Educação: sucesso em um passe de mágica


Estamos passando para os jovens a mensagem errada de que o esforço é desnecessário.

Jornal Folha de São Paulo - por Rosely Sayão*

Uma conhecida tem um filho de 16 anos que não quer saber de estudar e está indo muito mal na escola. Ela me pediu que falasse com ele pa­ra tentar entender a situação. Segundo a mãe, ele é inte­ligente e sempre conseguiu dar conta dos estudos, mas, de repente, passou a implicar com a escola e com os traba­lhos que lá ele precisa reali­zar. E, como ele não trabalha e "nem faz mais nada na vi­da a não ser ir para a escola", ela não consegue compreen­der o que se passa.

Logo de início ela preocu­pou-se, é claro. Já havia lido­ várias reportagens informan­do que mudança de compor­tamento e queda no rendi­mento escolar podem ser indicativos de uso de drogas por parte do adolescente. Por causa disso, chegou a levan­tar essa hipótese. Acompanhou de perto a vi­da social do garoto, conver­. sou com ele. Juntos, assisti­ram a filmes sobre o assunto. Com tudo isso, a mãe não con­seguiu qualquer pista para considerar que o jovem esti­vesse usando algum tipo de droga, lícita ou ilícita. Então, ela chegou a uma conclusão simples: a de que o filho estava na "vagabun­dagem" mesmo.

Foi por isso que ela me fez o pedido, com um detalhe: não queria que o filho soubes­se que eu iria procurâ-lo por solicitação dela. Avisei a ela que ele saberia isso de pron­to, mas ela insistiu para que, pelo menos, eu não fosse a primeira a tocar no assunto. Em nosso encontro, a pri­meira coisa que o jovem me perguntou foi exatamente se a mãe havia pedido para que eu conversasse com ele. Depois, falou longamente a respeito da sua falta de von­tade para se dedicar aos estudos e da sua dificuldade em prestar atenção nas aulas.

Aproveito essa breve histó­ria para comentar dois pon­tos: um diz respeito aos pais, outro se refere aos jovens. Primeiramente, eu quero lembrar a quem tem filhos ­ tenham eles a idade que for­ que os mais novos não são bo­bos. Essa mãe, por exemplo, considerou a possibilidade de o filho nem sequer desconfiar do pedido que ela havia me feito. Ora, claro que ele sabe­ria: crianças e jovens conhe­cem muito bem seus pais. Ar­risco até dizer que eles os co­nhecem "melhor do que os pais os conhecem. Por isso, a melhor atitude a se ter com os filhos é a da transparência para, desse modo, manter a relação de confiança com eles. Não dá para enganá-los, certo? O mais provável, aliás, é que eles consigam enganar os pais em algumas situações.

Quanto" aos jovens, é es­pantoso como eles se veem escravos de seus impulsos, impotentes para mudar de atitude. O jovem com quem eu conversei, por exemplo, es­era ter vontade de estudar a qualquer momento. Acredita que algo externo a ele pode­rá interferir no estado de le­targia em que se encontra em relação aos estudos. Ele, como muitos de seus pares, não consegue perceber que é ele mesmo quem precisa tomar uma atitude e que; para tanto, vai precisar se es­forçar. E muito. Quando eu disse isso a ele, a reação que demonstrou foi de espanto. Tive a impressão de que esse menino nunca considerou essa possibilida­de. Foi dificil fazer ele perceber que só dependia dele a mudança, porque ele insistia em repetir que os professores e a escola é que tinham a obri­gação de motivá-lo.

É bem possível que seja es­sa a mensagem que esteja mos passando a jovens de uma geração que alcança quase tudo com um simples toque de dedos: a de que o es­forço é desnecessário. Pois cada vez é preciso mais esforço para resistir a tantas tentações, facilidades e distrações, para tentar rea­lizar um projeto de vida, dar conta das responsabilidades e não desistir de construir uma utopia, não é verdade?

*É psicóloga e autora do livro "Como Educar Meu Filho?" (Publifolha)

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