Ansiedade: energia disponível


O cérebro organiza no corpo um estado de alta disponibilidade de energia: você está pronto para agir.

Jornal Folha de São Paulo - por Suzana Herculano-Houzel

Robert Sapolsky, neuro­cientista especialista em es­tresse, gosta de dizer que o cé­rebro humano é tão capaz que consegue enxergar problema onde ainda não tem. Essa é uma deftnição bem simples, e prática, da ansieda­de: nossa capacidade de rea­girmos desde já, fisica e men­talmente, a um estresse que ainda não existe fora de nossas cabeças, mas que antecipamos para algum lugar do futuro.

A resposta à mera expecta­tiva do estresse tem tudo para ser boa. Do lado do cérebro, nos deixa desde já mais aler­tas, atentos, lembrando repe­tidamente do problema, do que sabemos sobre ele e, so­bretudo, de resolvê-lo. O hipocampo, que repre­senta memórias recentes, tra­ta de manter ativa na mente a sua lista de tarefas a fazer e de problemas a solucionar, e ain­da adona o locus coeruleus, o "lugar azul" do cérebro, que deixa você mais alerta e, as­sim, serve como um alarme interno, que não deixa você es­quecer do assunto a resolver. Daí, provavelmente, a sen­sação de tensão mental: seu cérebro antecipa que terá um problema com o qual lidar, e isso é o primeiro passo para começar a se preparar desde já, o que aumerlta bastante as chances de resolver o proble­ma, se e quando ele se materializar. Do lado do corpo, o cérebro organiza nele um estado de al­ta disponibilidbde de energia, deixando também seus mús­culos mais tensos e prontos para a ação. Um dos primeiros a se tensionar e ficar assim é o trapé­zio, que liga seus ombros à nu­ca - exatamente aquele que você sente ficar rígido e dolori­do quando está muito ansioso.

A má noticia sobre a ansie­dade é que, como o problema antecipado ainda está somen­te dentro da sua cabeça, ele tem o tamanho que seu cére­bro quiser - e a ansiedade po­de fugir ao controle, tomar proporções exageradas e se tomar um problema por si só. A boa noticia, contudo, é justamente que a ansiedade tem o tamanho que seu cére­bro quiser - e está ao seu al­cance mantê-Ia em cheque. Informações sobre o pro­blema ajudam o cérebro a ser realista a seu respeito. Man­ter seu kit de habilidades cog­nitivas atualizado e afiado lhe proporciona uma sensa­ção de capacidade intelec­tual e controle da situação. Ajuda, também, fazer exer­cidos físicos (que mantêm o hipocampo sob controle), contar com carinho e apoio moral de pessoas queridas e, se chegar a esse ponto, não hesitar em procurar apoio médico.

Sobre a autora

Neurocientista. é professora da UFRJ e autora de "Pílulas de Neurociência para uma Vida Melhor" (ed. Sextante) e do blog www.suzanaherculanohouzel.com

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