Criatividade científica tem auge aos 40


Estudo com mais de 500 ganhadores do Nobel desmente mito de que cientistas ficam menos criativos com a idade. Pesquisadores usaram dados biográficos para rastrear com que idade os trabalhos vencedores foram realizados.

Jornal Folha de São Paulo - por Reinaldo José Lopes

Cientistas com mais de 30 anos podem respirar aliviados: ao contrário do que di­zia o mito, a carreira não aca­ba quando eles chegam a es­sa temida idade. Em essência, essa é a mensagem de uma análise de mais de um século de prêmios Nobel que acaba de ser publi­cada na revista científica americana "PNAS".

Liderado por Benjamin Jones, da Universidade Nor­thwestem, e Bruce Weinberg, do Escritório Nacional de Pes­quisa Econômica dos EUA, o estudo usou dados biográfi­cos dos nobelistas (como são chamados os ganhadores do prêmio máximo da ciência). O objetivo era datar quan­do fizeram a descoberta que, mais tarde, renderia a eles o Nobel. Essa descoberta mais impactante serviria, por sua vez, como indicador do perí­odo de máxima criatividade científica na vida deles.

• Quarentões

O resultado: os ganhado­res dos prêmios de física, me­dicina e química entre 1900 e 2008 tinham em torno de 40 anos quando realizaram seu trabalho seminal. Dos anos 1980 para cá, ali­ás, essa idade tem até aumen­tado. Na física, área na qual supostamente a juventude é tudo para quem está em bus­fa de ideias brilhantes, a idade média subiu para 50,3 anos, contra 45 em medicina. O mito de que física é coi­sa de moleques (no bom sen­tido) foi propagado por gê­nios do calibre de Albert Eins­tein (1879-1955).

"Uma pessoa que não fez sua grande contribuição à ci­ência antes dos 30 anos nun­ca o fará", disse ele. Não por acaso, os trabalhos que lhe renderam o Nobel saíram quando ele tinha 26, em 1905, o chamado "Annus Mirabi­lis" ("ano admirável") de sua produção científica. Na verdade, sugere o novo estudo, Einstein estava ven­do uma tendência localizada, típica de sua época, como al­go geral na ciência. E que, de 1900 a 1930, os cientistas estavam envolvidos no esforço de entender a me­cânica quântica, área da físi­ca que estuda o comporta­mento surpreendente e nada intuitivo dos átomos e das partículas que os compõem.  Para essa missão, pouco adiantava ter grande conhe­cimento sobre a física clássi­ca. Era necessário começar quase do zero -daí a capaci­dade de moleques fazerem a diferença, principalmente graças a brilhantes "insights" teóricos, afirmam Jones e Weinberg na "PNAS".

Por outro lado, quando a área estudada depende do co­nhecimento de um grande ar­cabouço de dados e da reali­zação de muitos experimen­tos, a tendência é de "enve­lhecer" os cientistas. Isso provavelmente acon­tece, sugere o estudo, porque o sujeito precisa dominar muito bem sua especialidade para, mais tarde, elaborar contribuições que façam a di­ferença para aquela área.

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