Drogas e o Deficit de atenção


Droga para deficit de atenção tem uso excessivo, diz estudo. Pesquisa com 6.000 jovens no Brasil aponta que a maioria dos usuários desse medicamento teve diagnóstico errado Venda do remédio no país subiu 1.500% em 8 anos; efeitos colaterais incluem taquicardia e perda do apetite.

Jornal Folha de São Paulo - por Patrícia Britto

Quase 75% das crianças e dos adolescentes brasileiros que tomam remédios para de­ficit de atenção não tiveram diagnóstico correto. O dado é de um estudo de psiquiatras e neurologistas da USP, Unicamp, do Instítu­to Glia de pesquisa em neu­rociência e do Albert Einstein College of Medicine (EUA), que será apresentado no 3° Congresso Mundial de TDAH (transtorno de deficit de aten­ção e hiperatividade), no fim do mês, na Alemanha.

A pesquisa colheu dados de 5.961 jovens, de 4 a 18 anos, em 16 Estados do Bra­sil e no Distrito Federal. Os autores aplicaram ques­tionários em pais e professo­res para identificar a ocorrên­cia do transtorno, tendo co­mo base os critérios do DSM-4 (manual americano de diag­nóstico em psiquiatria). As informações foram comparadas aos relatos dos pais sobre o diagnóstico que seus filhos receberam de outros profissionais, antes do período das entrevistas. Só 23,7% das 459 crianças que haviam sido diagnostica­das com deficit de atenção re­almente tinham o transtorno, segundo os critérios do ma­nual. Das 128 que tomavam remédios para tratâ-lo, só 27,3% tinham o problema, segundo os pesquisadores.

"Isso mostra que há mui­tos médicos prescrevendo o remédio, mas que não conhe­cem bem o problema", diz o neurologista Marco Antônio Arruda, coautor do estudo e diretor do Instituto Glia. O remédio usado para tra­tar o transtorno é o metilfeni­dato, princípio ativo da Rita­lina e do Concerta. A substân­cia é da família das anfetami­nas e age sobre o sistema ner­voso central, aumentando a capacidade de concentração. Entre os efeitos colaterais causados pela droga estão ta­quicardia, perda do apetite e o desenvolvimento de quadro bipolar ou psicótico em pes­soas com predisposição. Guilherme Polanczyk, psi­quiatra da USP, relativiza a conclusão do estudo. "Mui­tas das crianças avaliadas po­dem estar sem sintomas por conta do uso dos remédios."

• País terá mais um remédio contra o transtorno

Um novo remédio para o tratamento de deficit de aten­ção começará a ser vendido no Brasil até o fim do mês. Trata-se do Venvanse, do laboratório anglo-americano Shire. A droga é vendida nos Estados Unidos desde 2007. O princípio ativo do medi­camento é da família das anfetaminas, assim como o me­tilfenidato (Ritalina). A diferença é que a nova droga é absorvida aos poucos na corrente sanguínea, o que aumenta a duração dos efei­to, segundo, a fabricante.

De acordo com o neurolo­gista Frank Lopez, especialis­ta americano no tema que veio ao Brasil a convite da far­macêutica Shire, o efeito estável, sem "picos" e por 13 horas, desestimula o uso recre­ativo do medicamento. "O metilfenidato tem ação imediata, o efeito começa e acaba rápido. É o que faz as pessoas quererem mais e abusarem", diz Lopez.

O Venvanse tem como efei­tos colaterais dor de cabeça, insônia e perda de apetite.

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