Comportamento: o cérebro e a timidez


Estudos mostram que diferenças de comportamento entre crianças são ligadas à reação da amígdala.

Jornal Folha de São Paulo - por Suzanna Herculano-Houzel*

As balas sobre o balcão são as preferidas e o xixi po­de estar quase saindo, mas não adianta: não há san­to ou argumento materno que convença a criança a se aproximar da moça e pedir o que quer ou perguntar on­de é o banheiro. Para enfren­tar o desconhecido, só mes­mo agarrado à mão da mãe e escondido atrás dela, enquanto ela faz as perguntas.

Soa familiar? Um certo grau de timidez é comum à maioria das crianças e tem lá sua utilidade ao introduzir cautela no primeiro contato com o desconhecido - seja ele um estranho que vem lhe fa­zer bilu-bilu, uma grande massa d"água salgada agita­da, barulhenta e fria, ou um brinquedo novo grudento, ro­sa e cheio de pernas que des­ce às cambalhotas pelas pa­redes da sua casa.

Às vezes, basta um pouco de familiarização (ou piruli­tos) para a criança começar a brincar com as vendedoras; outras, nem várias demons­trações de que a coisa grudenta não morde farão com que a criança pegue o tal brin­quedo. A razão? O que chamamos de timidez é uma expressão do medo frente ao desconhe­cido, e ela depende do grau de reatividade de uma parte do cérebro: a amígdala (não é a da garganta!). Quanto maior a ativação, mais exagerada e dificil de controlar é a resposta corpo­ral, fisiológica mesmo, de me­do do rosto ou do objeto estranho.

A equipe do psicólogo Jero­me Kagan, da Universidade Harvard, nos EUA, demons­trou que as diferenças com­portamentais são ligadas ao grau de ativação da amígda­la entre crianças - e ainda permanecem até a idade adulta. Uma vez tímido, pro­vavelmente sempre tímido. Essa persistência do grau de reatividade da amígdala ao desconhecido indica que ela vem de fábrica e é possivel­mente uma questão de gené­tica, assim como a cor dos olhos ou dos cabelos.

Mas genética não é neces­sariamente destino - e uma amígdala muito sensível ao desconhecido também não. Sociedade, cultura, ambien­te, educação e muita determinação podem acabar dando um jeito de contornar o freio imposto pela amígdala face ao desconhecido e tornar mesmo a mais tímida das crianças em uma adolescen­te capaz de falar com a ven­dedora. A amígdala não ce­de, mas o resto do cérebro aprende a dominar seus im­pulsos e passar por cima do medo.

Ainda bem para o comér­cio. Já pensou o estrago se ninguém tomasse coragem de abordar um desconhecido pa­ra perguntar o preço - ou on­de fica o banheiro mais próximo, rápido, por favor?

*Neurocientista, é professora da UFR) e autora de "Pílulas de Neurociência para uma Vida Melhor" (ed. Sextante) e do blog www.suzanaherculanohouzel.com

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