Cérebro: pequenos truques para obter o melhor


Como o cérebro pode influir no desempenho.

Jornal Folha de São Paulo - por Gina Kolata

Os ciclistas treinados pen­savam ter pedalado o mais de­ pressa que podiam. Mas Kevin Thompson, diretor de ciência do esporte e do exercício na Univer­sidade Northumbrian da Ingla­terra, questionava se eles pode­riam ser ainda mais rápidos. Por isso, em uma experiência incomum, ele os enganou . Em seu laboratório, Thomp­
son e seu assistente Mark Stone fizeram os ciclistas pedalarem o mais rápido que conseguissem em uma bicicleta ergométrica pelo equivalente a 4.000 metros. Depois de fazer isso diversas vezes, os ciclistas pensaram que conheciam seus limites.

Então, Thompson pediu que os ciclistas corressem contra um avatar - a figura de um ciclista em uma tela de computador na frente deles. Cada atleta via dois avatares. Um era ele mesmo, movendo-se em um percurso virtual na velo­cidade em que estava realmente pedalando na bicicleta fixa. A outra figura se movia na veloci­dade da melhor tentativa daque­le mesmo ciclista - ou era o que diziam aos esportistas.

Na verdade, o segundo avatar estava programado para rodar mais depressa do que o ciclista havia conseguido - usando 2% a mais de força, equivalente a um aumento de 1% na velocidade. Estimulados a disputar contra o que pensavam que fosse seu melhor tempo, os ciclistas aca­baram se equiparando a seus avatares nos trajetos virtuais. Embora um aumento de 2% na força pareça pequeno, é o su­ficiente para fazer uma grande diferença em um evento compe­titivo. Nos esportes de elite, um aumento de 1% na velocidade pode determinar se um atleta se classifica em uma corrida ou fica no pelotão de trás.

O que limita a velocidade em que uma pessoa consegue cor­rer, nadar, pedalar ou remar? É apenas o corpo - os músculos fatigados simplesmente cedem em um determinado momento? Ou o limite é definido por um "governador central" misterio­so no cérebro, como o chamou  Timothy Noakes, professor de ciência dos exercícios e espor­tes na Universidade da Cidade do Cabo, na África do Sul, que determina o ritmo, o esforço e o desempenho?

Até recentemente, os fisiolo­gistas do exercício se concen­travam nos músculos, corações e pulmões dos atletas, perguntando se a fadiga vem porque o corpo atingiu seu limite. Mas os próprios atletas há muito tempo insistiam que os fatores mentais são muito im­portantes. Roger Bannister, o primeiro corredor a superar a milha em quatro minutos, disse certa vez: "É o cérebro, e não o coração ou os pulmões, que é o órgão crítico. E o cérebro".

Hoje pesquisadores estão criando estudos para aprender mais sobre a influência do cêre­bro no desempenho atlético.

Jo Corbett, professor de fisio­logia do exercício na Universida­de de Portsmouth, na Inglaterra, diz que em uma corrida o cére­bro parece permitir que atletas utilizem mais profundamente os estoques de energia do que nor­malmente seria permitido. "A competição é capaz de mo­tivá-Io a mergulhar ainda mais fundo", disse Corbett. Mas deve haver um limite para a velocidade de um atleta, mesmo com a competição mais intensa ou com engano. Em um novo estudo Thompson tentou encontrar esse limite usando o mesmo método: ciclis­tas em bicicletas ergométricas corriam contra um avatar que ia um pouco mais rápido que o melhor tempo do ciclista.

Em um grupo, a única variá­vel era a competição. Os ciclis­tas eram informados de que o avatar iria 2% mais rápido ou 5% mais rápido do que o ciclista havia alcançado. O outro grupo foi enganado. Cada ciclista foi informado para competir contra um avatar que se moveria tão rápido quanto o atleta havia conseguido em sua melhor tentativa. Na verdade, o avatar foi programado para correr 2% ou 5% mais depressa.

Quando souberam que o ava­tar se movimentaria mais de­pressa do que, eles, os atletas do primeiro grupo alcançaram apenas seus melhores tempos. Os do segundo grupo se igua­laram a seus avatares quando eles foram programados para desempenhar 2% melhor que cada atleta. Mas quando o desempenho exigido foi 5%, os atletas con­tinuaram durante a metade da corrida e depois desistiram. No final seu rítmo geral não foi melhor do que havia sido em sua melhor tentativa sem o avatar.

Alguns pareciam se sair ainda pior do que sua melhor tentativa. "Tudo tem a ver com a fé do atleta", disse Thompson. Dentro dos limites, se um atleta pensa que um certo ritmo é possível, ele ou ela pode encontrar uma reserva de energia que o cérebro geralmente mantém escondida. Segundo Thompson, uma li­ção é que os treinadores podem obter melhores desempenhos de atletas por meio de pequenos engodos.

Mas é uma abordagem arris­cada. Segundo ele, até pequenos enganos podem desgastar a con­fiança entre atleta e treinador.

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