Xi, deu Branco!


Esquecer é um dos verbos que você mais conjuga? Então veja o que fazer para... para quê, mesmo? Ah! Para deixar sua memória tinindo.

Revista Você S.A. - por Adriana Garcia

Você acaba de chegar à catraca de entrada do escritório e lembra que esqueceu o crachá no carro. Entra no elevador e dá de cara com aquele conhecido de quem não há meio de lembrar o nome. Cumprimenta-o, mas nem puxa conversa, para não correr o risco de ele perceber que você não sabe de quem se trata. Ao chegar à sua mesa(que ódio!), percebe que deixou a agenda em casa. Você fica irritadíssimo, naturalmente, quando isso acontece. A partir de então, começa a questionar a qualidade da sua memória. Em seguida, faz a pergunta inevitável: será que Fosfosol resolve?

"Para esse tipo de esquecimento, não há remédio", diz o médico Cláudio Guimarães dos Santos, pesquisador do Laboratório de Neurociências da Universidade de São Paulo. No seu consultório, a queixa mais comum entre os pacientes é justamente esse tipo de "branco". Segundo o médico, esquecimentos esporádicos como os citados acima são normais, desde que não se repitam a toda hora. E para esses "brancos" esporádicos não existe remédio eficaz. Segundo Guimarães, esquecer as coisas de vez em quando significa apenas falta de atenção. Fisiologicamente, pode ser o resultado de estresse ou de muito cansaço físico e mental.

O que é um problema real de memória? Antes de mais nada, é preciso ficar atento para notar se seus esquecimentos não são sintoma de outra doença. Um executivo que sempre lembrou de tudo e de uma hora para outra começa a esquecer porcentagens e números em apresenntações deve procurar um clínico geral, geriatra ou neurologista. Entre as pessoas com menos de 45 anos, a depresssão é a causa principal desses lapsos freqüentes de memória. "A pessoa com depressão tem a tendência de não lembrar nada ou só recordar coisas ruins", diz Ivan Izquierdo, professor titular de neuroquímica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, um dos maiores especialistas no assunto do país. Outras enfermidades que podem afeetar o desempenho da memória são o hipotireoidismo, os distúrbios vasculares e as doenças degenerativas, como o mal de Alzheimer. Também há indícios de que a pressão alta pode alterar as funções mentais. Para alguns desses casos, a solução é tratar a doença - não a memória. Ela vai voltar ao normal depois do tratamento.

A preocupação em absorver o máximo de informações possível é uma característica da nossa época. Afinal, vivemos na era da informação. O fato de ser bombardeado por informações o tempo todo acaba esgotando a capacidade da nossa memória. Ela não consegue guardar tudo. A revista americana Newsweek dedicou uma matéria de capa à memória no final do ano passado. Nos Estados Unidos, segundo a revista, depois da obsessão por exercícios físicos, a nova preocupação dos americanos, sobretudo os que estão na meia-idade, é manter a mente em forma. Para isso, estão recorrendo a suplementos vitamínicos e cursos de memorização. Isso ajuda? "Ninguém conseguiu demonstrar até agora que esses procedimentos funcionam", disse a VOCÊ S.A., por telefone, o neurologista Eric Kandel, pesquisador da Universidade de Columbia, em Nova York, e um dos mais respeitados especialistas no assunto da comunidade científica internacional. "Sabemos que a ciência precisa descobrir remédios para potencializar o uso da memória, mas isso ainda vai levar de cinco a dez anos de pesquisa", afirma.

O que a ciência já sabe é que ainda não existe um remédio capaz de aumentar nossa capacidade de reter informação. A memória é seletiva por natureza. Ela filtra dados. Ela naturalmente escolhe quais vai guardar e quais vai apagar. Sabe-se que gênios conseguem armazenar um número enorme de informações, mas o fato é que a capacidade de guardar dados não é, em si, sinônimo de inteligência. "Há autistas, por exemplo, que registram um número enorme de dados. Isso não significa que saibam como usá-los", diz Izquierdo.

Em pessoas normais, a memória responde mais facilmente a dois tipos de estímulos: o emocional - nós guardamos com maior facilidade aquilo que nos emociona (como o primeiro beijo) - e o contextual, quando uma informação está relacionada a algo que já conhecemos. Os novos estudos destinam-se a decifrar como a memória se forma dentro do cérebro. Isso vai ajudar a medicina, no futuro, a encontrar fórmulas para otimizar o desempenho mental. Enquanto os remédios não vêm, muita gente acaba apelando para estimulantes. Os dois mais comuns são a cafeína e a nicotina, presentes no café e no cigarro. Essas substâncias aparentemente melhoram a capacidade de reter informações. Mas se ingeridas em excesso tornam-se prejudiciais até para o bom desempenho da memória, pois ativam demais o sistema nervoso. "Se uma pessoa toma 12 cafezinhos por dia, ela tende a ficar muito excitada, e isso prejudica a concentração", diz o neurologista Paulo Caramelli, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.

O que você pode fazer hoje de concreto para ajudar sua memória? Há alguns hábitos que podem garantir uma mente saudável no futuro e torná-la mais ativa:

- Aprenda a gerenciar o estresse. Nas grandes cidades, vive-se em tensão contínua e o estresse é um grande fator de alterações da memória. Em pequenas doses, ele funciona como um estímulo à memorização. Mas, em excesso, desestrutura o sistema nervoso. "Nosso cérebro faz sempre o melhor que pode em cada momento", diz o professor Izquierdo. Isso porque sempre há um certo grau de cansaço em nosso organismo. Se estamos bem, podemos estudar e desempenhar melhor nossas atividades. "Mas, se a gente percebe que não "cabe" mais nada na cabeça, é melhor sair, tomar um cafezinho e espairecer, afirma Izquierdo.

Pesquisadores vêm estudando a relação entre estresse e desempenho da memória. Um desses estudos foi feito na Universidade de Montreal, no Canadá, com pessoas acima de 50 anos. Os resultados, segundo o médico Paulo Caramelli, da USP, demonstraram que aquelas pessoas cuja taxa de cortisol(um dos hormônios do estresse) era maior, tiveram desempenho inferior nos testes de memória. Algum tempo depois, o mesmo grupo foi submetido a um exame de ressonância magnética no cérebro. Esse exame comprovou que o tamanho do hipocampo(área do cérebro que é a "porta" de entrada para a memória) era significativamente menor nos que tinham níveis elevados de cortisol. "Esse estudo sugere que pessoas que mantêm a taxa de cortisol alta, como, por exemplo, aquelas que se estressam com freqüência, podem ter mais dificuldades para envelhecer com a mente sadia", afirma Caramelli.

- Durma. Poucas horas de sono ou o uso constante de soníferos podem interromper a formação de novas memórias. É sobretudo no sono que as informações se cristalizam no cérebro. As pesquisas mais recentes também vêm observando que certas enzimas e proteínas têm um papel fundamental nessa sedimentação. Até o momento, o que se sabe é que isso ocorre na fase REM (Rapid Eyes Movement, ou movimento rápido dos olhos). O REM é o período do sono em que as pessoas sonham. Num jovem saudável, o REM ocupa 2 horas alternadamente numa noite de 8 horas bem dormidas. "Esse estágio do sono tem a função de recarregar o sistema nervoso central nos adultos", diz o neurologista Flávio Alóe, do Laboratório do Sono da USP. Pesquisadores da Universidade de Trent, em Ontário, no Canadá, chegaram a demonstrar que dormir poucas horas por vários dias não só prejudica a capacidade de lembrar mas também de absorver novos conhecimentos.

- Preste atenção. Quem não se concentra no que vê ou ouve dificilmente conseguirá reter algo na memória. Pessoas desanimadas e sem motivação tendem a esquecer mais do que aquelas que estão ativas e interessadas em suas tarefas. Também é verdade que tem gente que guarda melhor alguns tipos de informação e não outros. Um bancário pode ser excelente para lembrar de números e péssimo fisionomista. Já um médico, pela própria natureza da profissão, tem que lembrar do rosto de seus pacientes. O melhor que você pode fazer pela sua memória é, simplesmente, usá-la. "Você não vai ajudá-la se ficar assistindo programas desinteressantes na televisão diz o professor Izquierdo.

Quem é desligado e costuma esquecer com freqüência chaves, agenda e celular pode solucionar o problema deixando-os sempre no mesmo lugar. Aliás, você não precisa lembrar de tudo, porque, como já foi dito, a sua mente sempre vai filtrar o que julga mais importante. É também para isso que existe a velha e boa agenda.

- Evite o "tudo ao mesmo tempo agora". Um dos hábitos que mais atrapalham nosso poder de concentração e, conseqüentemente, nossa habilidade para fixar informações é desempenhar três a quatro tarefas ao mesmo tempo. Quem consegue trabalhar direito escrevendo no computador, falando ao telefone e comendo um sanduíche? "Pessoas desorganizadas e sem disciplina demoram mais tempo para cumprir suas tarefas", diz Caramelli. Segundo ele, outro fator óbvio que contribui para nosso desempenho mental é o fato de contar com um ambiente silencioso no local de trabalho, propício à concentração.

- Estude e Aprenda. Ao contrário do que se pratica em muitas escolas, decorar informações não é o melhor exercício que você pode fazer para sua memória. A leitura é a atividade mais indicada, porque ela envolve os cinco sentidos. Quem lê imagina cheiros, sons e imagens. ""Até o aspecto motor é estimulado", diz o professor Izquierdo. Na leitura é possível raciocinar, ou seja, relacionar aquilo que está sendo lido com outras informações preexistentes no cérebro.

- Escreva. Anotar, escrever e copiar estimulam a memória visual. São úteis para reter principalmente nomes e números.

- Gesticule. Para lembrar o nome de coisas enquanto fala, use os gestos. Acredite se quiser, mas pesquisas publicadas no American Journal of Psychology afirmam que pode ficar mais fácil acessar palavras que denotam movimento utilizando as mãos. Segundo o psicólogo Robert Krauss, da Universidade de Columbia, quando queremos lembrar de uma palavra como "castanholas" - cujo movimento podemos imitar - acontece uma maior ativação muscular do que quando pronunciamos um termo abstrato, como "piedade". O resultado é que a palavra "castanholas" acaba sendo acessada no cérebro com maior rapidez.

- Faça associações. Associar idéias a imagens ou montar enredos e histórias mentais para lembrar das coisas é um recurso que muitos utilizam naturalmente. Você também pode fazer uma ligação entre o que deseja lembrar e o que já sabe. Por exemplo, se você vai viajar para a praia, com certeza precisará de toalhas. Mas como não esquecer os óculos de sol? Imagine uma toalha branca com o desenho de óculos escuros. Você dificilmente vai conseguir tirar essa imagem da cabeça.

Perguntas Intrigantes

Por que às vezes a gente vê uma pessoa, sabe que a conhece, mas não lembra de onde ou do nome?
Esse tipo de ocorrência é normal. Você pode estar cansado ou aquela pessoa pode ser exatamente uma que sua memória ignorou. Ou então alguém que você não vê há muito tempo. Não significa falta de memória.

A gente perde a memória com a idade?
A menos que você sofra de uma doença degenerativa, a resposta é não. A partir de certa idade, as pesssoas tendem a se preocupar mais com a memória. "Esse tipo de preocupação é um fenômeno cultural. Não está relacionada à perda de neurônios", diz Izquierdo. Segundo ele, cada vez que se perde um neurônio, os outros se ramificam e suprem a falha daaquele trong>

Por que às vezes a gente vê uma pessoa, sabe que a conhece, mas não lembra de onde ou do nome?
Esse tipo de ocorrência é normal. Você pode estar cansado ou aquela pessoa pode ser exatamente uma que sua memória ignorou. Ou então alguém que você não vê há muito tempo. Não significa falta de memória.

A gente perde a memória com a idade?
A menos que você sofra de uma doença degenerativa, a resposta é não. A partir de certa idade, as pesssoas tendem a se preocupar mais com a memória. "Esse tipo de preocupação é um fenômeno cultural. Não está relacionada à perda de neurônios", diz Izquierdo. Segundo ele, cada vez que se perde um neurônio, os outros se ramificam e suprem a falha daaquele que morreu. A maior parte dos idosos que tem falta de memória sofre na verdade de depressão ou problemas circulatórios. "O cérebro consome 20% de toda a enerrgia do corpo. Se a circulação está com problemas, a meemória será afetada", diz o fisiologista Gilberto Xavier, da USP.

Fazer palavras-cruzadas, jogar xadrez servem para melhorar o desempenho da memória?
Até o momento, não há nada que prove que essas atividades ajudem a memória. Mas também não prejudicam. Uma a pesquisa treinou vários jovens sadios para memorizarem grandes seqüências de números. Depois de algum treinamento, eles podiam repetir de 30 a 40 números com exatidão. Em seguida, pediu-se que eles decorassem igual número de palavras. O resultado é que eles gastaram o mesmo tempo tanto para decorar as palavras quanto para memorizar os números. Portanto, fazer palavras-cruzadas não é uma "ginástica" que pode fortalecer a memória. A única vantagem é que você vai se distrair e fazer uma atividade lúdica, que relaxa e acalma. Não é uma técnica que vai ajudá-Io, por exemplo, a usar a memória de forma mais eficiente. O que acontece é que você vai jogar mais informações nela.

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