Dormir muito Não É Desperdício


Jornal Folha de São Paulo - por Suzana Herculano-Houzel

Alguns se sentem bem dormindo menos, outros precisam de quase duas horaas a mais. Em média, são umas oito horas diárias de sono - e todo mundo sabe, por experiência própria, que elas são imprescindíveis.

Dá para não dormir uma noite ou outra, ou dormir menos a cada noite, mas as consequências são imediatas: os olhos doem, junto vem o cansaço, fica difícil encontrar as palavras e fazer contas de cabeça e ainda é preciso lidar com a sonolência, o jeito que o cérebro tem de não deixar ninguém ficar sem dormir tempo demais.

Afinal, se a insônia for total e permanente, ela leva à morte em algumas semanas (não, perder uma ou duas noites de sono não mata ninguém).

Dormir é muito mais do que repousar. Uma vez por dia, os vertebrados e até as moscas passam por um período de várias horas com o cérebro funcionando diferente, e não apenas em "repouso": é sono mesmo.

Em todas essas espécies, o sono é autorregualdo: quanto menos se dorme, mais é preciso dormir. Isso ocorre porque o sono é consequência direta do funcionamento do cérebro: a sonolência vem do acúmulo de adenosina, substância produzida pelo próprio trabalho dos neurônios. Quanto mais trabalham, mais adenosina é liberada e vai se acumulando no cérebro até...chegar o sono.

A adenosina impõem limites ao funcionamento dos neu­rônios e está relacionada à fadiga após o esforço mental sustentado. Além disso, a partir de um certo ponto, a adenosina começa a desligar os sistemas que promovem a vigília e a motivação e a acio­nar aqueles que promovem o adormecimento. E inevitá­vel, portanto: quanto mais a pessoa fica acordada, mais sono sente.

E aqui entra o papel repa­rador do sono: é durante esse modo particular de funcio­namento do cérebro que a adenosina acumulada ao re­dor dos neurônios é removi­da. Por isso, acordamos fresquinhos, com os neurônios prontos para mais um dia. É também durante o sono que as sinapses, as conexões en­tre os neurônios, são recalibradas, o que é fundamental para o aprendizado. Apren­der, e lembrar do que se aprendeu, é um processo que não termina ao fim da aula, mas continua até enquanto dormimos.

Além disso, também é du­rante o sono que se recupera a habilidade de lidar com o estresse, Sem dormir o sufi­ciente, o cérebro sucumbe rapidamente ao estresse, com ansiedade, agressividade e doenças. Sem falar que a própria falta de sono já é um estresse. Mas dessa parte vo­cê já sabia...

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