Educação: Finlândia na favela


Escola municipal localizada entre duas favelas no Rio de Janeiro consegue resultados similares aos verificados na média dos países ricos em avaliações de desempenho dos estudantes.

Jornal Folha de São Paulo - por Antônio Gois

O entorno do Ciep 1° de Maio, escola municipal na zona oeste do Rio, em nada lembra paisagens europeias. No entanto, mesmo no meio de duas violentas fave­las no distante bairro de San­ta Cruz, seus alunos vêm ob­tendo em avaliações exter­nas resultados similares à média de nações ricas. Pode ser difícil crer que uma escola pública no Brasil tenha indicadores assim com alunos de favelas. Mas faz sentido visitar o local.

"Tudo aqui tem uma má intenção: ensinar", brinca a diretora Sueli Gaspar. Em to­das as salas de aula, as pare­des estão repletas de cartazes com lições, regras e textos de motivação. Nas turmas de alfabetiza­ção, cada aluno tem na mesa um adesivo com seu nome em letra de forma e cursiva. Livros ficam soltos pelas salas e mesas nos corredores. "Não nos importamos que o aluno leve pra casa, amasse e rabisque. A gente quer é que ele leia. Se perder, compra­mos outro." Nas salas, a cena mais co­mum é a maioria dos alunos levantarem os dedos para responder às perguntas.

Com exceção de goteiras no último andar - pragas em Cieps-, a escola é impeca­velmente limpa. Há jardins com girassóis de plástico - originais foram vetados por causa de infiltração. ""As crianças têm que sen­tir que estão num ambiente bonito e alegre. A escola pre­cisa ser diferente para com­pensar o que eles vivenciam nas comunidades", diz a diretora, se referindo às favelas do Rola e de Antares.

O trabalho de autoestima é claro. "O que vocês são?", pergunta uma professora. "Bonitos, educados e inteli­gentes", respondem. "Por que são felizes?", retruca. "Porque aqui aprendemos." A resposta mais" comum dos professores sobre o dife­rencial ali é que todos traba­lham com paixão. Mas moti­vação não explica tudo. O projeto pedagógico no Ciep 1º de Maio é cumprido à risca. Uma cópia fica acessí­vel a todos na biblioteca, com registro de tudo o que já foi feito no ano. Professores re­gistram toda semana cada atividade realizada em sala.

Rafaela Viana, 28, profes­sora que veio de uma escola particular, afirma que se sur­preendeu com a disciplina: "Dizemos que tem que mora­lizar antes de intelectualizar. Os dois primeiros meses são os mais importantes. Mas funciona. É escola pública, mas não é bagunça." ""Aqui é igual à Beija-Flor", diz a diretora, em referência à escola de samba conhecida por desfiles técnicos, conse­guidos com rigor e seriedade.

Na semana passada, a pre­feitura divulgou que o Ciep 1º de Maio é a melhor escola municipal do Rio, com nota 8,1. No Ideb, avaliação fede­ral, a nota em 2009 foi 5,9. O MEC estipulou a nota 6 como meta nacional para 2022, média considerada de país desenvolvido. A escola está, portanto, a 0,1 ponto deste objetivo. Na avaliação municipal, superou o pata­mar da Finlândia (7,5).

Sueli acha que pode me­ lhorar. Convém não duvidar.

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