Durmo, mas não sei


Distúrbio cognitivo faz com que pessoas tenham horas normais de sono, mas não percebam isso.

Jornal Folha de São Paulo - por Giuliana Miranda

Ninguém consegue passar meses absolutamente sem dormir. Ainda assim, muita gente jura que está há vários anos sem pregar os olhos. Es­sas pessoas não estão men­tindo. Elas simplesmente não percebem que dormiram. "Alguns pacientes têm uma quantidade normal de horas dormidas, mas, por uma alteração cognitiva, não se dão conta disso", explica o neurologista Luciano Ribei­ro" da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

Embora pouco conhecido, o distúrbio, chamado de in­sônia paradoxal, não é um subtipo especial de insônia ­ problema que afeta de algum modo cerca de 30% dos mo­radores da capital paulista. "Estudos já mostraram que pessoas com insônia têm a tendência de subestimar su­as horas dormidas. Nesses casos, então, isso vai ao extre­mo", explica Ribeiro.

"Há pacientes que chegam ao consultório e dizem que não dormem há dois, três anos. Isso, claro, é biologica­mente impossível, mas eles não se dão conta desse fato."

• Lembranças

A maioria das pessoas que sofre com esse distúrbio con­segue se lembrar de boa par­te do que aconteceu durante a noite, o que reforça a ideia de que passaram praticamen­te a noite toda acordadas. Isso acontece porque qua­se 50% do tempo de sono é do chamado sono leve, quan­do se pode registrar estímulos visuais e auditivos. "Grosso modo, é como acontece quando alguém co­chila rapidamente vendo te­levisão. Muitas vezes a pes­soa sequer percebe que dor­miu, porque consegue lem­brar das imagens e das falas", afirma o neurologista.

Normalmente existe uma espécie de bloqueio do orga­nismo que nos "desliga" des­ses estímulos. Em quem so­fre com a insônia paradoxal, por alguma razão, isso não costuma acontecer.

• Sintomas

Para o bom funcionamen­to do organismo, não basta dormir. E preciso ter consci­ência do sono. Por isso, mui­tos dos afetados apresentam sintomas típicos da verdadei­ra privação de sono, como cansaço e irritabilidade. Assim como na insônia "convencional", os principais afetados são aqueles subme­tidos a situações de stress ou desgaste emocional. Esses sintomas típicos da privação de sono, aliados ao desconhecimento do distúr­bio, costumam mascará-lo. 

• Sono imperceptível

Distúrbio faz afetados acharem que não dormem.

- Percepção

Pessoas com insônia tendem a subestimar suas horas de sono. Em casos extremos, acham que não dormem nada

- Explicação

Existe uma alteração no sistema de cognição. Normalmente.as pessoas conseguem ativar um mecanismo que as "desliga" dos estímulos. O insone, não.

- Lembranças

Os insones conseguem . se lembrar de muitas coisas que viram e ouviram no sono leve, reforçando a ideia de que não dormiram.

- Consequências

Mesmo dormindo uma quantidade normal de horas, muitos pacientes têm sintomas típicos da privação de sono, como cansaço e irritabilidade.

- Diagnóstico

É preciso fazer um exame de polissonografia, que mede a quantidade de sono, entre outras coisas. A maioria dos médicos não costuma pedi-lo.

- Tratamento

Embora possam ser usados remédios em certos casos, é preciso um grande trabalho psicológico e comportamen­tal para convencer o paciente de que ele, de fato, dorme.

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