Americanos querem novos numeros em testes de colesterol


Grupo de especialistas publica recomendações para melhorar identificação de pessoas com risco cardíaco. Dados seriam usados para fazer exames em pacientes com níveis de colesterol um pouco abaixo do máximo.

Jornal Folha de São Paulo - Débora Mismetti

Especialistas americanos em colesterol publicaram re­centemente um documento em que sugerem mudar os exames de colesterol, para que passem a incluir a medição de substâncias que, em geral, não constam dos testes feitos hoje. Os médicos da Associação Nacional de Lípides dos EUA propõem detalhar o teste pa­ra detectar proteínas que são carregadas junto com as de LDL (o colesterol "ruim"),
além de uma proteína que in­dica inflamação nas artérias.

A mudança aumentaria ainda mais a sopa de letri­nhas dos testes atuais, que já confundem muita gente. Hoje, os médicos se con­centram na medição do LDL, do VLDL, dos triglicérides e do HDL. Os três primeiros são responsáveis pela formação de placas ateroscleróticas, formações que dificultam a passagem do sangue e podem causar infarto.

O HDL é o chamado coles­te rol bom. Ele faz uma espé­cie de limpeza das artérias, removendo resíduos do LDL que levam à formação da pla­ca e estimulando a produção de óxido nítrico, substância que dá elasticidade ao vaso, facilitando sua dilatação. Is­so melhora a circulação.

• Classificação

Com base nos testes atuais, além dos exames clínicos e do histórico familiar dos pa­cientes, os médicos estimam se a pessoa tem ou não risco de sofrer um infarto e se pre­cisa de tratamento. Quando os exames apon­tam VLDL, LDL e triglicérides acima dos números deseja­dos e/ou HDL baixo, o médi­co pode recomendar mudan­ças na dieta, prática de exer­cícios, parar de fumar ou até remédios anticolesterol, as chamadas estatinas.

O problema, segundo Raul Dias Santos, diretor da uni­dade clínica de lipídes do In­Cor (Instituto do Coração), é que, em parte dos pacientes, os testes de colesterol dão um resultado que não justifica uma intervenção mas, na re­alidade, aquela pessoa está em risco de infarto. "Em 20% das pessoas que infartam, a gente nem tem ideia de que isso ia acontecer. Para muitos, o primeiro sinal de doença cardíaca ainda é o infarto ou a morte." O uso dos novos testes ser­viria para que o médico tives­se mais certeza ao classificar seus pacientes como de alto ou baixo risco.

Funcionaria assim: a pes­soa faria a consulta e o teste comum. Se estivesse em ris­co intermediário, faria os no­vos testes. Se os números viessem acima do desejado, elas teriam de reduzir bastan­te o colesterol. Muitas que ho­je não tomam remédio antí­colesterol passariam a tomar. Santos explica que um des­ses novos marcadores, o cha­mado Lp(a), aumenta o risco de coágulos sanguíneos.

"Essa proteína foi descrita há 40 anos, mas só ganhou força no último ano. Entida­des na Europa já recomen­dam medir o Lp(a)." O que ainda não se sabe é se baixar os níveis dessas pro­teínas ajuda a prevenir infar­tos, ou se elas só servem mes­mo como indicador.

Essa nova proposta dos americanos não se aplica pa­ra pessoas que têm colesterol alto mesmo. Para essas, já se sabe: é preciso fazer o trata­mento e baixar os números.

© Copyright 2020 - Todos os direitos reservados à Methodus