Corrida contra o colesterol


Indústria farmacêutica investe em novas drogas para baixar taxas de colesterol "ruim", testadas em pessoas com um problema genético que eleva esses níveis no sangue.

Jornal Folha de São Paulo - por Débora Mismetti

Ninguém acreditou: aos nove anos, a hoje secretária Daniele Clemente Martins, 27, descobriu que tinha níveis al­tíssimos de colesterol no san­gue. O colesterol "ruim", o LDL, que normalmente não deve passar de 100 mg/dl, ne­la era de 500. "Minha mãe e meu pai ficaram abismados." Daniele recebeu o diagnós­tico de hipercolesterolemia familiar, colesterol superele­vado por causas hereditárias. Manchas no corpo foram o primeiro sinal da doença, conta ela. "Usei vários tipos de remédio . Meu colesterol demorou muito para baixar."

Daniele participa de uma pesquisa no Incor (Instituto do Coração do HC de São Pau­lo) que testa um dos novos medicamentos para o contro­le do colesterol. O mipomersen interfere na produção de uma proteína es­sencial para a formação do LDL. O remédio pode ser aprovado ainda neste ano nos EUA para o tratamento das pessoas com a doença, diz o cardiologista Raul Santos, chefe da unidade de lípides do Incor e editor da primeira diretriz para o tratamento do colesterol elevado familiar, publicada pela Sociedade Brasileira de Cardiologia. No Brasil, calcula-se que 300 mil pessoas tenham a doença.

Novas opções

A droga mipomersen faz parte de uma nova leva de medicamentos que podem se tornar uma alternativa às es­tatinas (como Lipitor e Cres­tor) também para quem tem colesterol elevado sem ori­gem hereditária.

Cerca de 50% das pessoas que tomam estatinas têm do­res musculares, o que leva al­gumas a abandonar o trata­mento. Também há casos de resistência à terapia: os pa­cientes tomam o remédio, mas o colesterol não cede.

A nova injeção semanal, criada pela farmacêutica Isis, dos EUA, reduz em até 50% os níveis de LDL além do efei­to das drogas atuais, segun­do estudos de fase 3 (os últi­mos necessários antes da aprovação de um remédio).

Outros dois remédios, um da Roche e outro da Sanofi, são anticorpos contra uma proteína (PCSK9) presente no fígado e no intestino que des­trói receptores de LDL nas cé­lulas. Os receptores se encai­xam no colesterol ruim e o ti­ram de circulação. Aumen­tando o número dessas "fe­chaduras químicas", é possí­vel baixar o LDL no sangue.

Espera-se que o remédio, também injetável, entre no mercado em 2016.

Ainda há mais uma classe de remédios "na fila", que tenta aumentar o colesterol "bom" (HDL) e baixar o LDL. Em 2011, um estudo divul­gado no congresso da Ameri­can Heart Association apon­tou a eficácia de um deles, o evacetrapib (Eli Lilly). Mas, neste ano, a Roche interrom­peu os testes de uma droga similar, o dalcetrapib, depois de resultados ruins, o que pôs em dúvida o futuro da classe.

A corrida das farmacêuti­cas se justifica pelo tamanho do mercado dos remédios an­ticolesterol, que estão entre os mais vendidos do mundo. Além disso, as patentes das estatinas estão expiran­do. No Brasil, a atorvastatina (Lipitor) tem versão genérica, mais barata, desde 2010.

Se forem aprovados, o mi­pomersen e os anticorpos contra a proteína PCSK9 de­ vem ser indicados, primeiro, para quem tem hipercoleste­rolemia familiar. Segundo Raul Santos, me­tade dos homens que têm a doença e não a tratam tem in­farto ou morre até os 50 anos. Entre as mulheres, essa pro­porção é de 20%.

O programa Hipercol Bra­sil, do Incor, faz um rastrea­mento genético de pessoas com colesterol superelevado e da família delas. "Às vezes, a primeira ma­nifestação da doença é a mor­te súbita, de gente com 20, 30 anos. São mortes que a gen­te pode evitar."

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