Como aprender a fazer negócios


Os negócios são cada vez mais globais; a lista das maiores empresas do mundo comprova isso.

Jornal Folha de São Paulo - por Gilberto Dimenstein

Não esperava por uma resposta tão direta e franca quando pergun­tei ao professor Nitin Nohria, diretor da Escola de Negócios em Harvard, o motivo de sua viagem ao Brasil no próximo mês e ele disse que era uma questão de sobrevivência. Sobrevivência daquela que é con­siderada, em vários rankings inter­nacionais, a melhor escola de negó­cios do mundo, responsável há mui­tas décadas pela formação da elite empresarial norte-americana e cu­jas pesquisas estão no currículo da imensa maioria das faculdades de administração do planeta. É uma instituição que, por causa de seus influentes alunos, tem um fundo de quase R$ 4 bilhões. No século 21, os negócios são ca­da vez mais globais e menos "ameri­cocêntricos". Para comprovar isso, basta ver as mudanças na lista das maiores empresas do mundo. "Para continuarmos na vanguarda, temos de ir para onde os negócios vão."

O próprio Nitin, especializado em estudo sobre lideranças e mudan­ças organizacionais, é exemplo des­sa reviravolta. Indiano, autor de es­tudos que o levaram a viajar a mais de 50 países, ele é o primeiro profes­sor nascido fora do Ocidente a ocu­par a direção da faculdade. Por que, afinal, uma viagem ao Brasil tem a ver com a sobrevivência daquela escola? Na resposta, você verá como se molda a educação de excelência no século 21. Para Nitin, uma das principais ra­zões de sua faculdade se destacar é a qualidade dos alunos. O Brasil é, hoje, segundo ele, um dos cinco, mais importantes países a serem acompanhados por quem estuda o futuro dos negócios. "Queremos sempre atrair os me­lhores alunos de cada país, capazes de empreender e inovar. Podemos estar nos Estados Unidos, mas te­mos de ser radicalmente globais pa­ra nos mantermos inovadores."

Esse ambiente cria um circulo vir­tuoso. Para ele, a escola poderia adotar o slogan informal de Nova York, cantado por FrankSinatra ("If you make it there, I´ll make it every­ wnere"), ou seja, se você se dá bem ali, o mundo vai abrir as portas para você. Há um processo permanente de estímulo à competição, com a apresentação de projetos e planos de negócio dos estudantes. Neste ano, aliás, eles estão inau­gurando uma incubadora-modelo, reunindo professores, pesquisado­res e alunos das mais diversas áreas, da medicina à engenharia, para trabalharem juntos. O projeto, nascido dentro de uma antiga esta­ção de televisão, foi batizado de HI (Harvard Inovation).

A tendência histórica, na visão de Nitin, é as nações emergentes terem escolas de negócios cada vez melho­res. Vejam como, na área de ensino de negócios, cresce o prestígio inter­nacional de instituições como a Fun­dação Dom Cabral, a Fundação Ge­tulio Vargas e o Insper. Como as aulas são baseadas em casos concretos de sucessos ou fracas­sos empresariais, ter alunos brilhan­tes e provocativos produz visões criativas. Trabalha-se, portanto, em cima de um problema, ou seja, de um desafio. "Isso significa que te­mos de ter um contato próximo com o Brasil para ter mais casos de vocês levados aos alunos". Já são 198 ca­sos nacionais estudados em sala de aula. "Quantas informações univer­sais não se podem extrair, da Natu­ra?" Aqui entra o desafio de tentar navegar no excesso de informação e selecionar o que seria o essencial. "Para ser franco, ainda não sei se estamos lidando bem com o desafio do excesso informação. Temos de acompanhar a velocidade extraor­dinária da inovação, mas conseguir captar o que é relevante."

Uma das riquezas da escola é sa­ber escolher e relatar bem esses ca­sos explorados. É aí que entra o pa­pel decisivo do que Nitin chama de professor-empreendedor. "Nossos professores não apenas têm paixão por ensinar mas também são em­preendedores no sentido de que não param de pesquisar e de trazer no­vos olhares e desafios". Para completar o circulo virtuoso, a faculdade promove conversas reser­vadas dos alunos (não podem ser di­vulgadas) com as melhores cabeças de negódos do mundo para falar de suas experiências. Em geral, são conversas francas, em que os autoe­logios são menos importantes do que o aprendizado com os erros. "Tenho de pensar na educação dos próximos cem anos. Focar os Esta­dos Unidos nos deixará obsoletos." E aí o caminho é fazer do mundo a melhor escola. Aliás, isso é apenas a continuação do que Nitin faz em sua própria vida afinal, ele, além das pesquisas que realizou em 50 paí­ses, já morou em cidades como Cal­cutá, Mubai, Nova Déli, Londres e Boston, quase sempre se mudando para estudar.

PS- Uma lição: apesar de ser consi­derada a melhor do mundo, a Esco­la de Negódos de Harvard compor­ta-se com a humildade pragmática de quem sabe que tem muito a aprender. Não é o que vejo em mui­tos de nossos reitores, aparente­mente satisfeitos. Fui criticado por todos os lados só porque disse que a Faculdade de Direito da USP, ape­sar de estar em primeiro lugar, deve­ria sentir-se envergonhada com o fa­to de que cerca de 40% de seus alu­nos não foram aprovados no exame da OAB.

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