Códigos de convivência


A interação com o mundo é governada por códigos implícitos e explícitos, ensinados em casa e na escola.

Jornal Folha de São Paulo - por Anna Veronica Mautner

As férias escolares vão chegando ao fim. Fevereiro vem com as inevitáveis e repetiti­vas questões dos alunos: com que professora vou cair? Em que classe vou parar? Vou fi­car com os colegas de que gosto? O importante de todas es­sas dúvidas é que elas ace­nam para o fato de a criança conhecer a escola que a espe­ra. (A não ser que ela esteja mudando de escola.) A volta à escola não é ape­nas um retorno a uma certa rotina. É também ganhar de volta a vida entre os pares: alunos, mestres e diretores.

Escola é um espaço restrito dentro de um grande espaço público que é a sociedade. Não é só a família e sua es­trutura hierárquica que co­mandam fazeres e poderes. Junto com a escola, apare­ce o poder do Estado, que pa­rece mandar em todos e a quem todos obedecem. Eis aí um primeiro contato com a força virtual que tem representantes ao nosso la­do, mas não tem forma. É na escola que se formali­zam as ligações com a nação, com a língua, onde se apren­de a distinguir entre todas as coisas que libertam, garan­tem e limitam. Por exemplo: a criança po­de dizer "você", "senhora" , "tia" , mas quando deve usar tal e tal chamamento? São milhares de pequenos detalhes, códigos implícitos ou explícitos que governam a interação com o mundo.

O uso da percepção é vital para acertar o bem viver no mundo. O código da escola é diferente do código de casal família que é diferente dos có­digos que governam outros
locais públicos. Fevereiro é o tempo de vol­tar das férias, dos resorts, dos acampamentos, de todos os espaços públicos aos quais o aluno não tem acesso no tempo de aula.

A casa onde se vive com a família é diferente de lugares públicos. Nela não se troca usando dinheiro como inter­mediário. Mesmo na cantina da escola, ou no pipoqueiro, o dinheiro ou o fiado é sempre presente. Na escola, a existência é autônoma, mas com origem familiar. Na escola, o aluno é nome, sobrenome, endereço. É um "eu" público - marca registrada que vai permitir uma cidadania, fazer parte de um todo, sem que, por isso, ele se sinta aniquilado. É possível aguentar o silên­cio e escolher a opinião públi­ca à qual se quer aderir. Sobressair-se do impes­soal, processo cujo primeiro passo é dado na escola, mui­tas vezes é insensato, necessário. É cauteloso per­ceber sempre (voltamos à im­portância da percepção) os códigos de conduta de cada grupo, universo social, espe­cialmente aqueles que não são explicitados.

Cabe à escola e à família, nos primeiros anos de vida, ensinar mais do que códigos: ensinar a perceber códigos. Para a criança que ainda não formou o seu "eu", é difícil perceber qual o comporta­mento adequado num lugar público que não conhece. Para a criança, o anonima­to é doloroso. Por isso é tão importante para ela escutar sua própria voz. Daí a alga­zarra comum das crianças nos lugares públicos.

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