E-mail e celular estendem jornada de trabalho para casa e até férias


Tecnologia eleva número de horas trabalhadas; brasileiro também passa mais tempo no escritório. Expansão da economia e promoções ajudam a explicar aumento da carga horária, aponta pesquisa.

Jornal Folha de São Paulo - por Érica Fraga

"Eu olho e-mail em casa, andando na rua, no restau­rante. Parece que o trabalho não me deixa." A declaração da publicitária Júlia Eboli, co­ordenadora de marketing da Tecla Internet, mostra a rea­lidade de um contingente ca­da vez maior de profissionais. A combinação entre cres­cimento mais intenso da eco­nomia e avanço nas tecnologias de comunicação tem re­sultado em aumento das ho­ras trabalhadas no Brasil.

Sete em cada dez profissio­nais - que ocupam cargos co­mo analista, gerente e super­visor- afirmam que passam mais tempo no escritório ho­je do que há cinco anos. Mais da metade diz que o teto da carga horária no es­critório saltou de oito para dez horas diárias, e quase 80% são acionados nos mo­mentos de lazer e descanso via mensagens no celular. Nem as férias escapam: mais de 50% dos funcioná­rios de empresas que atuam no país respondem a e-mails de trabalho nesse período.

Esses são resultados de pesquisa feita pela Asap, con­sultoria de recrutamento de executivos, a pedido da Fo­lha. Foram ouvidas 1.090 pessoas com renda mensal entre R$ 5.000 e R$ 15 mil. A expansão da economia e as promoções no trabalho são as razões para o aumento da carga horária de trabalho, in­dica a maior parte dos entrevistados.

"Nossa empresa é vítima positiva da expansão do cré­dito. Estamos trabalhando mais", diz Daniel Polistchu­ck, diretor de tecnologia da Crivo, que desenvolve progra­mas para análise de crédito. Para Carlos Eduardo Ribei­ro Dias, sócio e presidente executivo da Asap, há um descompasso entre o ritmo do mercado de trabalho e o de formação acadêmica e pro­fissional. "As pessoas estão sendo promovidas mais ce­do, mas nem sempre estão preparadas. O resultado: tra­balham mais."

• Tecnologia 

O avanço da tecnologia tem aproximado mais o pro­fissional do trabalho. "Hoje, há aplicativos de comunica­ção instantânea que te acom­panham o dia todo no celu­lar. Tento me policiar, mas passei a trabalhar mais", diz o espanhol Jose Luis Gallar­do, gerente de canais da Kin­gston no Brasil. Rodrigo Víanna, diretor da HAYS, empresa de recruta­mento de executivos, diz que, sem as novas tecnologias, "as pessoas viveriam pratica­mente dentro das empresas". "Com a globalização, não há mais fuso horário. É pre­ciso ficar ligado o tempo to­do. A tecnologia, nesse sen­tido, veio para ajudar."

Mas o excesso de trabalho tem consequências. Para Elaine Saad, gerente-geral da Right Management, o brasi­leiro tem forte apego à tecno­logia e exacerba o uso de mensagens pelo celular. "Isso faz que as pessoas trabalhem no horário do des­canso. E, se você não respon­de a um e-mail e seu colega responde, você fica com me­do de perder o emprego."

Cansaço e estresse são consequências

Mais cansaço e estresse. Sete em cada dez profissio­nais ouvidos pela consulto­ria Asap dizem que esses são os efeitos colaterais do ex­cesso de trabalho. "Temos hoje uma geração de cansa­dos", diz Nelson Carvalha­es Neto, médico do Fleury Medicina e Saúde.

Segundo ele, a jornada estendida por meio de tec­nologias mais avançadas de comunicação é uma das re­clamações dos executivos que atende: "Os facilitado­res de comunicação foram uma cilada. Hoje, ninguém consegue ficar off-line".

Reportagem nesta Folha revelou que o número de pessoas afastadas pelo INSS com depressão e estresse disparou no primeiro se­mestre deste ano. "O aumento nos casos de transtornos mentais e com­portamentais tem relação direta com o aumento das horas trabalhadas" , diz Re­mígio Todeschini, diretor de saúde e segurança ocupacional do Ministério da Pre­vidência. (EF)

• Ficou mais difícil determinar a hora do lazer e a hora do trabalho

No livro "Alice Através do Espelho", de Lewis Carroll, a personagem Alice é confron­tada pela Rainha de Copas: "É preciso correr o máximo possível para ficar parado no mesmo lugar". O que parece impossível é realidade: no trabalho com­petitivo, cada pessoa precisa se dedicar ao máximo para manter seu emprego e sua empregabílidade.

Foi por meio de computa­dores portáteis e de telefones com aplicativos que passa­mos a trabalhar mesmo em horário de folga. Num passa­do remoto, era plenamente possível separar o tempo gas­to no trabalho e o tempo de­dicado à vida pessoal. Hoje, em segundos, é pos­sível enviar e atender deman­das. Fica bem mais complica­do determinar a hora do tra­balho e a hora do lazer.

Mas a tecnologia, com im­plicações terríveis para nos­so bem-estar - como doenças relacionadas ao estresse, per­da da felicidade, decepção com o trabalho, permitiu a jornada flexível e o trabalho à distância. De fato, uma conquista, em algumas empresas, foi permi­tir que o próprio funcionário escolha quando e de onde tra­balhar. O que importa não é o tempo dentro da empresa, mas o que é entregue a ela.

Como a biologia, que estu­da a seleção natural das es­pécies, o mercado de traba­l lho encontra formas de sele­cionar os melhores indivídu­os. Cabe a cada um estabele­cer os limites que julgar ne­cessários, ciente das conse­quências -seja para a saúde ou para a carreira.

Algumas empresas cele­bram a corrida da seleção na­tural, outras buscam coorde­nar os objetivos de eficiência e lucratividade com indivídu­os satisfeitos com o trabalho e a vida pessoal. O que você escolhe?

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