A receita do mestre


O governo vai lançar o primeiro concurso nacional para avaliar e selecionar quem dá aulas. Só falta decidir o que faz um bom professor.

Revista Época - por Camila Guimarães

Quais são as características de um bom professor? Não existe uma receita definitiva. Mas especia­listas defendem a idéia de que é possível identificar algumas habilidades básicas: dominar a disciplina que ensina, conhecer as etapas do desenvolvimento dos alunos e saber lidar com a turma. Porém, não é esse tipo de professor que encontramos na maioria das salas de aula brasileiras. Por isso, a baixa qualificação dos profissio­nais do ensino é apontada como um dos principais fatores para a má qualidade da educação do país. Agora, o Brasil pode ter uma chance de mudar. O primeiro con­curso nacional para selecionar professo­res deverá ser aplicado a partir de 2012. A prova, elaborada pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Aní­sio Teixeira (Inep), ligado ao Ministério da Educação, avaliará os candidatos para a educação infantil e para o período de 1º a 5º ano do ensino fundamental. A ideia é que as redes municipais usem a prova voluntariamente.

A prova nacional é um avanço por dois motivos. Primeiro, deve melhorar os cri­térios de seleção. Hoje, a escolha é feita pelos municípios, os maiores contratantes de professores das séries iniciais. São mais de 5 mil redes municipais, cada uma com sua própria seleção. Em geral, elas pade­cem de baixo investimento financeiro e falta de pessoal técnico para garantir a boa qualidade das provas. O segundo efeito benéfico da prova nacional é menos evi­dente e talvez mais importante. O exame vai forçar o país a definir o que esperar de um bom professor. É algo que nunca esteve no papel de nenhuma das diretrizes educacionais promulgadas pelo governo. Em países com bons índices educacio­nais, como Chile, Canadá e Inglaterra, há parârnetros para a prática do ensino. Para chegar a uma lista de qualidades que todo professor deve ter, técnicos do Inep visitaram esses países e entrevistaram di­retores de escolas brasileiras campeãs em aprendizado.

Também consultaram diversos espe­cialistas em educação, E aí começaram os problemas. Os acadêmicos, ligados às faculdades de pedagogia não gostam da idéia de uma receita. "É difícil definir o que é um bom professor objetivamente, sem levar em consideração fatores exter­nos, como as condições socioeconômicas dos alunos", diz Dalila Andrade Oliveira, presidente da Associação acional de Pós­-Graduação e Pesquisa em Educação. Ela questiona a necessidade de o professor conhecer a própria matéria que ensina. "O professor pode não dominar o conteúdo, mas saber ouvir e ser sensível aos alunos." As associações acadêmicas marcaram um seminário, no final de maio, para analisar a proposta do M EC e dar sugestões de como a prova nacional poderia ser formulada. Quem precisa de bons professores agora diz que não pode se dar ao luxo de longos debates. "Essa prova é uma necessidade imediata", diz Clcuza Repulho, presidente da União Nacional dos Dirigentes Muni­cipais de Educação. Ela defende a ideia de uma referência objetiva para qualidade dos professores. "Para quem não sabe co­zinhar, seguir uma receita garante que o resultado não será desastroso."

A prova de seleção, sozinha, não vai sal­var as escolas brasileiras. A carreira docen­te precisa ser mais atraente para que os jovens talentosos queiram dar aulas. No Brasil, segundo o Inep, a maioria dos que optam pela carreira docente está entre os alunos com piores notas no ensino médio. Esses jovens poderiam ser atraídos por
melhores salários e por um sistema mais justo de remuneração, que afasta os ruins c premia os melhores profissionais. Mas agora, pelo menos,  já vai dar para saber o que cobrar em sala de aula.

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