Educação: escolinha de cientistas


Editoras científicas e empresas especializadas dão cursos de escrita de artigos científicos para pesquisadores que alegam que não aprenderam a escrever artigos na universidade mas são cobrados para publicar.

Jornal Folha de São Paulo - por Sabine Righetti

Universidades brasileiras estão empenhadas em capacitar seus cientistas para es­ creverem artigos científicos para revistas renomadas. Os cursos, na maioria das vezes, partem das próprias editoras de revistas científi­cas, interessadas em receber textos de melhor qualidade. Isso diminuiria o trabalho e o tempo entre o artigo recebido e o publicado (o que po­de levar de meses a anos). Já as universidades têm in­teresse nos cursos para me­lhorar seus indicadores. Quanto mais artigos em­placados em revistas de alto impacto (amplamente cita­das por outros pesquisado­res), melhor a instituição apa­rece nos rankings universitá­rios internacionais.

A Folha acompanhou um dos cursos, ministrados recenttemente pela editora científica Springer; na Unesp ( Universidade EstaduaI Paulista), para 80 membros de comissões de pesquisa e de programas de pós-graduação.

• Em tópicos 

Entre os temas ensinados, há desde "faça títulos curtos" a "escreva seu artigo científi­co como se estivesse contan­do uma história a alguém". "Mesmo quando você es­creve sobre algo complicado, deve torná-lo o mais simples possível para que o maior nú­mero de pessoas entenda", ensina Warren Raye, da Springer, no curso na Unesp.

Raye também discorreu so­bre como escolher um perió­dico para publicar um artigo, sugeriu maneiras de respon­der um parecer (quando o ar­tigo é devolvido pela revista científica) e passou um bloco inteiro falando sobre ética nas publicações científicas.

"Não faça múltiplas submissões de artigos nem plágios e não falsifique ou fabrique dados", ensinou Raye.

O curso da Springer foi mi­nistrado para plateias lota­das também em instituições como USP, Unicamp (Univer­sidade Estadual de Campi­nas) e UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). O interesse dos cientistas por esse tipo de oficina é com­preensível. "Os pesquisado­res nunca foram ensinados a escrever de maneira técnica, muito menos em inglês", ex­plica a bióloga e ex-editora da "Science" Márcia Elblink. Ela é uma das fundadoras da empresa Publicase, que, segundo ela, é a primeira es­pecialista em treinar cientis­tas para escreverem disserta­ções, teses e artigos no país. A empresa surgiu em 2007, época em que o país "acor­dou" para a necessidade de aumentar a publicação de ar­tigos na academia.

• Cobrança

"Realmente não temos um treinamento específico na universidade e somos cobrados para publicar", analisa a veterinária Flávia Verechia Pereira, da Unesp. Ela participou do curso da Springer e disse que "gostou muito".

Para Elblink, da Publicase, a falta de capacitação na re­dação científica não é um problema apenas do Brasil. "Mas as universidades de ponta do mundo têm centros para ajudar os autores e tirar dúvidas", diz a especialista. Hoje, a demanda de uni­versidades, de hospitais pri­vados e de empresas pelos cursos de redação científica é tanta que a agenda de 2011 da Publicase fechou em maio.

Uma semana de treina­mento intensivo (40 horas) sobre "como escrever um ar­tigo para uma revista de alto impacto", por exemplo, sai por R$ 12 mil por pessoa. Mas há cursos mais curtos. "Escrever um artigo é uma questão de treino. Como cor­rer uma maratona", comple­ta Andrea Kaufmann-Zeh, que também é da empresa.

• Ensina-me a escrever...

... e eu te entrego um artigo científico

Cursos - Universidades brasileiras estão promovendo cursos para ensinar os cientistas a escrever artigos científicos em inglês, com dicas para aumentar a possibilidade de os textos serem aceitos pelas revistas científicas.

Ranking - O Brasil é o 13º país na lista dos que mais publicam artigos científicos. As publicações e seus respectivos impactos são indicadores importantes em rankings internacionais que, por exemplo, classificam as melhores universidades do mundo.

ALGUMAS DICAS ENSINADAS:

- 1 Escreva a introdução e a conclusão do artigo científico no final da pesquisa.
- 2 Use títulos curtos e diretos.
- 3 Não faça uma ampla e cansativa revisão da literatura que existe sobre o tema do seu artigo.
- 4 Seja modesto nas conclusões e não superestime seu trabalho.
- 5 Lembre-se de que escrever um artigo científico é contar uma história que deve seguir uma ordem lógica.
- 6 Não tire conclusões estatísticas sem consultar um especialista na área.

33% dos trabalhos são publicados em revistas científicas nacionais que, em sua maioria, estão em português. Isso diminui o impacto dos artigos.

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