Açúcar causa dependência como álcool e cigarros


Endocrinologista americano lança polêmiac ao culpar o consumo de doces e até sucos pela epidemia de obesidade.

Jornal Folha de São Paulo - Patrícia Campos Mello

Açúcar é veneno. Do mais natureba, o mascavo, até o suco de fruta ou o famigera­do xarope de milho, o açúcar está por trás de doenças car­díacas, diabetes e câncer. E deveria ser proibido para menores de 21 anos, como o álcool e o cigarro. É com essas declarações polêmicas que o americano Robert Lustig, endocrinolo­gista pediátrico da Universi­dade da Califórnia em San Francisco, ganhou fama in­ternacional nos últimos anos. Sua palestra "Açúcar: a verdade amarga" teve mais de 900 mil acessos no YouTu­be (Veja abaixo). Há duas semanas, suas te­ses foram tema da reporta­gem de capa da revista do "New York Times". Abaixo, os principais trechos da en­trevista que ele concedeu à "Folha, por telefone.

Folha - O senhor defende que as pessoas eliminem total­mente o açúcar da dieta?

Robert Lustig - Não, eu não sou um "food nazi". Eu como açúcar, mas muito pouco. Nosso corpo tem uma ca­pacidade muito limitada pa­ra metabolizar o açúcar e nós vivemos muito acima dela. Não precisamos de frutose para viver. Nosso corpo fica­ria muito bem sem nenhuma frutose [açúcar refinado, a sacarose é composta de 50%
de frutose e 50% de glicose].

Folha - Qual é o máximo de frutose que deveríamos ingerir?

Robert Lustig - Não temos certeza. Mas uma estimativa é 50 g por dia. Meus estudos mostram as similaridades entre fruto­se e álcool. Eles são metabo­lizados da mesma forma, no fígado, E nós sabemos qual é o limite de toxicidade para o álcool: 50g. A epidemia de obesidade começou quando o consumo de frutose ultrapassou os 50 g por dia [ou 100 g de açúcar, o mesmo que duas latas e meia de refrigerante]. A Associação Cardiológi­ca Americana publicou uma orientação, em agosto de 2009, da qual eu sou coautor, dizendo que o consumo atu­al de açúcar nos EUA é de 22 colheres de chá por dia. Deve­ríamos reduzir isso para nove colheres no caso de homens e seis no caso de mulheres.

Folha - Qualquer açúcar é ruim, não importa se é mascavo ou xa­rope de milho?

Robert Lustig - Todos são igualmente ruins.

Folha - Deveríamos substitui-Ios por adoçantes artificiais?

Robert Lustig - Adoçantes artificiais são uma questão complicada. Não fizemos todos os testes para saber o que os adoçan­tes fazem no organismo. Se­gundo uma linha de estudos, uma vez que a língua sente o sabor doce, o cérebro se pre­para para a entrada do açúcar no sangue. Se ele não entra, o cérebro fica confuso, o que pode levar a um aumento no consumo de açúcar. Há estudos ligando o con­sumo de adoçantes a obesidade e doença cardíaca.

Folha - Qual a alimentação que os pais devem dar a seus filhos?

Robert Lustig - Crianças devem comer co­mida de verdade.

Folha - Mas isso inclui suco de fruta natural ...

Robert Lustig - Não, suco de fruta, mesmo natural, não é comida de ver­dade. Deus fez suco de fruta? Não. Deus fez fruta. Qual é a diferença entre a fruta e o suco? Fibras. A fibra é a parte boa da fruta, e o suco, a má. Sempre que há frutose na natureza, há muita fibra - há uma exceção, o mel, mas este é policiado pelas abelhas. As fibras limitam a velo­cidade da absorção dos car­boidratos e das gorduras do intestino para a corrente san­guínea. Quanto mais rápido a energia sai do intestino e vai para o fígado, maiores as chances de danificar o órgão.

Folha - Quando o senhor diz que crianças devem comer comi­da de verdade, isso inclui um sorvete no fim de semana?

Robert Lustig - Sim. Quando eu era peque­no, sobremesa era uma vez por semana. Hoje, é uma vez por refeição. Esse é o proble­ma. Eu tenho duas filhas pe­quenas e é isso que faço. Se é dia de semana e elas querem sobremesa ganhaam uma fruta. Uma bola de sorvete, só no fim de semana. Elas seguem as regras e não ficam sonhan­do com doces.

Folha - O senhor propõe que a venda de doces e refrigerantes seja proibida para menores, como cigarros e álcool.

Robert Lustig - Sim. Refrigerantes não têm valor, nutritivo, não fazem nenhum bem às crianças. Se os pais quiserem que seus fi­lhos tomem refrigerante, que comprem para eles.

Folha - Não é exagero comparar açú­car a álcool e cigarros?

Robert Lustig - Não. Cigarros e álcool cau­sam dependência, e açúcar também. Nos refrigerantes, tanto a cafeína como o açúcar causam dependência. Sal e gordura causam hábito, mas não dependência.

Folha - Como o senhor explica os efei­tos nocivos do açúcar?

Robert Lustig - Quatro alimentos foram associados à doença metabólica crônica: gorduras trans, aminoácidos de cadeia ramificada[soja], álcool e frutose. A frutose,  quando é metabolizada, libera substâncias tóxicas chamadas espácies reativas de oxigênio [radicais livres], que levam danos nas célu ulas no longo prazo, envelhecimento e, potencialmente, câncer.

• Açúcar: a verdade amarga

 

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