A força do hábito – como o cérebro é programado


É. preciso reprogramar o cérebro para mudar um comportamento executado sempre da mesma maneira.

Jornal Folha de São Paulo - por Suzana Herculano-Houzel*

Havia quase dez anos que o estacionamento no traba­lho era o mesmo - e, mesmo sem termos vagas mar­cadas, costumo parar mais ou menos no mesmo lugar todos os dias. Até que, mês passado, uma pequena obra mudou o portão de entrada e saída de um corredor do estado­namento para o outro, mais distante de onde eu habitu­almente paro o carro e sem a possibilidade de passar de um corredor para o outro. O resultado foi inevitável: passei mais de uma semana errando a saída do estacio­namento.

Nas primeiras vezes, sim­plesmente dirigi até onde o portão antigo ficava, para só então me dar conta do er­ro e fazer meia-volta. Nos dias seguintes, fui me­lhorando aos poucos: ainda entrava automaticamente no corredor errado, mas a cada vez notava meu erro um pou­co mais cedo. Até que, final­mente, semana passada meu cérebro aprendeu: já sou ca­paz de entrar no carro ao fi­nal do dia e me dirigir dire­tamente à saída.

A semelhança da minha situação com a de ratinhos de laboratório sendo subme­tidos a testes de aprendiza­do e de memória não passou despercebida, claro - são os ossos do ofício. Foi divertido, na verdade, notar na própria pele (ou no próprio cérebro) como pode ser difidl extinguir um hábi­to para adquirir outro em seu lugar. É a versão bem branda do que dependentes variados precisam conseguir para abandonar seus vícios: reprogramar seus cérebros para quebrar um hábito.

A fonte da dificuldade é o mesmo processo que, em ou­tras circunstâncias, nos dá a vantagem de não ter que pensar conscientemente em como fazer o que precisamos fazer quando se trata de um comportamento executado sempre da mesma maneira.

Esses são os hábitos, ins­critos em nosso cérebro nas conexões entre córtex motor e núcleos da base, e execu­tá-los não exige atenção. Basta estar no contexto cer­to e o programa é automati­camente lançado enquanto você pensa em outra coisa ­ donde meu erro sistemático logo após a mudança da sa­ída do estacionamento.

Hábitos, por isso, são ex­tremamente valiosos en­quanto as condições não mudam - e problemáticos quando elas mudam. Ainda bem que a mesma repetição que leva à instala­ção dos hábitos também é o remédio para sua atualiza­ção, sobretudo quando se tem uma chance de lembrar conscientemente de ante­mão que uma mudança é ne­cessária: "A saída é por lá, a saída é por lá ... ".

* É neurocientista, professora da UFRJ. autora de "Pílulas de Neurociência para uma Vida Melhor" (ed. Sextante) e do blog www.suzanaherculanohouzel.com

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