Aumenta incidência de diabetes juvenil


Número de casos novos subiu quase dez vezes em 20 anos, segundo estudo epidemiológico feito no interior de SP. Evolução anual da doença, ainda sem explicação precisa, é observada também na prática clínica e preocupa os especialistas.

Jornal Folha de São Paulo - por Fernanda Bassette

Sabe-se que o diabetes mais comum, do tipo 2, está em ascensão no mundo, devido a obesidade e maus hábitos. Agora, estudos mostram que também os casos do diabetes mais raro, tipo 1 (não ligado a sobrepeso e sedentarismo), crescem em níveis preocupantes.

Estudo epidemiológico feito por 20 anos no interior de São Paulo concluiu que a incidência da doença aumentou 9,6 vezes no período analisado (1986 a 2006). Os resultados serão publicados no “Journal of Endocrinological Investigation”.

O levantamento foi feito só em Bauru, mas endocrinologistas confirmam que o crescimento do chamado diabetes juvenil pode ser observado em todo o país, embora em proporções diferentes. 

O diabetes tipo 1, ou juvenil, é uma doença autoimune: as células responsáveis pela produção de insulina no pâncreas sofrem uma autoagressão e deixam de produzir o hormônio. Assim, os níveis de glicose no sangue aumentam e o paciente torna-se dependente do uso de insulina externa para o resto da vida. Em geral, o diagnóstico é feito entre os cinco e os dez anos de idade, dai o nome.

O estudo foi feito pelo endocrinologista Carlos Antonio Negrato, diretor-clínico da Associação dos Diabétitos de Bauru e do departamento de diabetes gestacional da Sociedade Brasileira de Diabetes.

O pesquisador avaliou a incidência anual da doença — que é o surgimento de casos novos, para cada grupo de 100 mil crianças menores 15 anos.

Para isso, usou informações de pacientes notificados por médicos, por pessoas que procuravam a associação de diabéticos da cidade e por um censo escolar feito anualmente em todas as escolas do município.

No período do estudo, 176 casos foram diagnosticados. A Incidência variou de 2,82 casos para cada 100 mil crianças, em 1987, para 27,20 casos para cada 100 mil em 2002, — ano que apresentou a maior incidência.

Segundo Negrato, em 71,43% dos anos avaliados o padrão de incidência foi considerado alto (de 10 a 19,99 casos por 100 mil/ano) e muito alto (igual ou mais de 20 casos por 100 mil).

• Possíveis causas

Ainda não há explicação precisa para o aumento no número de casos. Trabalhos científicos feitos no exterior chegam à mesma conclusão, mas não apontam as causas exatas.

“Fatores ambientais, temperaturas mais baixas, algumas viroses, introdução precoce do leite de vaca e seus derivados, associados à predisposição genética, parecem exercer alguma  influência”, diz Negrato.

Os resultados do levantamento são importantes, por refletirem uma situação que os médicos observam na prática clínica, afirma Augusto Pimazoni Neto, coordenador do grupo de controle do diabetes do Hospital do Rim e Hipertensão da Unifesp. “O trabalho mostra o tamanho do problema".

Essa evolução não está relacionada à subnotificação de casos, afirma o endocrinologista Roberto Betti, do núcleo de diabetes do InCor . “O diabetes tipo 1 é uma doença com sinais clínicos muito claros. O aumento é bem preocupante, porque trata-se de uma doença que deixa o paciente dependente de insulina por toda a vida.”

Picada de agulha é rotina para adolescentes

Abrir mão de bolacha recheada e tomar injeção não são coisas fáceis para adultos, que dirá para garotos. Mas Felipe, 17, Giulia, 10, e Kawe, 10 aprenderam a controlar o diabetes 1 e a conviver com dietas e picadas.

Felipe Droppa Poleti descobriu a doença aos 14 anos. Depois de perder quatro quilos e de sentir vontade de ir ao banheiro a cada dez minutos, decidiu procurar um médico.

Fez os exames e descobriu que o nível de glicose no sangue estava 426 mg/dl (o normal é entre 80 e 100 mg/dl). “Fui internado. No começo, chorei desesperadamente, porque eu achava o fim do mundo ter que tomar injeção todos os dias antes de comer. O tempo foi passando e hoje tenho uma vida normal, apesar de picar minha barriga, coxa ou braço pelo menos quatro vezes ao dia”, diz.

Giulia Pellegatti Britto Rosa foi diagnosticada aos nove. Depois de uma festa, passou a noite bebendo água e urinando com muita frequência. Constatou que o índice de glicose no sangue também estava fora dos padrões. Foi internada às pressas e ficou 11 dias no hospital.

A menina diz que o que mais a incomodou, depois de saber o diagnóstico, foi abrir mão dos doces e passar a carregar agulha e insulina para onde for.

“Não foi fácil me acostumar com as picadas de agulha duas vezes por dia. Mas, agora, um ano e três meses depois, eu mesma aplico as injeções e não vejo mais problemas nisso.”

O estudante Kawe Molina Ustolin Valêncio tinha seis anos quando descobriu que era diabético. Assim como Felipe e Giulia, bebia muita água, ia muito ao banheiro e também precisou ser internado.

Mas, diferentemente de Felipe e Giulia, que se picam o dia todo, Kawe usa uma bomba de insulina presa à cintura. O aparelho libera o hormônio constantemente, sempre que necessário. Mas ele não está livre das picadas: são feitas a cada três dias, para controle.

O menino, que se acostumou a ler a tabela nutricional dos alimentos antes de os consumir, reclama da dieta sem bolachas, sem macarrão, sem arroz, sem pão. “Agora, tudo é integral. Eu também sinto falta de tomar fanta uva.”

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