Comida natural nem sempre é melhor


Indústria alimentícia puxa polêmica, dizendo que produtos industrializados têm mais nutrientes e são seguros. Nutrícíonístas afirmam que há vantagens nos alimentos processados, mas têm sal demais e poucas vitaminas.

Jornal Folha de São Paulo - por Juliana Vines

É preciso comer 425 toma­tes por dia para conseguir uma quantidade significati­va de fitoesterois, substância que ajuda a controlar o coles­terol, Ou então, duas colhe­res de creme vegetal enrique­cido com a substância.

A comparação é do pesqui­sador Gert W. Meijer, que não por acaso é o vice-presidente de Nutrição e Saúde da Uni­lever, Segundo ele, comida industrializada pode ser melhor do que natural.

"Alimentos processados mantêm um padrão de quali­dade e têm rótulos com infor­mações sobre seus ingre­dientes e nutrientes", disse.

Outra vantagem, de acor­do com Meijer, é a segurança e a conservação. "O alimento in natura pode estar conta­minado por bactérias e fungos. Além disso, logo após a colheita, eles começam a per­der qualidade nutricional."

Não é só a indústria que vê vantagens nos processados. Para a nutricionista Cynthia Antonaccio, da Equilibrium Consultoria, natural também não é sinônimo de saudável.

"É preciso esquecer a ideia de que todo alimento natural é saudável e todo industriali­zado é ruim. O açúcar da ca­na faz mal a diabéticos e o lei­te integral e os queijos casei­ros têm gordura saturada."

Alguns processados con­centram nutrientes presentes em pouca quantidade em frutas, verduras e legumes. Há cereais com adição de vi­taminas e cremes vegetais com fitoesterois e ômega 3.

"Às vezes, a industrializa­ção deixa o produto mais pa­latável. É o caso de alguns ce­reais e bebidas à base de soja", diz Antonaccio.

Segundo o médico nutró­logo José Alves Lara Neto, membro da Associação Bra­sileira de Nutrologia, é muito mais fácil pensar em boa ali­mentação com produtos industrializados saudáveis.

"Poucas pessoas conseguem planejar o cardápio e ingerir porções ideais de pro­teínas, carboidratos, frutas, legumes e verduras."

• Só nos naturais

"Só precisamos de alimen­tos enriquecidos com nu­trientes porque existem os in­dustrializados sem nenhum valor nutricional", diz Geor­ge Guimarães, nutricionista especialista em dietas vege­tarianas da Nutriveg.

Para ele, apesar de terem nutrientes, produtos proces­sados são limitados. "Eles não têm uma variedade de vi­taminas e uma quantidade proporcional de fibras. Sem­pre sobrevivemos sem ali­mentos com fitoesterol."

Além disso, muitos indus­trializados ainda têm sal de­ mais. "A embalagem pode dizer que o produto tem mais fibras ou menos sódio, mas dificilmente uma bolacha tem mais fibras do que uma concha de feijão ou: uma xí­cara de cenoura ralada", afir­ma a nutricionista Fernanda Pisciolaro, da Abeso (Asso­ciação Brasileira para o Estu­do da Obesidade e da Síndro­me Metabólica) .

• Saudáveis, mas nem tanto

As desvantagens dos alimentos naturais em relação aos industrializados

 - Leite: In natura, tem altos índices de gordura saturada. Os proces­sados são pasteuriza­dos e podem ser desnatados

- Vegetais frescos: Frutas e verduras perdem a qualidade depois de colhidos. Os pré-cozidos e congelados mantêm sabor e nutrientes.

- Pão branco caseiro: Tem menos fibras e mais calorias do que os pães de forma industrializados feitos com grãos integrais.

- Maionese: A feita em casa com ovos é mais natural, mas pode estar contaminada. Algumas industrializadas são feitas com ômega 3, que previne doenças cardiovasculares.

- Manteiga: Tem gordura saturada e não tem fitoesterois ou ômega 3. Essas substâncias ajudam a controlar índices de colesterol e estão presentes em cremes vegetais.

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