A arte de escolher


Eleger um novo funcionário é unir qualidade em uma técnica que faz melhor o dia a dia profissional.

Revista Sorria por Solange Medeiros

Recém-formada, Sula Furini enfrentou um dos primeiros desafios de sua carreira. "O diretor da escola onde trabalhava me pediu que cuidasse da contratação dos novos professores", diz a paulistana de 45 anos. Formada em pedagogia, seu único preparo para a tarefa era a experiência em cuidar de salas de aula e uma ideia do perfil procurado. Entre os requisitos estavam uma boa graduação, simpatia e "jeito com criança". Durante uma entrevista, conversava com uma candidata quando um aluno entrou na sala. "O currículo dela não era dos melhores, mas ela se envolveu de maneira tão carinhosa com a criança que resolvi arriscar", conta Sula. A aposta deu certo: há quinze anos a candidata é funcionária da escola e, hoje, ocupa o cargo de diretora. "Ela é boa no que faz e corresponde ao pensamento em que a escola acredita", diz Sula, agora uma das proprietárias do colégio.

Os riscos que Sula correu ao contratar um profissional são comuns a quem precisa chamar novas pessoas para compor uma equipe. Na hora de fazer a escolha, é preciso dosar a percepção e os critérios objetivos. "Antes de tudo, é preciso saber quais os requisitos exigidos do profissional buscado. Além disso, é importante não se deixar envolver somente pelo discurso dele", ensina Anna Scofano, consultora em gestão estratégica de pessoas em São Paulo. Uma dica é escutar o que o candidato fala e observar sua postura. Alguém que diz ser extrovertido mas conversa timidamente pode não ter facilidade com o público. "O bom entrevistador é detalhista", afirma Luiz Becker Júnior, professor dos MBAs da Fundação Getulio Vargas. "Tudo pode ser notado. O importante é que o candidato seja espontâneo."

TÉCNICA E EMOÇÃO

Na escolha, outros elementos, como empatia e identificação com a empresa, também contam. Afinal, são eles que ajudarão a equipe a se manter integrada, sem animosidades nem conflitos, fazendo com que o prazer dos funcionários em trabalhar aumente. Em seu livro Recursos Humanos: conhecendo a Admissão e a Demissão do seu Colaborador, o consultor paulistano Wagner Marques avisa que o trabalho de recrutamento vai além da contratação. O funcionário precisa se adaptar ao trabalho e aos colegas. Nessa fase, é fundamental que o gestor oriente sobre o funcionamento das atividades e apresente o recém-contratado ao seu departamento e a pessoas-chave de outras áreas. Nesse processo, outros diretores, profissionais mais antigos e com mais experiência podem ajudar.

Em linhas gerais, as etapas de um processo seletivo incluem o estabelecimento do perfil, a triagem e seleção de currículos, a busca de referências, testes ou dinâmicas e a entrevista de seleção. Esse processo pode levar de semanas até um ano - no caso de um executivo que vai ocupar a cadeira no topo de uma empresa.

TEMPO E ATENÇÃO

Por isso, escolher alguém às pressas pode tornar a seleção um equívoco. Foi o que aconteceu com o gerente de planejamento financeiro Rafael Hoshino, 33 anos, de São Paulo. Há alguns anos, Rafael teve poucas semanas para contratar um funcionário que ocuparia uma vaga por seis meses. O posto, em vendas, exigia checar cuidadosamente informações nos cadastros dos clientes. Sem tempo para receber muitos currículos e após uma entrevista rápida, Rafael selecionou um candidato que parecia se encaixar no que buscava. Vendo seu currículo bem escrito, a experiência no cargo anterior e sem prestar muita atenção às minúcias da conversa, Rafael o contratou. No entanto, no segundo mês de trabalho, percebeu que havia feito a escolha errada. "Era um trabalho operacional, ele se descuidou e começou a cometer muitos erros." Os equívocos prejudicaram as vendas da empresa, que começou a ter prejuízos financeiros significativos. "Como era uma vaga temporária, não renovamos o contrato", diz Hoshino.

A experiência ensinou a Rafael que não só o candidato deve preparar-se para a entrevista, mas também quem seleciona. Aprendeu que precisa, além de tempo, analisar o que deseja de quem vai ocupar as vagas. Estudou programas de recrutamento de outros lugares e, certa vez, chegou a pegar referências de problemas da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, para criar questões que seus candidatos deveriam resolver na seleção. Isso o ajudou a escolher de forma certeira. "O erro naquela seleção foi a pressa. Hoje faço as coisas com mais cuidado", diz Hoshino.

As seleções feitas por Rafael e por Sula mostraram a eles que escolher um bom candidato é uma mescla entre as competências técnicas - currículo, habilidades práticas e as competências pessoais - gostar do que faz, facilidade de relacionamento, empatia com a empresa e os colegas. Além disso, é importante ter em mente o que a vaga exige e quais os critérios aceitáveis. Pesando todos esses ingredientes, e tendo o cuidado de saber ler em minúcias o que os candidatos dizem e o que escondem em currículos e entrevistas, a seleção pode ser uma excelente forma de melhorar a equipe. E, assim,.tomar o trabalho melhor para todos.

SELEÇÃO SEM SEGREDOS

Além do entrevistador, os candidatos também devem se preparar. Veja como:

• CONHEÇA A EMPRESA

Dados como a história, prêmios e nomes de diretores causam boa impressão. Você demonstra ainda conhecer o mercado e sua área de atuação.

VISTA-SE ADEQUADAMENTE

A roupa para a entre evista deve condizer com a vaga e o estilo da empresa. Roupas simples, sóbrias e bem-cuidadas valem para qualquer lugar.

• TENHA FOCO

Não se atrase, desligue o celular e fique atento à conversa, sem questionar quem são seus concorrentes ou começar pelo salário.

• MOSTRE O QUE FAZ

Leve uma cópia caprichada do seu currículo ou um portfólio. Apresente-os à medida que o entrevistador pedir referências.

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