Comer menos: deixar alimento no prato não é crime


Deixar alimento no prato não é crime; daqui a algumas horas você terá uma nova refeição.

Revista Scientifuca American - por Suzana Herculano-Houzel*

Comer dá trabalho. Bem menos hoje em dia, com geladeira em casa e supermercado na esquina, é verdade. Graças à divisão de tarefas, a grande maioria de nós não precisa mais passar horas do seu dia caçan­do, coletando ou plantando. Essa divisão do trabalho, por sua vez, só foi possível porque nossos antepas­sados inventaram a cozinha: o uso do fogo para tornar os alimentos mais fáceis de mastigar e digerir e, com isso, até mais nutritivos (com um rendimento calórico aumentado). Sem cozinhar, estaríamos fadados a passar 11 horas diárias comendo folhas, frutas, raízes e carnes cruas. Ironicamente, é isso também que nos tornou potencialmente ... gordos. Antigamente, nosso desafio era conseguir comer o suficiente; hoje, o problema é justamen­te poder comer demais.

A razão disso é que, se por um lado aprendemos a usar nosso cérebro para tornar a comida mais fácil de ingerir e di­gerir, por outro não parecemos ter mudado nossa paixão pela comida nem nossas preferências. Quando encontrar alimento é algo incerto, é crucial que o cérebro valorize a ingestão de gorduras: por grama, elas rendem mais que o dobro de ca­lorias que carboidratos ou proteínas. Fundamental, também, é aproveitar a oportunidade e comer até não poder mais por  pura falta de espaço, mesmo quando o estômago ficar cheio. Some-se a isso o prazer aumentado que o cérebro atribui ao ~ primeiro bocado de alimento a passar pela boca, e tem-se o  "efeito amendoim". É impossível comer um só ... É aqui que t conhecer o próprio cérebro pode ajudar quem não quiser i comer tudo o que pode só porque pode.

Em primeiro lugar, é útil lembrar a importância de comer pouco a cada vez, mais vezes ao longo do dia. O benefício é duplo. Por um lado, não deixar a fome crescer demais ajuda o cérebro a diminuir sua ânsia sobre  quanta comida ingerir na próxima oportunidade. Por outro, pequenas quantidades mantêm o estômago pequeno. Como a distensão mecânica do estômago com o alimento é um dos sinais de saciedade para o cére­bro - e um estômago pequeno fica saciado mais cedo que um grande-, você tem chance de comer somente o que de fato precisa.

Segundo: mastigar, mastigar, mas­tigar. Antes de o alimento chegar ao estômago, o cérebro usa a informação dos sabores ainda na boca para saber quanto está entrando de cada tipo de nutriente: gorduras, açúcares, sais, ácidos e proteínas. É a mastigação que permite isso, conforme os nutrientes são liberados do alimento e estimulam sua língua. Mas se à primeira garfada os neurônios que detectam o prazer de cada sabor ficam mais ativos, fazendo com que você queira mais daquele alimento, a repetição de cada sabor vai deixando esses neurônios "acos­tumados", cada vez menos ativados (apenas durante aquela refeição, claro). Quanto mais você mastiga, portanto, mais tempo os neurônios correspondentes a cada sabor têm para se cansarem daquele alimento - e você acaba se saciando daquele sabor em particular.

E terceiro: diminuir a variedade de sabores no prato. Seu cérebro se sacia mais rápido e você come menos se o almo­ço for somente lasanha do que se for uma quantidade total equivalente de lasanha, arroz, bife, legumes e salada. Isso exige resistir a todas aquelas iguarias diferentes ofertadas no bufê, é verdade - mas você pode variar na refeição seguinte. Aliás, aproveite o controle e aprenda a deixar comida no prato quando já estiver saciado, o que, ao contrário do que sua avó dizia, não é crime. Sua geladeira garante: você terá uma nova refeição daqui a algumas horas, sim..

Sobre a autora

* É neurocientista e professora na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

© Copyright 2020 - Todos os direitos reservados à Methodus