BBB um Espelho de Tropeços


Como propõe Bauman ao falar sobre "Modernidade Líquida", sociedade vive sobre imperativo de ver e ser visto - mesmo que isso signifique perda das singularidades.

Revista Scientific American - por Silvia Braugart

Acessar um blog de discussão sobre o Big Brother Brasil (BBB) - seja para criticar, seja para torcer pelo participante preferido ou simplesmente observar as repercussões que os mais diversos comportamenntos despertam nos espectadores - pode revelar alguns ingredientes responsáveis pelo sucesso desse reality show: voyeurismo, surpresa, submissão, exibicionismo, vigília, possibilidade de exercer a punição.

Criteriosamente dosada, essa mistura aguça instintos primários do psiquismo como luta pela sobrevivência, sentimentos narcísicos, mazelas da sexualidade, ânsia (ainda que inconsciente) de poder e onipotência e desejo de controlar o destino alheio. Há, por exemplo, quem diga que o BBB é uma realidade surreal; real porque vemos o que somos, e surreaI porque não acreditamos no que vemos.

Para quem ainda não sabe, a epidemia de bisbilhotice que contamina milhões de espectadores foi inspirada no romance 1984, de George Orwell. Escrito em 1948, o livro apresenta uma suposta sociedade na qual todos os indivíduos deveriam subordinar-se à vontade de um Estado totalitário, representado na figura do Grande Irmão, o Big Brother, capaz de vigiar os passos de todos os habitantes por meio de câmeras.

Não é difícil perceber que a ficção de OrweIl se tornou realidade e o ditador que tudo controla passou a permear - e a manipular - variados setores de nossa existência. Quando os avanços tecnológicos - câmeras de segurança, interfones, telefones celulares, crachás eletrônicos, cartões de crédito - passam a invadir nossa privacidade, monitorando as ações cotidianas, somos literalmente vigiados e nos tornamos vulneráveis a sanções.

Tudo muito parecido com o que acontece quando um número crescente de pessoas "patrulha" os hóspedes da casa (equipada com os confortos e diversões que povoam o imaginário da maioria dos brasileiros), policiando, apoiando ou punindo comportamentos com os quais não concordam. É a curiosidade inerente à natureza humana que, em vez de canalizada para o aperfeiçoamento da vontade de aprender e adquirir experiência, volta-se à indiscrição e ao desejo de se inteirar de particularidades e segredos da vida alheia.

Quer pelas características dos participantes - permanentemente vigiados pelos olhos mecânicos escondidos - que diariamente frequentam a casa de milhões de espectadores, quer por seus valores, destaca-se a presença da mídia determinando a exposição indiscriminada, o exibicionismo e o desejo de fama, a sujeição a ridículas situações de humilhação e a submissão ao dinheiro. O que em tese seria uma representação da realidade na prática revela-se um jogo de interesses mediado pela propaganda - afinal, a disputa é por R$ 1 milhão.

Os brothers são selecionados para supostamente fornecer um recorte diversificado dos personagens da vida real, mas criteriosamente escolhidos com olhos nos "picos de audiência" (seja pelo corpo bonito, seja pela personalidade polêmica), e seu comportamento é regido pela junção da máxima intensidade com o mínimo de compromisso. Como resultado, o que se observa é a inconsequência nos relacionamentos, a superexposição de sentimentos, o culto à imagem, à superficialidade e ao erotismo. É nessas características que milhões de brasileiros se reconhecem.

Os participantes transformam-se em verdadeiros gladiadores, para usar a imagem proposta pela psicanalista Marion Minerbo: expõem-se ao julgamento público e ao "paredão" como na Antiguidade se enfrentavam leões. Matar ou morrer. O vale-tudo na telinha encontra eco na vida real.

O sociólogo polonês Zigmunt Bauman propõe no conceito de "modernidade líquida". O imperativo é aparecer, ver e ser visto, mesmo que isso signifique a perda das singularidades. Por meio de mecanismos de projeção, espectadores identificam-se e reconhecem na imagem do outro sua própria possibilidade de "vir a ser". Afinal, se ele pode, eu também posso. Se ele aparece, eu também posso sonhar. Se é infiel, está em minhas mãos me indignar e punir...ou agir da mesma maneira porque está na moda.

Como um retrato fiel das distorções socioculturais, das injustiças da lógica econômica que produz sonhos de visibilidade, êxito empresarial, ascensão social e fama, a dinâmica do programa, por outro lado, também testemunha a necessidade de inserção e reconhecimento de seus pelo jornal O Estado de S. Paulo, o jurista Miguel Reale Júnior escreve: "O programa gera a perda do respeito de si mesmo por parte dos protagonistas, prometendo-lhes sucesso ao custo da violação consentida da intimidade. Mas o pior: estimula o telespectador a se divertir com a baixeza e a intimidade alheia. O Big Brother explora os maus instintos ao promover o exemplo de bebedeiras, de erotismo tosco e ilimitado, de burrice continuada, num festival de elevada deselegância".

E não se pode dizer que essa ácida crítica esteja muito distante do que vemos nos bailes funk que agitam as noites das metrópoles. Percebe-se a reverberação desses novos valores nas escolhas interativas do público (mais um produto da revolução tecnológica nas comunicações), que adquire o poder de comandar, sacrificar ou privilegiar, identificado que está ; com os heróis, vilões, sereias, fadas e bruxas confinados no mesmo espaço. Como personagens arquetípicos, configuram modos de ação nos quais o espectador pode se ver espelhado e, assim, influenciar os rumos da trama que, aparentemente, se estabelece sem o script das novelas.

Segundo a psicologia junguiana, arquétipos são padrões ou motivos universais que se originam no inconssciente coletivo e, ao se apresentarem à consciência, evocam reações emocionais que determinam as formas particulares como cada pessoa elabora experiências.

Mais frequentemente do que se pode imaginar as vivências de um arquétipo são experimentadas por projeção, o que justifica a atração por mocinhas turbinadas e garotões sarados: heróis e sereias que seduzem e repelem, com o único objetivo de vencer. Diante de um pequeno revés deixam transparecer seu lado de vilões; ou permanecem na defensiva, encenando o papel de mocinhas desprotegidas e garotos desfavorecidos, que escondem sua real identidade como estratégia de jogo - uma miscelânea de emoções e atitudes que alicia os espectadores e os convida a fazer parte desse show que explora as mais variadas experiências e tropeços aos quais todo ser humano está vulneráável, independentemente da etnia, da cultura ou do padrão social.

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