Cientistas registram os traços da memória contextual


Jornal Folha de São Paulo - por Benedict Carey

Pesquisadores sabem há muito tempo que o cérebro interliga toda espécie de dados novos, quer este­jam relacionados ou não, desde que tenham sido aprendidos mais ou menos na mesma época. Assim como o sabor de um biscoito pode desencadear uma enxurrada de memórias da infância, como em Proust, uma lição de casa de histó­ria recordada posteriormente po­de trazer à mente um problema de matemática - ou uma sobremesa nova - da mesma noite.

Pela primeira vez, cientistas registraram traços no cérebro dessa espécie de memória con­textual. Os registros, obtidos dos cérebros de pessoas que aguar­davam cirurgia para epilepsia, sugerem que novas memórias de fatos, mesmo que abstratos, são codificados em uma sequência de disparos de células cerebrais que também contém informações so­bre o que mais estava acontecen­do durante e logo antes de aquela memória ser formada. .

O novo estudo sugere que a memória é como um vídeo que é transmitido constantemente e tem marcas que assinalam fatos, cenas, personagens e pensamen­tos. "É uma demonstração da ideia bacana de que temos resquí­cios de pensamentos anteriores presentes em nossa cabeça e que "colamos" a representação do que acontece agora aos resquícios tênues daqueles pensamentos passados", disse Ken Norman, neurocientista da Universidade Princeton, em Nova Jersey.

No novo estudo, publicado no periódico "PNAS", médicos da Universidade da Pensilvânia e da Universidade Vanderbilt, no Ten­nessee, usaram registros feitos com eletrodos minúsculos implantados nos cérebros de 69 pessoas com epilepsia grave. Os pacientes realizaram uma tarefa simples de memória.Assisti­ram ao aparecimento de substanti­vos em uma tela e, depois de terem sua atenção distraída, recordaram o maior número de palavras que conseguiram, em qualquer ordem. Testes repetidos demonstraram um efeito previsível: os participantes tenderam a recordar as palavras em grupos, começando com uma e recordando as imediatamente an­teriores ou posteriores.

Usando os registros dos eletro­dos, os pesquisadores procura­ram um padrão de disparo neural que tivesse uma assinatura muito singular, ele era atualizado con­tinuamente. Eles encontraram um sinal forte no lobo temporal do cérebro. Quando os partici­pantes se recordavam de uma palavra, por exemplo, "gato"-, o padrão nessa região parecia idêntico ao momento em que a palavra "gato" tinha sido vista originalmente. O padrão era ligeiramente dife­rente quando os participantes se lembravam das palavras imedia­tamente anteriores ou posteriores a "gato". "Demonstramos que a pa­lavra anterior a "gato" - digamos que tenha sido "árvore" - coloriu ou influenciou a codificação de "ga­to", assim como "gato" influenciou a codificação da seguinte", disse Mi­chael J. Kahana, neurocientista da Universidade da Pensilvânia e um dos autores do artigo.

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