso em fatores externos, como sorte, ajuda ou indicações. Esse comportamento é típico dos grandes realiza­dores. Consta que o gênio renascentista Leo­ nardo da Vinci, por exemplo, sofria desse mal. "Eu tenho ofendido a Deus e à humanidade, porque meu trabalho não alcançou a qualida­de que deveria", teria dito Leonardo Da Vinci no fim de sua brilhante e produtiva vida.

A primeira pesquisa sobre o tema foi publi­cada em 1978 pela psicóloga americana Pau­line Rose Clance, responsável por cunhar o termo "síndrorne do impostor" e uma das maiores especialistas na área até hoje. Segundo a pesquisadora, a sensação de ser uma fraude no trabalho atualmente é ainda mais presen­te na sociedade por dois fatores. Primeiro, as pessoas ficaram mais exi­gentes consigo mesmas na busca do sucesso. Segundo, o meio digital in­tensificou o hábito de se comparar aos outros, o que reforçou a presença da síndrome na vida das pessoas. "Existe muita competição, os profissio­nais querem ser os melho­res em seu emprego e não se contentam mais em ser apenas bons o suficiente", afirma Pauline. "A síndro­me do impostor faz parte da essência do ser huma­no. Todos podem ter essa experiência em alguma fase da vida."

O problema é ainda mais sério em profis­sionais que têm entre 20 e 40 anos e ocupam a maioria dos postos de trabalho do mercado hoje. São pessoas que tiveram a carreira acelerada para ocupar os muitos cargos que se abriram no período de relativa expansão da economia brasileira nos últimos dez anos. Muita gente, ao chegar preco­cemente a determinada posição, sem ter passado pelas necessárias experiências de sucesso e de fracasso, desenvolveu algum grau de síndrome do impostor. O perfil que mais exemplifica isso é o trai­nee (ou ex-trainee), profissional que é preparado em laboratório para ocupar muito cedo cargos de liderança, chefiando até mesmo colegas mais experientes.

A sensação de fraude nasce de um desequilíbrio entre responsabilidade e autoridade, de acordo com Osvino Souza, professor de comportamento e desenvolvimento organizacionais na Fundação Dom Cabral, de Minas Gerais. Quando falta experiência para assumir responsabilidades de alto nível, o indivíduo pode ter medo de não dar conta do trabalho. Já profissionais competentes, mas desprovidos da autoridade neces­sária para solucionar as tarefas, desenvolvem um desagradável sen­timento de baixa autoestima, que
dificulta o crescimento na carreira. "Parte da culpa pelo desenvolvi­mento da síndrome em jovens pro­fissionais é da pressão das empresas pela entrega de resultados quase inalcançáveis, o que provoca uma sensação de estar sempre em dívi­da", afirma Osvino. "Em outros ca­sos, a pressão é imposta pelo indi­víduo que, por buscar um elevado status social, nunca está satisfeito com o que consegue produzir."

• Como a síndrome do impostor surge

A síndrome tem fundo psicológico. O problema só se desenvolve em pes­soas que alcançaram algum tipo de realização - promoções no escri­tório, boas notas, livros publicados, prêmios, pesquisas desenvolvidas. Caso contrário, não haveria moti­vos para se sentir um embuste. De acordo com Luci Balthazar, espe­cialista em psicologia do trabalho da ProMover, no Rio de Janeiro, pessoas de qualquer idade podem sofrer com o problema, independen­temente do nível de carreira em que se encontram. "Muita gente inicia esse sentimento na infância, quando recebe comentários negativos sobre si mesma", diz Luci. O profissional cria uma imagem negativa que o faz pensar que não pertence ao lugar de destaque que conquistou.

Líderes e executivos de alto nível que estabelecem relações tensas com seus subordinados frequente­mente escondem um sentimento de impostor. Os chefes tentam blin­dar a insegurança com atitudes arrogantes e autoritárias, que in­toxicam o ambiente e prejudicam a segurança de toda a equipe ­fenômeno definido como "toxicida­de nas relações do trabalho" pelo antropólogo canadense Peter Frost, no livro Emoções Tóxicas do Tra­balho (Editora Futura, 2003). É mais fácil identificar o sentimento de trapaça quando o portador exer­ce grande poder de influência den­tro da organização. A situação fica óbvia quando os liderados perdem a confiança e não conseguem se inspirar no líder ou quando o pró­prio líder começa a perder o prazer de trabalhar. Muitos deles se tornam workaholics e atribuem seu sucesso ao fato de que trabalham mais do que os colegas. "Por medo que os outros descubram sua su­posta fraude, o gestor centraliza o poder e impede que outros se mos­trem mais fortes do que ele", afirma Raphael Falcão, diretor da Hays, empresa global de recrutamento do Rio de Janeiro.

Para quem está nos estágios ini­ciais de carreira, a síndrome apa­rece de forma mais sutil. Pequenas atitudes, como negar um elogi io, manter distância dos colegas ou ser generoso demais, indicam possíveis sintomas. Quando o indivíduo esco­lhe seguir uma profissão, espera-se que ele trace o caminho que pre­tende seguir para chegar aquilo que considera o topo - o que, na maioria das vezes, é uma missão quase impossível. Frustrado por se sentir incapaz de tornar-se a figura que sempre sonhou, o profissional deixa de celebrar os obstáculos deixa de celebrar os obstáculos que, por mérito, foi capaz de superar. É comum pensar que nada do que fez foi realmente especial. "As pessoas querem ser líderes como Mandela ou Ghandi, mas não percebem que são líderes todos os dias", afirma Eva Hirsch Pontes, coach do Rio de Janeiro. Alguns portadores da síndrome optam por minar as pró­prias metas. Assim, conseguem comprovar a tese inventada por eles mesmos de que não seriam capa­zes de ir até o fim. "A pessoa tem capacidade, mas desencadeia uma série de obstáculos que dificultam a conclusão da tarefa", afirma Luci. "Porque, se der tudo certo, ela vai ganhar uma projeção por algo que considera não merecer e não ser capaz de sustentar." Procrastinar e deixar a execução da tarefa para a última hora é a característica mais comum da autossabotagem. Casos agudos de síndrome do impostor também aparecem em profissionais que batalharam muito ao longo da vida. Quando chegam ao topo e não enxergam mais possibilidades de crescimento, frustram-se pela falta de novos desafios diários. "Os falsos impostores sempre esperam que algo pior aconteça e, quando as coisas fluem naturalmente, pensam que fizeram alguma coisa de errado ou que não chegaram aonde gostariam", diz Rogério Boeira, fundador da empresa de treinamentos Cult­man Management & Education, do Rio de Janeiro.

• Principais vítimas

 
Quando os psicólogos começaram a pesquisar a síndrome do impostor, na década de 70, acreditava-se que o problema era majoritariamente feminino, por todas as dificuldades que as mulheres enfrentam para entrar no mercado de trabalho. Com o tempo, constatou-se que o senti­mento atingia tanto homens quanto mulheres, porém os homens sempre foram mais encorajados a fingir ter confiança para alcançar o sucesso. Por isso as mulheres costumavam apontar casos mais agudos da sín­drome. "Qualquer pessoa que tenha sofrido preconceito por gênero, cor ou cultura está mais propícia a se sentir uma fraude", afirma Valerie Young, psicóloga americana especia­lista em síndrome do impostor. Em geral, as pessoas que se dizem impostoras tendem a atingir resultados maiores do que aquelas que são muito seguras em relação a si mesmas, porque se es­forçam mais para que os outros não descubram sua suposta incompetên­cia. "Pessoas ignorantes em relação a um tema acham que sabem mais do que os bem preparados, porque não entendem a responsabilidade que seria necessária para falar sobre o assunto", diz Rogério, da Cultman. "A ignorância gera mais confiança do que o conhecimento em si."

• O lado positivo

Em doses moderadas, a síndrome do impostor não é algo ruim. De certa forma, ela serve como impulso para que as pessoas busquem melhorar e atingir novos desafios. É altamente positivo querer sempre ser o melhor naquilo que faz. Mas quando o pro­fissional acredita que engana os ou­tros que o admiram, por achar que não é competente para ocupar sua posição, o estímulo se transforma em angústia permanente. Para su­perar esse fardo, é preciso aprender a anular o sentimento de impostor e entender que, embora a sorte pos­sa até trazer situações favoráveis ao crescimento, só consegue se manter bem-sucedido quem faz por merecer. Se a lição de casa está feita, pare de relembrar as falhas e aprenda a ce­lebrar cada etapa de seu triunfo. Afinal, uma conquista grande sem celebração não vale nada.

• No divã com Pauline

 
Para a psicóloga americana Pauline Clance primeira pesquisadora do sentimento de fraude, quanto mais exigente é o profissional, maior a chance de desenvolver a síndrome do impostor.

Você S/A - Qual é a diferença entre sín­drome do impostor e baixa autoestima?

 
Pauline Clance­ - Em geral, as pessoas com baixa autoestima tendem a não atingir grandes conquistas profissionais. No caso da síndrome do impos­tor, as pessoas são de fato bem-sucedidas. Elas têm evidências de que são inteligentes e competentes. Quanto maior o nível de exi­gência da pessoa com o trabalho, maior será a chance de desenvolver a síndrome.

Você S/A - Essa falta de con­ fiança com o próprio trabalho pode ser excesso de modéstia?

 
Pauline Clance­ -  Não acho que seja modéstia, mas acredito que exista mais um medo de não ser tão brilhante. Quando trabalho com pessoas que têm alto índice de síndrome do impostor, percebo que elas também são muito amáveis e respeitáveis. Talvez pareçam ser modes­tas, mas a verdade é um pouco diferente. Há muita ansiedade, dúvida e preocupação envolvidas.

Você S/A - A síndrome do impos­tor pode levar um pro­fissional ao fracasso?

 
Pauline Clance­ - O medo de fracassar pode levar à procrasti­nação ou à ansiedade, o que contribui para uma falha real. Porta­dores da síndrome não conseguem se visuali­zar em posições mais altas, mas também não celebram as conquistas diárias, já que nunca estão satis­feitos com os resulta­dos obtidos e tentam se prevenir de qual­quer erro. Em casos
mais graves, a pessoa chega a desenvolver problemas como de­pressão e insônia.
• Você se sente com um impostor?
Leia as afirmacões e assinale "sim" ou "não" "de acordo com suas atitudes no trabalho. Escolha a primeira opção que vier à cabeça, sem pensar muito:

1 - Frequentemente sinto medo antes de realizar tarefas, embora sempre tenha sucesso ao concluí-Ias. 

(___) SIM (___) NÃO

2 - Penso que as pessoas me acham mais competente do que realmente sou. 

(___) SIM (___) NÃO 

3 - Tendo a me lembrar de incidentes em que não fiz meu melhor em vez de momentos em que me esforcei ao máximo. 
mais graves, a pessoa chega a desenvolver problemas como de­pressão e insônia.

• Você se sente com um impostor?
Leia as afirmacões e assinale "sim" ou "não" "de acordo com suas atitudes no trabalho. Escolha a primeira opção que vier à cabeça, sem pensar muito:

1 - Frequentemente sinto medo antes de realizar tarefas, embora sempre tenha sucesso ao concluí-Ias. 

(___) SIM (___) NÃO

2 - Penso que as pessoas me acham mais competente do que realmente sou. 

(___) SIM (___) NÃO 

3 - Tendo a me lembrar de incidentes em que não fiz meu melhor em vez de momentos em que me esforcei ao máximo. 

(___) SIM (___) NÃO 

4 - Evito avaliar os outros e tenho pavor de ser avaliado. 

(___) SIM (___) NÃO

5 - Quando atinjo bons resultados e sou reconhecido por isso, costumo duvidar que seja possível repetir tal sucesso. 

(___) SIM (___) NÃO

6 - Sinto-me mal e desencorajado quando não sou o melhor ou, no mínimo, muito especial em situações que envolvem conquistas. 

(___) SIM (___) NÃO

Mais de três respostas positivas indicam que você pode ser um portador da síndrome do impostor. O resultado do teste não constitui diagnóstico oficial. Confira no quadro abaixo as sugestões de como lidar com a questão.

• Como superar o sentimento de fraude

Orientações de Valerie Young, psicóloga americana, especialista em síndrome do impostor 

Solidão - Estima-se Que 70% dos profissionais já questionaram a própria competência. O assunto, portanto, não é exclusivo de ninguém. Vale conversar sobre essa questão com outras pessoas e compartilhar as angústias. Isso ajuda a tirar da cabeça a percepção de que se trata de uma questão pessoal. 

Sorte - Pode ajudar em alguns momentos da carreira, mas é preciso esforço para se manter no cargo. Aumentos, promoções e outras formas de reconhecimento são provas de eficiência. Uma lista de pequenas e grandes realizações pode ajudar a relembrar os resultados e o mérito nos momentos de dúvida. 

Comparação - Algumas pessoas são muito exigentes consigo mesmas e não respeitam as próprias limitações. Estabelecer padrões inalcançáveis de eficiência só reforça o sentimento de fraude. Para relaxar um pouco, o melhor é reconhecer as reais capacidades e comemorar as conquistas e os avanços. 

Erros - Profissionais muito exigentes com o próprio trabalho sofrem, com os erros que cometem. Para lidar melhor com os fracassos, é preciso ser cuidadoso. O primeiro passo é aceitar que falhas são inevitáveis e, quando ocorrem, podem oferecer lições. É uma forma de enxergar o lado positivo da derrota. 

Satisfação - Quando o profissional está num emprego ou numa profissão de que não gosta, a motivação baixa, a produtividade cai, e ele se sente incapaz. Nesse caso, a síndrome do impostor é consequêrcia de um dilema de carreira maior. O jeito de romper esse ciclo é encontrar um trabalho que proporcione maior satisfação. 

Risco - Um sinal de síndrome do impostor é a necessidade de estar constantemente se testando para verificar a própria competência. Isso pode ser feito, desde que não implique assumir compromissos que não podem ser cumpridos. Assuma riscos possíveis riscos e faça do teste um processo lento. 

Feedback -  A opinião alheia influencia a imagem que o profissional faz de si mesmo. Um feedback claro e objetivo sempre traz aprendizado, mas é preciso filtrar opiniões certas e erradas. Você se conhece melhor do que qualquer um.

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