A ciência busca a felicidade


A pesquisadora Sonja Lyubomirsky estuda como as pessoas se adaptam quando elas conseguem o que achavam que as deixaria felizes.

Jornal Folha de São Paulo - por Elizabeth Weil

Sonja Lyubomirsky  diz que você tem um nível fixo de felicidade, que é parcialmente codificado nos seus genes. Sua sensação de felicidade aumenta quando uma coisa boa acontece e diminui quando a coisa é ruim. Mas, nos dois casos, não demora muito até que seu humor volte ao nível fixo, num fenômeno que a ciência chama de "adaptação hedônica". Você sabe, a gente se acostuma com tudo.

Com seu livro "A Ciência da Felicidade", de 2007, e com a sequência "The Myths of Happpiness" [Os mitos da felicidade], lançado neste ano, Lyubomirsky, professora de psicologia da Universidade da Califórnia, em Riverside, firmou-se como um baluarte da indústria da felicidade.

Suas conclusões podem ser provocati­vas e, às vezes, contraintuitivas. Locatá­rios são mais felizes que senhorios, diz ela. Interromper experiências positivas as torna mais agradáveis. Atos de gentileza tornam as pessoas mais felizes, mas não se elas forem com­pelidas a realizarem o mesmo ato com excessiva frequência - levar café na cama para a pessoa amada é uma delí­cia, fazer isso todos os dias parece uma obrigação.

Lyubomirsky talvez pareça uma im­provável guru do humor. "Eu realmente odeio todas as carinhas sorridentes, arco-íris e gatinhos", disse. Ela não costuma listar as dádivas que recebe nem escrever cartas de gratidão, embora suas pesquisas sugiram que isso torne as pessoas mais felizes.

Durante anos, temendo que o estudo sobre como aumentar a felicidade fosse considerado fútil demais, ela preferiu focar com distanciamento clínico, quase antropológico, as características categó­ricas das pessoas felizes e infelizes. Mas todos lhe perguntavam: como a felicida­de funciona? Como ser mais feliz? Então Lyubomirsky finalmente voltou sua pesquisa para essas perguntas. Ela descobriu que os infelizes se im­portam muito com comparações e re­sultados. Eles tendem a se sentir melhor quando recebem avaliações ruins, mas ficam sabendo que outros se saíram ain­da pior, do que quando recebem excelen­tes avaliações, mas sabem que outros foram melhores.

Em uma experiência, ela pedia a dois voluntários por vez que usassem mario­netes para dar uma lição de amizade a uma audiência infantil imaginária. De­pois, os manipuladores eram avaliados comparativamente: você foi ótimo, mas seu parceiro foi melhor, ou você foi mal, mas seu parceiro foi pior.

Os voluntários que estavam felizes an­tes da avaliação em geral se importavam pouco ao saber que haviam sido inferio­res aos colegas. Os voluntários infelizes ficavam devastados. Escreve Lyubomirsky: "Parece que os indivíduos infelizes compraram a máxima irônica atribuída a Gore Vidal: "Para a verdadeira felici­dade, não basta ter sucesso ... Os amigos devem fracassar""". Isso, diz ela, provavelmente explica por que tanta gente conhece a palavra alemã "Schadenfreude" (alegria com a desgraça alheia) e quase ninguém conhece o termo iídiche "shep naches" (alegria com o sucesso alheio).

Lyubomirsky, 46, nasceu em Moscou e emigrou aos nove anos para os EUA com os pais e o irmão, com ajuda da Sociedade Hebraica de Auxílio ao Imigrante. Na Universidade Harvard, foi aluna de Brendan Maher, apon­tado como o responsável por ter transformado a psicologia de uma ciência "fraca", baseada em observações, em uma "for­te", baseada em dados. Após a faculdade, ela se transferiu pa­ra a Universidade Stanford, na Califórnia, onde seu orientador a aconselhou a estudar a felici­dade. "Na época", disse Lyubomirsky, "só uma pessoa estudava a felicidade: Ed Diener. Chamava­-se então "bem-estar subjetivo", e o tópico era considerado muito obscuro".

Lyubomirsky passou aquela década tentando definir como eram as pessoas felizes e as infe­lizes. Segundo seu amigo Andrew Ward, hoje no departamento de psicologia do Swarthmore College, na Pensilvânia, "a premissa de trabalho naqueles anos era de que as pessoas felizes ficavam ra­cionalizando o tempo todo".

Então, Lyubomirsky conce­beu uma experiência em que as pessoas classificavam dez sobre­mesas, sabendo que comeriam uma. Elas sempre recebiam a segunda ou a terceira opção e eram en­tão orientadas a refazer a classificação dos dez doces. Quem racionalizava as sobre­mesas recebidas? Os infelizes.

Segundo Ward, as pessoas feli­zes diziam: "Bom, essa sobreme­sa é boa, e tenho certeza de que as outras são boas também! ". Os infelizes gostavam mais ou me­nos das suas sobremesas, mas indicavam estar extremamente aliviados por não terem recebido a "horrível" sobremesa não esco­lhida. "Em outras palavras, as pes­soas infelizes menosprezavam a sobremesa que não tinham re­cebido, ao passo que as pessoas felizes não sentiam a necessidade de fazer isso. A implicação é que pessoas infelizes fazem mais tra­balho mental."

Em janeiro de 1999, Seligman e Mihaly Csikszentmihalyi, autor de "A Psicologia da Felicidade", convidaram Lyubomirsky e al­guns outros psicólogos acadêmi­cos com menos de 40 anos para irem a Akumal, no México. Numa praia perto de Tulum, o grupo redigiu um manifesto da Psicologia Positiva.

Eles definiram esse campo co­mo "o estudo científico do ótimo funcionamento humano" e pro­feriram "um novo compromisso por parte dos psicólogos pesqui­sadores de focar atenção sobre as fontes da saúde psicológica, indo assi im além da ênfase anterior na doença e no distúrbio".

Hoje, Lyubomirsky não se con­sidera uma psicóloga positiva e acha que a palavra "positiva" é desnecessária. "Realmente não estou interes­sada nas pessoas felizes", insistiu ela. "Estou interessada em como a felicidade muda no decorrer do tempo e quais estratégias podem aumentar a felicidade."

Ela disse que, numa recente mudança familiar, seu marido, Peter DeI Greco, queria comprar uma grande TV de alta defini­ção. "Eu disse a ele: "Você vai se adaptar a ela". É claro que ele continuou querendo. E se adap­tou a ela." Lyubomirsky não acha que as pessoas irão aprender a não se adaptar. "Estamos focados demais no agora", disse ela. "O presente é tão chamativo. É inerente."

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