Elo entre sal e doenças do coração não é automático


Especialistas admitem que vários fatores podem influir no risco cardíaco, mas ainda assim pedem cautela.

Jornal Folha de São Paulo - por Ricardo Bonalume Neto

Ninguém discute mais que o consumo excessivo de sal faz subir a pressão sanguínea. Mas um estudo em grande escala dos efeitos da redu­ção do sal na dieta teve resultados inconclusivos. A análise de sete pesquisas internacionais, envolvendo 6.257 pessoas, das quais 665 morreram (293 por doenças cardiovasculares) não apon­tou um elo claro entre a dimi­nuição da pressão resultante do menor consumo de sal e a prevalência dessas doenças, ou a morte causada por elas.

O trabalho foi feito pela Co­chrane Collaboration, uma rede internacional de pesquisadores, e publicado na revis­ta médica "American Journal of Hypertension". A equipe, liderada por Rod Taylor, da Universidade de Exeter, Rei­no Unido, garimpou 3.035 ar­tigos e, terminou com apenas sete estudos relevantes. "A crença de que a redução da ingestão de sódio teria be­nefício cardiovascular se ba­seia no fato de que poderia reduzir a pressão arterial. Es­sa hipótese ignorou a possi­bilidade de que tal mudança poderia ter outros efeitos", disse à Folha o editor do "American Joumal of Hyper­tension" , Michael Alderman. "Reduzir o sódio na quan­tidade necessária para afetar a pressão do sangue também aumentou a resistência à in­sulina, a atividade do siste­ma nervoso simpático e a se­creção de aldosterona. Tudo isso aumenta os eventos de doença cardiovascular" , con­tinua Alderman.

• Licença para comer?

O estudo não é uma "licen­ça para comer salgadinhos", contudo; ele simplesmente mostrou que a redução do consumo de sódio não é ne­cessariamente boa para to­dos. Houve até casos em que a redução do consumo foi no­civa em pacientes com insu­ficiência cardíaca. Um dos sete estudos, feito na Itália com pacientes com insuficiência cardíaca, testou qual grau de ingestão de sal teria melhores efeitos de proteção cardiovascular. Tanto as mortes como a hospitalização diminuíram 25% nos pacientes que consumiam 2,7 gramas de sódio por dia, con­tra os que só ingeriam 1,8 g.

"Não é surpresa que o es­tudo não tenha encontrado a determinação conclusiva de , causa e efeito. Ele se baseou em um número muito pequeno de ensaios clínicos e asso­ciou uma causa a um grupo de efeitos com muitas variá­veis complexas", diz o médico Rubens Baptista Iunior, es­pecialista em medicina pre­ventivae social do Hospital das Clínicas da USP. "Devemos aguardar os resultados de novos estudos", afirma Baptista. "Isso não desaconselha, contudo, ações para reduzir a quantidade de sal em deter­minados alimentos industria­lizados e nos hábitos alimen­tares da população. No que se refere aos níveis de pres­são arterial e a outros tipos de doenças, as vantagens são conhecidas e comprovadas."

• O dobro

O brasileiro consome em média 8,2 gramas de sal por dia (3,3 gramas de sôdío), mais que as recomendações internacionais de ingestão de um máximo de 6 gramas (2,4 gramas de sôdio), o equiva­lente a uma colher de chá. "Isso é duas vezes o que consome um europeu ou americano. É um problema de hábito", afirma o médico Ricardo Pavanello, supervi­sor de cardiologia clínica do Hospital do Coração (SP). Enquanto se estima que o americano consuma 75% do seu sódio via alimentos processados, o brasileiro tem o hábito de colocar sal na co­mida. "Mesmo antes de pro­var o gosto" , diz Pavanello. Justamente por isso, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e o Minis­tério da Saúde lançaram na quinta a Campanha de Redu­ção do Consumo de Sal em supermercados em Brasília. O objetivo, diz a Anvisa, é "conscientízar os consumi­dores sobre a redução do uso do sal e orientá-los a fazer es­colhas mais saudâveís", como os alimentos cujos rótu­los indicam um teor menor de sôdio na sua composição.

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