Cresce o abismo tecnológico entre gerações


Jornal Folha de São Paulo - por Tom Brady.

Em algum momento de suas vidas, quase todos os pais ou mães já deram o controle remoto da TV, o controle do Wii ou o “smartphone” a seu filho e pediram: “Faça isto funcionar”. E, depois de a criança ter resolvido a dúvida, pegaram o aparelhinho de volta e resmungaram: “Eu também poderia ter feito, se tivesse tempo”. Mas a realidade é que o tempo, em termos de tecnologia, já os deixou para trás.

“No século 20, as pessoas se preocupavam com o abismo digital que separava ricos de pobres”, disse ao “New York Times” o professor de pediatria Dimitri Christakis, respeitado pesquisador sobre crianças e mídia. “Esse abismo se estreitou, e o abismo que está emergindo agora é o que divide os pais de seus filhos. Não sabemos quase nada sobre o mundo digital em que vivem nossas crianças.”

Os pais podem se consolar, contudo, com fato de que seus filhos tecnologicamente capacitados devem ser superados em breve por outro grupo, hoje ainda nas fraldas. Essas crianças pequenas vão vivenciar o mundo de maneira radicalmente distinta.

Entre as ferramentas que esses bebês vão enxergar como sendo objetos do cotidiano — como os televisores a cores e os telefones em que se digitam os números foram vistos por seus pais— estão tecnologias como o Kindle e aparelhos como o telefone Nexus One, do Google, e o iPad, da Apple. As crianças que têm dois anos em 2010 “não conhecem outra coisa senão um mundo povoado por livros digitais, video chats pelo Skype com parentes que estão distantes e videogames jogados com o iPhone”, escreveu Brad Stone no “Times”.

Acontece que essas são ferramentas com as quais crianças dez anos mais velhas não cresceram, ele observou, e os membros da geração de sua filha de dois anos “serão totalmente diferentes das crianças da geração anterior”.

Segundo Stone, pesquisadores teorizam que o ritmo cada vez mais acelerado das inovações pode estar produzindo “uma série de miniabismos geracionais, com cada grupo de crianças sendo influenciada de maneira singular pelas ferramentas técnicas disponíveis na fases formadoras de seu desenvolvimento". Nesse ponto, o abismo de gerações talvez não seja mais medido em décadas ou anos, mas em meses.

“Pessoas com dois, três ou quatro anos de diferença de idade estão tendo experiências completamente distintas com a tecnologia”, disse ao “Times” Lee Rainie, diretora do Projeto Internet e a Vida Americana, do Centro Pew de Pesquisas. “Universitários ficam perplexos com o que fazem seus irmãos em idade escolar. Isso acelera as diferenças entre gerações.”

Tudo isso suscita saudades da época em que os abismos generacionais, como aquele que separa os baby boomers —nascidos entre o pós-Segunda Guerra Mundial e 1964 — e os integrantes da Geração X — nascidos entre 1965 e 1979 —, eram medidos em décadas, e não em anos ou meses.

A.O. Scott escreveu recentemente no “Times” sobre o lamento da Geração X e do grupo muito maior dos baby boomers.

“Crescemos à sombra dos baby boomers, que, em sua velhice, ainda conseguem comandar atenção desproporcional”, reclamou Scott, que nasceu em 1966.

“Cada vez que eles atingem um marco em seu ciclo de vida, isso é tema de dez capas de revistas. Quando eles se aposentarem, a Previdência Social vai afundar!”

É claro que esses comentários traem o fato de Scott ter passado sua infância na era analógica. Talvez não seja possível contabilizar em quantas telas será exibido o abismo de gerações das pessoas nascidas desde a chegada do novo milênio.

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