Administração do tempo: Saltos Profissionais


Às vezes, é necessário se jogar de cabeça naquilo que julgamos ser essencial para o crescimento futuro.

Jornal Folha de São Paulo - por Alexandre Hohagen*

Frequentemente ou convida­do para dar palestras sobre lideran­ça e gestão. São dezenas delas por ano, onde normalmente sou questio­nado sobre minha trajetória profis­sional e sobre as mudanças de ru­mo às quais me propus ao longo do caminho. Não raro, aparecem perguntas também sobre a frieza ne­cessária para abandonar uma car­reira em ascensão e começar tudo do zero novamente.

Ontem mesmo estive na Funda­ção Getulio Vargas (FGV) em São Paulo para um encontro com uni­versitários. Parte do tempo em que passei à frente da plateia - cerca de 500 espectadores, principalmente estudantes de graduação- dediquei a comentar sobre as mudanças necessárias no comportamento profis­sional para acompanhar a evolução tecnológica.

Vivemos no mundo do imediatis­mo, em que a tecnologia encurta dis­tâncias, aumenta a produtividade e permite a conexão instantânea de pessoas, coisas, produtos e lugares. É a era dos computadores ultrapor­táteis, dos tablets e dos negócios bi­lionários que podem ser comanda­dos a partir da palma da mão, por meio de um smartphone.

O que comentei com a plateia da FGV é que, apesar dessa rápida evo­lução tecnológica observada por to­da parte, nem sempre as pessoas estão preparadas para aceitar mu­danças igualmente necessárias em suas vidas e em suas carreiras. Ain­da é característica da maior parte dos profissionais se manter arraiga­da a processos antigos que trazem segurança, como um cargo estável e/ou um salário razoável por mês.

Um dos exemplos vem de profis­sionais excelentes, mas inflexíveis, que ainda atribuem, por exemplo, valor excessivo à hierarquia empre­sarial e não compreendem que, na nova dinâmica dos negócios, o car­go dá lugar ao profissional multifun­ção. Ele pode até não ter um título grandioso no papel, mas é essencial para o crescimento da empresa.

No mundo das transformações velozes dos negócios, estar aberto aos riscos das mudanças de áreas, de empresas e até de profissão nun­ca foi tão necessário. Agora, mais do que nunca, é necessário que os jovens profissionais pensem em su­as carreiras futuras como um plano de negócios: com estruturas de ba­se, com as etapas necessárias para o crescimento - seus desvios em caso de imprevisto - e o objetivo fi­nal.

No meu caso, liderar uma grande empresa era o plano desde muito jo­vem. E precisei correr os riscos das mudanças para conseguir chegar até o objetivo. São essas transfor­mações que levam ao que conside­ro saltos profissionais.

Comecei minha vida profissional há mais de 20 anos na área de co­municação corporativa, após cur­sar publiddade e jornalismo. Fiquei no ramo por quase sete anos, até in­gressar em recursos humanos. Con­fesso que pouco conhecia da área, enfrentei obstáculos, mas conside­rava que entender as pessoas me ajudaria futuramente a compreen­der melhor os negódos. Foi o primei­ro grande salto que dei em direção ao objetivo.

O segundo salto veio com a saída da área de RH para vendas, área crucial para o crescimento de negó­cios de qualquer empresa. Nova­mente, as resistências apareceram, mas foram essenciais para o cresci­mento profissional.

O terceiro e decisivo salto veio quando deixei as posições de ven­das para assumir, pela primeira vez, a função de gerente-geral, à frente da HBO, quando precisei me apro­fundar em gestão de crise, metas e prazos, elementos essenciais que me abriram o caminho para ocupar as posições no Google e agora no Facebook.

Pela própria experiência, costu­mo responder às perguntas sobre trajetória profissional dizendo que não existe fórmula pronta capaz de indicar que "chegou o momento da mudança", mas que observar as de­mandas do mercado e construir uma carreira eclética costumam ajudar.

Se houver um planejamento an­tecipado, tudo fica mais fácil. Ainda assim, dá para dizer que, de tem­pos em tempos, é necessário desconstruir parte do que aprendemos, sair da área de conforto de uma po­sição já estabelecida e se jogar de cabeça naquilo que julgamos ser essencial para o crescimento futuro.

* 44, jornalista e publicitário, é responsável pelas operações do Facebook na América Latina. Em 2005, fundou a operação do Google no Brasil e liderou a empresa por quase seis anos. Escreve às quintas-feiras, a cada quatro semanas, nesta coluna. www.facebook.com/colunadohohagen

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