Empregador previne doenças da equipe


Com aumento de custos de 155% em dez anos, companhias criam programas internos para diminuir internações. Segundo estudo, 62% das empresas possuem programas de prevenção e gestão de saúde de funcionários.

Jornal Folha de São Paulo - por Mariana Aragão

O envelhecimento da po­pulação e o reajuste acima da inflação nos preços dos pro­cedimentos médicos estão co­locando os custos com saúde de funcionários no topo das preocupações das grandes empresas no Brasil. De 2003 a 2011, os gastos com saúde de empregados aumentaram 155%, segundo estudo da consultoria de re­cursos humanos Mercer Mar­sh, feito com 342 companhias em operação no país. A infla­ção no período foi de 87%.

Os números refletem o ce­nário de aumento da idade média da população brasilei­ra que implica um número maior de vítimas de doenças crônicas, cujos tratamentos são mais caros e longos. Além disso, a necessidade crescente de incorporação de novas tecnologias na área médica tem elevado os cus­tos dos procedimentos -o que é repassado aos planos de saúde e às empresas.

"O cenário para os próxi­mos anos é catastrófico. Se nada for feito, as empresas em algum momento não vão ter condições de pagar os pla­nos de saúde da forma que fa­zem hoje", diz Juliano Toma­zela, gerente de gestão de saúde da Mercer Marsh. A fatia dos benefícios de assistência médica na folha de pagamentos também tem subido: passou de 9,5% entre 2009 e 2010 para 10,4% nos últimos dez anos. Segundo projeção da Mer­cer Marsh, esse percentual deve chegar a 13% em 2022 e a 16,4% em 2032.

• Programas

Sem poder combater as duas grandes tendências, as companhias tentam atacar o problema por outras frentes. Nos últimos anos, tem crescido o número de empresas com programas internos de gestão de saúde. Segundo a Mercer Marsh, 62% das com­panhias no país têm algum projeto desse tipo. As iniciativas vão desde as tradicionais palestras sobre saúde e bem-estar até o mo­nitoramento de funcionários com doenças crônicas como diabetes e hipertensão, que incluem até ligações diárias de enfermeiras.

"A ideia é fazer algo antes que as pessoas adoeçam ou, no caso de crônicos, evitar as internações, que represen­tam uma parte expressiva do gasto total com saúde", diz Marília Ehl Barbosa, presi­dente da Asap (Aliança para a Saúde Populacional). A entidade, criada em 2012, reúne empresas e planos de saúde interessados em pro­mover a gestão de saúde.

Os programas para doen­tes crônicos podem diminuir entre 20% e 25% os gastos com internações desses pa­cientes e evitar as "reinterna­ções", mais onerosas. "Isso significa uma redução líqui­da de 3% na despesa total com saúde", diz Marília.

• Telemedicina

Com cerca de 100 mil fun­cionários, a Vivo/Telefônica "importou" da sua matriz es­panhola há cerca de oito me­ses um programa de monito­ramento de doentes crônicos, com o uso de telemedicina. Um grupo de 2.000 empre­gados em São Paulo partici­pa do projeto. Após fazerem medições em casa, eles inse­rem informações como pres­são arterial e glicose em uma plataforma virtual. Os dados são acompanhados por mé­dicos da companhia ou da sua rede referenciada (exclu­siva da empresa).

"Se mal geridos, os doen­tes crônicos chegam a impac­tar 60% do custo total da car­teira de saúde da empresa", diz Michel Daud Filho, dire­tor de saúde e qualidade de vida da Vivo. Segundo o executivo, as iniciativas têm ajudado a em­presa a manter seu custo de saúde "equilibrado".

Demitidos e aposentados elevam gastos

Uma regulamentação de 1998 está contribuindo pa­ra elevar os gastos das em­presas com saúde. Um artigo da lei nº 9.656/98, que regulamen­tou o setor de saúde suple­mentar, prevê que demiti­dos sem justa causa e apo­sentados possam perma­necer com o plano de saú­de após sair da empresa.

Segundo a norma, a ex­tensão do beneficio depen­de do tempo de contribui­ção após o desligamento do funcionário. Para demi­tidos, o período máximo de cobertura após a saída da empresa é de dois anos. No caso dos aposenta­
dos, o beneficio pode ser vitalício, caso ele continue pagando o plano de saúde por mais de dez anos após o desligamento.

"Só agora, com os pri­meiros aposentados com­pletando esses dez anos, as empresas começaram a viver essa situação", diz Ju­liano Tomazela, gerente da Mercer Marsh. O impacto da lei nas contas das empresas com operação no país vai de R$ 100 milhões a R$1 bilhão, segundo a consultoria.

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