Brasileiros descobrem nova onda cerebral


Oscilação de alta frequência acontece em região do cérebro associada à formação e consolidação de memórias. Descoberta de grupo do Rio Grande do Norte foi feita com ratos, mas deve valer também para os seres humanos.

Jornal Folha de São Paulo - por Reinaldo José lopes

Pesquisadores da UFRN (Universidade Federal do Rio Gande do Norte) consegui­ram flagrar um novo tipo de onda cerebral que se propaga pelas camadas superficiais de uma área do cérebro liga­da à formação de memórias.

As medições foram feitas, por enquanto, nos neurônios de ratos, mas provavelmente valem para outros mamífe­ros, como os seres humanos. As ondas recém-descobertas parecem interagir com ou­tras já conhecidas, numa co­reografia que provavelmente é importante para a constru­ção e consolidação das lem­branças no cérebro, afirmam os pesquisadores.

"Estamos no começo do trabalho", diz Adriano Tort, professor do Instituto do Cé­rebro da UFRN e coordenador da pesquisa. "Mas já temos indícios de que as novas ondas aparecem no sono REM [o sono com sonhos], que já é conhecido por sua impor­tância para a memória."

• GPS

Tort e o aluno de doutora­do Robson Scheffer-Teixeira, junto com outros colegas, descrevem as descobertas em artigo na revista científica "Cerebral Cortex". O ritmo novo detectado por eles ocor­re no hipocampo, uma região que os cientistas comparam a um GPS do cérebro. É graças ao hipocampo que motoristas aprendem a diri­gir pelas ruas de uma cidade que ainda não conhecem, de­corando pontos de referência ou a localização de semáfo­ros, por exemplo. O hipocampo monta esse quadro da mesma maneira como funcionam outras áre­as do cérebro: corno uma or­questra elétrica.

• Orquestra

Os neurônios, células que são a unidade básica do ór­gão, são atravessados por im­pulsos elétricos, que se pro­pagam (ou não) para as célu­las vizinhas. Quando o vai­vém elétrico acontece de for­ma sincronizada em vários neurôníos (como urna guitar­ra e uma bateria tocando no mesmo ritmo, digamos), sur­gem as ondas cerebrais.

Essas oscilações aconte­cem em frequências específi­cas, corno ondas de urna es­tação de rádio. O novo tipo detectado pela equipe da UFRN, por exemplo, tem um pico de atividade em 140 Hz.

No entanto, Tort e seus co­legas verificaram que essa os­cilação não aparece sozinha, mas sim acoplada com outro tipo mais lento de onda, que interage com ela. As proprie­dades de um tipo de onda fi­cam ligadas ao que acontece com a onda "companheira".

Voltando à analogia musi­cal, é corno se a guitarra só conseguisse alcançar certas notas com a ajuda de outro instrumento de apoio. "A gente ainda não tem muita informação sobre os grupos de neurônios que es­tão em atividade para gerar esse resultado", afirma Tort. "Essa é uma das próximas fa­ses do nosso trabalho."Seja como for, a associação com o sono REM (cujo nome vem da sigla inglesa de "mo­vimento rápido dos olhos", que ocorre durante os so­nhos) faz a equipe apostar num elo entre as novas ondas cerebrais e o processo de for­talecimento das memórias durante a noite. Parte do trabalho também foi realizada no Instituto In­ternacional de Neurociência de Natal Edrnond e Lily Safra.

© Copyright 2020 - Todos os direitos reservados à Methodus