Com prazer é melhor


Revista Scientific American - por Gláucia Leal

Aprendemos sempre. Desde a primeira molécula, a vida só se mantém pela adaptação, pela comu­nicação e, claro, pela aprendizagem. Essa lógica se aplica a cada célula, órgão, ser humano, grupo so­cial ou cultura. Pesquisas recentes comprovam que quando assimilamos novas informações nosso cé­rebro se modifica, e mesmo na idade adulta tanto a massa cinzenta quanto a branca (e isso é novidade para os neurocientistas) aumentam. E aprender mais significa, na prática, maior habilidade para re­solver as mais diversas questões (e é fundamental considerar que o aprendizado se dá em vários ní­veis, não apenas no intelectual). O conhecimento determina, em grande parte, a maneira como ve­mos o mundo, nos posicionamos, resolvemos pro­blemas - e apreendemos novas informações, que por sua vez serão a base para outras.

Não por acaso a indústria farmacêutica investe tanto no desenvolvimento de drogas que possam ampliar a capacidade cognitiva e a memorização. Cientistas acreditam que é uma questão de tempo: assim como hoje muitas pessoas recorrem a suple­mentos vitamínicos para melhorar o desempenho do corpo, em um futuro breve as "pílulas para ficar mais esperto" poderão ser usadas em larga escala. Mas é preciso considerar que do ponto de vista neu­rológico a forma como captamos estímulos e dados e nos apropriamos deles - tem a ver com contexto sociocultural, características e experiências pessoais.

A idade, que há alguns anos era considerada forte empecilho para a aquisição de novos conheci­mentos, hoje é vista de outra forma: pessoas mais idosas não têm necessariamente pior desempe­nho e, nas áreas em que isso acontece, é possível driblar algumas dificuldades. Talvez uma das mais animadoras conclusões que a neurociência nos apresenta seja a de que aprender pode - e deve - ser divertido. Se para os pequenos ouvir histó­rias, jogar, cantar e brincar livremente é fundamen­tal para exercitar a criatividade, experimentar pos­sibilidades e, consequentemente, aprender, para os mais velhos vale a mesma máxima. Ler, praticar esportes regularmente, estudar idiomas, cultivar amizades, jogar videogame, viajar coloca o cérebro em estado de prontidão para assimilar novos con­teúdos. A ciência mostra que até errar, em qualquer fase da vida, é indispensável para aprimoramento. E movimentar o corpo e incluir atividades sociais na rotina é tão importante para manter o cérebro saudável quanto atividades que estimulam direta­mente o intelecto. Parece que para o mais sofisti­cado dos órgãos vale o mesmo no que diz respeito a músculos e habilidades em geral: quanto mais o exercitamos, mais o fortalecemos. Felizmente isso pode ser bastante prazeroso.

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