É para comer até a embalagem


Como plásticos comestíveis e coberturas nutritivas podem conservar os alimentos e torná-Ias mais saudáveis.

Revista Época - por Francine Lima

Alimentos pré-lavados, fatiados e embalados são práticos, mas costumam trazer dois inconve­nientes no pacote: mais plástico no lixo e um prazo de validade menor. Logo, geram desperdício. E se fosse possível encontrar frutas e hortaliças atraentes para o con­sumo por mais tempo, sem alteração em suas qualidades nutricionais e sem emba­lagens poluentes? É o que algumas empre­sas estrangeiras e vários laboratórios de pesquisa no Brasil estão providenciando.

Nos Estados Unidos, já é possível comprar maçãs em pedaços que não ficam marrons por 20 dias. O segredo é uma cobertura in­visível, sem gosto e sem cheiro, que retarda o processo de maturação e mantém as carac­terísticas da fruta, inclusive o sabor e o teor de vitaminas. Trata-se, segundo a fabricante Nature Seal, de uma mistura de vitaminas e sais minerais que, aplicada à superfície das frutas e hortaliças, inibe a oxidação das enzimas e mantém intacta a estrutura das células - sem fazer mal à saúde.

No Brasil, há pesquisas com coberturas comestíveis para frutas dentro da Embra­pa. O pesquisador Odílio Assis, da Embra­pa de São Carlos, São Paulo, conseguiu que
peras com casca mergulhadas num líquido à base de zeína, uma proteína do milho, parecessem recém-colhidas por mais de dez dias, sem refrigeração. Goiabas também duraram mais quando cobertas com uma solução feita com a goma do cajueiro. Segundo Assis, nenhuma cobertura desenvolvida até agora funciona para qualquer alimento.

Gomas, amidos e polpas de frutas tam­bém têm sido usados para produzir plás­ticos comestíveis em laboratório. Numa pesquisa ainda inicial na Embrapa, con­duzida pela pós-doutoranda Marcia Regi­na Aouada, obteve-se um filme resistente e nutritivo misturando-se polpa de goiaba vermelha com nanopartículas de quitosa­na, uma substância extraída da casca de crustáceos. O filme preserva a vitamina C da goiaba.

Nos Estados Unidos, esse tipo de fil­me já é usado no lugar da folha de alga para enrolar sushis e adornar alimentos. Especula-se que daqui a alguns anos será possível produzir embalagens primárias com aromas e sabores e aproveitá-Ias na preparação de alimentos. Mas, por en­quanto, não há perspectivas de que essa tecnologia chegue ao mercado devido ao alto custo de produção das coberturas em larga escala. O desperdício de alimentos, que no Brasil gira em torno de 30% a 40%,
ainda é economicamente mais vantajoso que o investimento em durabilidade. 

• Comida que conserva comida

Pesquisas com frutas, raízes e cereais prometem reduzir as embalagens poluentes.

Cobertura invisível

O que é: líquido à base de proteínas, açúcares ou vitaminas e sais minerais.

Como funciona: ao secar e aderir à superfície da fruta, reduz a troca de gases e umidade e retarda o amadurecimento.

Vantagens: aumenta o tempo de vida útil do produto, sem conservantes e sem alterar o sabor.

Onde é usada: a empresa americana Nature Seal já vende sua versão do produto nos Estados Unidos. Ainda não entrou no mercado brasileiro devido ao custo.

Plástico comestível 

O que é: filme à base de polpa de fruta, amído ou outras matérias-primas naturais.

Como funciona: dá origem a invólucros para fracionar ingredientes e produtos embalados. Pode ser consumido como parte do alimento.

Vantagens: substitui plásticos e é mais biodegradável. Mantém as qualidades nutricionais e pode receber aditivos, como aromas e sabores. Aumenta a conservação fora da geladeira.

Onde pode ser usado: na indústria de alimentos, como a panificação.

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