Bactérias que engordam


Seria possível realizar o sonho de pessoas modernas: comer e beber à vontade sem engordar?

Jornal Folha de São Paulo - por Dráusio Varella

Há mais bactérias no corpo huma­no do que sonha nossa vã filosofia. Mais numerosas do que o total de células do organismo inteiro, elas colonizam a pele e as mucosas que revestem a superfície interna dos aparelhos respiratório, gênito-uri­nário e digestivo. Na fase intrauterina vivemos num ambiente estéril, porque a placenta cria uma barreira que impede a flo­ra materna" de chegar até nós. Assim que o útero de nossas mães decide expulsar o parasita que lhes consu­miu as entranhas durante nove me­ses, caímos num mundo com germes no ar, na água, nas pessoas que nos embalam e até nos seios daquelas que nos alimentam com tanto amor.

Já na primeira mamada, nossos intestinos são invadidos por milhões de bactérias, decididas a encontrar um nicho ecológico que lhes permita cumprir o mandamento supremo da vida na Terra e em qualquer planeta em que tenha existido ou porventura venha a existir: crescei e multiplicai­-vos.

Nos miseros 5 milhões de anos em que nossa espécie tem feito de tudo para sobreviver, as bactérias apren­deram que a simbiose com as célu­las intestinais é estratégia mais inte­ligente do que invadir a mucosa, pe­netrar os tecidos internos, desorga­nizar a fisiologia humana e matar o hospedeiro. Em ambiente de convi­vência harmoniosa podem ter acesso aos nutrientes que ingerimos e até ajudar a digestão de alimentos para os quais não estamos prepara­dos, sem despertar a ira do sistema imunológico.

Em 2006, um grupo da Universidade de Washington observou que os intestinos de ratos obesos abriga­vam uma população de bactérias diferente daquela existente nos ma­gros. Três anos mais tarde, o mesmo grupo publicou na revista "Science" um estudo mostrando que ratos ma­gros "alimentados" com a mesma flora bacteriana dos gordos, tam­bém ganhavam peso.

Por simples manipulação das bactérias que vivem no intestino, se­ria possível realizar o grande sonho das mulheres e dos homens moder­nos: comer e beber à vontade sem engordar? Pode parecer uma ideia mirabo­lante, mas faz algum sentido. Há muito tempo os criadores sabem que adicionar pequenas doses de antibióticos à ração faz o gado en­gordar e que o efeito é tão mais evi­dente quando mais cedo começa o tratamento dos bezerros. Se com o gado ocorre esse fenô­meno, será que os antibióticos receitados às crianças, desde a desco­berta da penicilina, não estariam implicados na epidemia de obesida­de que se dissemina pelos cinco con­tinentes?

No último Congresso Internacio­nal sobre o Microbioma Humano, em Vancouver, no Canadá, Martin Blaser, da Universidade de Nova York, apresentou um trabalho comarando dois grupos de ratos cria­dos em condições comparáveis: o primeiro recebeu diariamente doses baixas de antibióticos, enquanto o segundo não foi medicado. No final, os ratos alimentados com antibióticos tinham flora intestinal com me­nor diversidade do que os outros, pesavam 15% mais e acumulavam 25% mais gordura no fígado (estea­tose hepática).

Pesquisadores do consórcio Me­ta-HIT que se dedicam a investigar a relação entre as condições de saúde e os genes bacterianos presentes no intestino humano, compararam os genes das bactérias presentes nas fezes de 177 dinamarqueses magros com aqueles detectados em 122 con­terrâneos obesos ou com excesso de peso. Enquanto as fezes da maioria dos participantes continham cerca de 600 mil genes bacterianos dife­rentes, pelo menos um terço dos obesos apresentavam ao redor de 360 mil, indicando menor biodiver­sidade.

Foram identificadas seis espécies de bactérias cuja presença ou au­sência permitia predizer em mais de 80% dos casos se pertenciam à flo­ra intestinal de uma pessoa magra ou gorda, enquanto a análise dos fa­tores genéticos predisponentes à obesidade possibilitava prever com acerto apenas 58% das vezes. O que não está claro é se as dife­renças encontradas entre os micro­biomas intestinais são a causa ou a consequência da obesidade, ou se representam fatores que apenas contribuem para que ela se instale.

Ainda levará tempo para surgir um iogurte rico em bactérias capa­zes de emagrecer sedentários que bebem sem moderação e comem tu­do o que lhes oferecem.

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