Consumo de açúcar pode aumentar fome


Estudo diz que a frutose, tipo de açúcar muito usado na indústria, estimula pouco as áreas do cérebro ligadas à saciedade. Uso indiscriminado da frutose, sobretudo nos EUA, já é apontado como um dos responsáveis por epidemia de obesidade.

Jornal Folha de São Paulo - por Reinaldo José Lopes

Um tipo de açúcar muito usado pela indústria de ali­mentos parece estimular ligeiramente as áreas do cére­bro ligadas à vontade de co­mer, em vez de sinalizar que já é hora de diminuir a inges­tão de calorias, indica uma nova pesquisa. Se o resultado estiver cor­reto, fica mais forte a ideia de que parte importante da cul­pa pela atual epidemia de obesidade mundial seria do uso indiscriminado de fruto­se, molécula que está presen­te nos sucos de fruta, no xa­rope de milho e em muitos outros produtos da indústria alimentícia, principalmente da americana.

A nova pesquisa, publica­da no "Jama", periódico da Associação Médica America­na, foi coordenada por Robert Sherwin, da Universidade Ya­le (EUA), e tem como coauto­ra a médica brasileira Rena­ta Belfort - DeAguiar. Num experimento bastan­te simples, a equipe subme­teu um grupo de 20 adultos sadios (metade homens e me­tade mulheres), com idade média de 31 anos, a duas ses­sões de ressonância magné­tica funcional.

Primeiro, a atividade cere­bral dos voluntários era me­dida sem intervenção nenhu­ma, para ter uma ideia de seu estado "normal" durante o je­jum (as pessoas chegavam ao laboratório às 8h, ainda sem tomar café da manhã).

Depois, cada participante recebia 300 ml de uma bebi­da adocicada. A diferença é que, em metade dos casos, a bebida continha 75 gramas (ou 300 calorias) do açúcar glicose, enquanto nos outros casos o "adoçante" usado ti­nha sido a frutose, na mesma proporção. Já há várias pistas de que é a frutose atua de forma diferenciada sobre o organismo. Bem mais doce do que a glicose, a molécula estimula apenas ligeiramente a produção de insulina, hormônio que, além de coordenar o metabolismo de açúcar, também ajuda o organismo a enten­der quando já comeu o sufi­ciente. O mesmo parece valer para outros hormônios e mo­léculas sinalizadoras ligadas à sensação de saciedade.

Ao analisar o cérebro dos voluntários durante a nova pesquisa, os cientistas de Yale prestaram atenção especial ao hipotálamo, região cere­bral especialmente ligada ao controle do apetite. E o que eles viram parece dar peso ao suposto papel de vilão da fru­tose no aumento de peso.

• Diferenças

Cerca de 15 minutos após a ingestão das bebidas doces, por exemplo, quem bebeu gli­cose teve uma redução signi­ficativa da atividade do hipo­tálamo (medida pelo fluxo sanguíneo nessa região do cérebro) - era como se o sinal de "estou com fome" tivesse diminuído.

Já a ingestão de frutose nem fez cócegas no hipotála­mo, ao menos nesse primei­ro momento. Aliás, o que os pesquisadores observaram, foi um aumento pequeno e passageiro da atividade des­sa área cerebral. A reação das regiões do ór­gão que estão mais conecta­das ao hipotálamo em seu pa­pel de regulador do apetite também variou consideravel­mente na comparação entre bebedores de glicose e bebe­dores de frutose.

O resultado parece ser fa­vorável à ideia de que é pre­ciso reduzir o teor de frutose nos alimentos industrializados - esse açúcar é muito usado para melhorar o sabor da comida, em especial. em países como os EUA. Os pesquisadores alertam, no entanto, que mais estudos são necessários para determi­nar com precisão as implica­ções clínicas dos achados.

• Saco sem fundo

Cérebro não fica saciado com o açúcar frutose

O objetivo da pesquisa era comparar a ação de dois tipos de moléculas de açúcar, a glicose e a frutose.

Glicose: É o tipo mais "básico" de açúcar utilizado pelo organismo humano.
Frutose: Em grandes quantida­des (como no xarope de milho, usado pela indústria de alimen­tos), parece ter um forte elo com a obesidade, o diabetes e problemas cardio­vasculares.

O resultado

- A glicose levou à desativação mais intensa das áreas que indicam o desejo de comer, aparente­mente satisfazendo mais as pessoas.
- Já a frutose parece induzir menos saciedade, o que pode explicar seu papel na epidemia de obesidade: quanto mais as pessoas a consomem, mais querem consumi-la.

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